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2022 será mais híbrido do que nunca

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Em março de 2020, eu gravei um podcast falando sobre o impacto da Pandemia no futuro da educação. Ouvir novamente aquele áudio depois de tanto tempo é uma experiência muito interessante. Hoje eu percebo o quanto estava equivocado por acreditar que no segundo semestre de 2020 já retomaríamos a presencialidade. Nunca imaginei que essa retomada demoraria tanto.

Por outro lado, desde o início estava muito claro que o nosso modelo educacional seria brutalmente impactado e que nunca mais seria como antes. Passamos, ao longo de 2020, e ainda estamos passando, por uma mudança tecnológica, metodológica e, sobretudo, cultural muito importante.

Muito se fala dos avanços tecnológicos que vieram no último ano. Mas boa parte da tecnologia que hoje está sendo massivamente utilizada já estava disponível. A verdadeira transformação que vivemos foi cultural. E seria um enorme retrocesso voltarmos em 2022 ao velho modelo tradicional, predominantemente analógico, expositivo, instrucional e conteudista.

Isso porque tivemos pelo menos quatro avanços muito importantes durante a Pandemia. São eles:

  • Gestores educacionais entenderam a importância do uso da tecnologia para catalisar o processo de ensino e aprendizagem, acelerar o desenvolvimento de competências nos nossos alunos e revolucionar nosso modelo educacional;
  • Além da tecnologia educacional, os gestores compreenderam a importância de ajustar os currículos e as metodologias de ensino para um novo contexto, acelerando em alguns anos um movimento que já vinha em curso no ensino superior brasileiro. Nunca se falou tanto em ensino híbrido e uso da tecnologia para inverter a sala de aula;
  • Docentes aprenderam a ensinar de uma forma diferente. A tecnologia deixou de ser uma ameaça e passou a ser uma aliada à prática andragógica. O início foi difícil, mas aos poucos, com ou sem incentivo institucional, os professores se adaptaram à nova realidade e a grande resistência que existia em relação ao ensino online foi sendo quebrada por uma experiência em boa parte exitosa, embora erros tenham acontecido ao longo do processo. Mas os erros são importantes, fazem parte do aprendizado e contribuíram para chegar onde estamos;
  • Alunos dos cursos presenciais descobriram que o uso da tecnologia pode facilitar a logística e estão dispostos a não retomarem as aulas de forma 100% presencial. Por outro lado, não estão dispostos a continuar no ensino remoto, 100% online. Ou seja, nunca houve uma predisposição tão positiva por parte dos alunos para um modelo de ensino que seja híbrido e flexível.

Com tudo isso, temos um cenário ideal para a oferta de um ensino definitivamente híbrido a partir de 2022. O grande desafio das IES será desenhar um modelo híbrido que efetivamente funcione do ponto de vista de aprendizagem, do desenvolvimento de competências adequadas às reais demandas do setor produtivo. E que traga engajamento e uma alta percepção de valor por parte dos alunos.

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Para sacramentar a importância do ensino híbrido e deixar claro que esse é um caminho sem volta, o Conselho Nacional de Educação abriu uma consulta pública entre os dias 16/11 e 26/11 para o texto das Diretrizes Gerais Sobre a Aprendizagem Híbrida.  Até janeiro, devemos ter o texto definitivo e as diretrizes já valerão para 2022.

Destaquei alguns trechos extremamente importantes do texto publicado pelo CNE . Eles levam a uma mudança fundamental em relação ao conceito de presencialidade.

Veja os principais trechos:

  • No segundo parágrafo do Art 10, bem como no Art. 12, temos um grande avanço. A frequência legalmente prevista (que seria de 75% de presencialidade) extrapola a presença física do aluno na IES. Mais importante do que a presencialidade são os resultados de aprendizagem.

É importante que as IES criem mecanismos de aferição dessa frequência nos ambientes remotos, o que é relativamente fácil, considerando a tecnologia educacional hoje disponível em praticamente todo LMS.

Leia mais: À medida que o vírus diminui, o ensino híbrido cresce nas IES

  • Na aprendizagem híbrida, a frequência legalmente prescrita vai além da presença física do estudante no ambiente escolar, incluindo atividades fora da escola “sempre que o processo de aprendizagem, assim o recomendar”, valorizando os resultados de aprendizagem.
  • Art. 12. No desenvolvimento da aprendizagem híbrida, a frequência prevista para o ensino presencial da Educação Superior, nos termos do § 3º do art. 47 da LDB, deve se referir às horas de atividades acadêmicas, presenciais e não presenciais, devidamente orientadas pelo seu corpo docente, conforme os Projetos Pedagógicos de Curso e as políticas institucionais. Parágrafo único. A frequência efetivada pelo estudante nos ambientes remotos deve ser computada com aferição específica, mediante instrumentos diversificados e apropriados.
  • O Art. 11 traz outro elemento muito importante, que altera nosso atual paradigma. As práticas não presenciais do ensino híbrido não podem ser confundidas com os percentuais de atividades na modalidade EAD.
  • Ainda no Art. 11. A aprendizagem híbrida, uma vez adotada e prevista nos documentos institucionais curriculares, permite que atividades de aprendizado, referentes às práticas não presenciais, possam ser desenvolvidas online, de maneira síncrona e assíncrona, sem serem confundidas com percentuais de atividades na modalidade EaD.

Isso significa que em um bom modelo híbrido, o percentual de atividades não presenciais poderia até extrapolar os 40% de carga horária não presencial dos cursos presenciais, limite este estabelecido pela Res 2.117, de dezembro de 2019.

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Definitivamente, não podemos deixar esse retrocesso acontecer. Já caminhamos muito na construção de um modelo híbrido que não tem mais volta. Desde 2015, quando fui para Harvard estudar ensino híbrido e sala de aula invertida, está muito claro que existe um modelo em que o aluno aprende mais, fica mais satisfeito e custa menos. A pesquisa que apliquei aqui no Brasil mostrou que o modelo híbrido, com apenas 50% de carga horária presencial, promoveu uma aprendizagem 9% superior ao modelo 100% presencial, tradicional. Se bem planejado e bem executado, o híbrido funciona muito melhor.

O grande desafio para a construção de um bom modelo híbrido, que acaba sendo fator crítico de sucesso, é dimensionar bem os elementos que o compõem:

  • Quais atividades serão presenciais e quais atividades acontecerão de forma online.
  • Quais atividades serão síncronas e quais atividades acontecerão de forma assíncrona. Lembrando que tanto atividades online quanto presenciais podem ser síncronas ou assíncronas.
  • Por fim, quais atividades demandam interação entre professor e aluno e quais atividades podem ser realizadas de forma auto instrucional, sem interação docente. Este terceiro elemento, em especial, que é desprezado em boa parte dos modelos híbridos, é determinante do custo operacional da oferta.

Modelagem do ensino híbrido

Eu já escrevi aqui no Desafios da Educação alguns artigos sobre a modelagem do ensino híbrido e da sala de aula invertida, que detalham os elementos que devem ser considerados nessa construção. Recomendo a leitura.

Nos últimos 7 anos, apoiei mais de 100 IES aqui no Brasil e no México na construção de modelos híbridos.  Nos últimos 6 anos, tenho participado de várias pesquisas comparando diferentes modelos de ensino para entendermos de fato o que funciona e o que não funciona na nossa realidade.

Reforço a importância de criarmos  cada vez mais evidências para os modelos educacionais que propusermos. Somente assim teremos o conforto de escalar e replicar as boas práticas, pois saberemos quais práticas são boas de fato.

Com base nessa experiência dos últimos anos e nas evidências que tenho gerado, posso garantir que temos um modelo que definitivamente funciona muito melhor, se bem desenhado e bem executado.

Já temos tecnologia de ponta, conteúdo de qualidade, metodologias que comprovadamente geram maior engajamento e aprendizagem e agora, pós pandemia, temos uma predisposição cultural que nunca tivemos para resetarmos nosso modelo educacional, chancelada pelo próprio Conselho Nacional de Educação. Seria um grande desperdício se em 2022 não aproveitássemos essa baita oportunidade. Só depende de nós.

Gustavo Hoffmann
Gustavo Hoffmann é diretor do Grupo A, membro do projeto SAGAH e do conselho editorial do portal Desafios da Educação, onde escreve mensalmente.

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