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O início do ano letivo da IMED começou no dia 2 março. Três semanas depois, com o avanço do coronavírus no Brasil, a instituição de ensino superior precisou fazer como as outras: fechou as portas e migrou para o ambiente online as 14 graduações presenciais, além dos 40 cursos de pós-graduação lato sensu e os seis programas de mestrado.

“Não tivemos como escapar dessa operação de guerra”, diz William Zanella, vice-presidente acadêmico da IMED. “Mas já tínhamos uma base que nos ajudou bastante”, acrescentou – endossado pela gerente acadêmica da instituição, Juliana Priscila Cardozo. Ambos, cada um em sua casa, recentemente concederam entrevista por videoconferência ao portal Desafios da Educação.

Eles remontam a 2018. Naquele ano, como hoje, a IMED era uma instituição relativamente jovem – criada em 2004 em Passo Fundo, norte do Rio Grande do Sul, e com uma unidade até então recém-lançada em Porto Alegre. Foi quando lançou um PDI (plano de desenvolvimento institucional) inovador com três pilares acadêmicos: 1) aprendizagem ativa; 2) ensino híbrido; 3) educação empreendedora.

A ideia era que os cursos da IMED estivessem alinhados à transformação do ensino superior – uma estratégia que se revelou acertada com a chegada da pandemia. De certa forma, os 4 mil alunos de Passo Fundo e os 1 mil da capital gaúcha já estavam familiarizados com o “novo normal”. É o que Zanella e Cardozo afirmam na entrevista a seguir. Confira os principais trechos da conversa.

William Zanella e Juliana Priscila Cardozo.

William Zanella e Juliana Priscila Cardozo, da IMED.

O PDI 2018-2022 é focado em aprendizagem ativa, ensino híbrido e educação empreendedora. O que dá para destacar de cada um desses pilares dentro do contexto de ensino imposto pela pandemia?

William Zanella – De fato, essa base permitiu que a IMED fizesse uma virada no ensino de forma muito rápida. Começando pela aprendizagem ativa, que é uma transformação da sala de aula. Isso começou logo após a IMED se associar ao consórcio STHEM Brasil, que vem trazendo muitos profissionais dos Estados Unidos, de Harvard, para ensinar essas metodologias ativas. Então, ali foi um passo bastante importante; a gente já vinha numa caminhada grande de treinamento do professor para esse pilar.

O segundo, ensino híbrido, é que a gente sempre repeliu a questão do EAD nessa versão mais básica, nesse apostilamento. Entramos nesse processo com o suporte do Grupo A, através da Blackboard como plataforma. Também estávamos escalonados, fazendo uma reforma nos currículos desde 2018 para o ensino híbrido. E o terceiro pilar é a educação empreendedora. Tudo isso, junto, fez com que em cinco dias os alunos de todos os níveis (graduação, lato sensu e stricto sensu) estivessem tendo aula pela plataforma da Blackboard.

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Como são as aulas da IMED atualmente? E como os professores e alunos receberam esse “novo normal”?

William Zanella – Nós optamos por aulas síncronas, nos mesmos períodos das aulas normais, via Zoom. O que foi bastante simples de implementar. É um processo “frenético”, talvez essa palavra seja a mais adequada, de capacitação dos professores para o uso das múltiplas ferramentas da Blackboard.

Quase todos os professores chegaram a fazer cinco, seis horas de treinamento ferramentais por dia. Era muito frenético. O que permitiu essa virada com muita qualidade. Então, esse foi o nosso arranque.

Mas tenho dois pontos a destacar. Primeiro, nossos professores já estavam sensibilizados para esse modelo de ensino, o que acelerou a implementação. O segundo ponto é o alunado, que orbita em sua maioria entre as classes A e B. Os estudantes têm acesso a computador e internet, o que facilitou a migração massiva para o ensino online.

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Dá pra perceber que a experiência com o ensino híbrido foi importante em tempos de pandemia. Mas quais são as vantagens do modelo em “tempos normais”?

Juliana Priscila Cardozo – Em tempos normais a flexibilização de conteúdo é excelente para os professores. Utilizar das ferramentas e métodos online para a mescla metodológica também tem um impacto positivo. Uma metodologia que se alimenta muito do ensino hibrido é a sala de aula invertida.

Outro fator que eu acredito ser muito importante na disponibilização de conteúdo é o acesso que o aluno tem a posteriori. Vou te dar um exemplo: o professor faz uma aula expositiva, sana as dúvidas, resolve uma atividade, mas se encerra ali a explanação do professor. Então, um espaço virtual onde o aluno pode fazer um repositório de conteúdo e leituras complementares, isso tudo é muito rico para o aluno. Mesmo um fórum de discussões, para dúvidas que surgem depois da aula. O cara ficou pensando no que o professor falou e surgiram outras dúvidas: isso tudo abre um leque de possibilidades e interação do aluno com o professor por meio da plataforma. Isso tudo acontece na IMED.

Alunos da IMED.

Aprendizagem ativa: na IMED, uso de metodologias ativas é estratégico.

William Zanella – Agora, tem dois pontos que eu queria trazer. O primeiro é que o uso do ensino hibrido foi tomado em uma decisão institucional que ele não seria somado aos 20%, 40% de online. Eles não foram tomados no contexto na maioria das instituições, o que é: tem aula de segunda a quinta à noite e na sexta ou em outro dia tem aquela disciplina EAD. Esses 20%, eles compõem a disciplina regular. Então, todas as nossas disciplinas, no currículo novo, são hibridas. Esse hibridismo está em todas as disciplinas.

O segundo ponto é que a Juliana montou com a equipe do departamento de ensino e aprendizagem uma matriz, que eu acho que é o diferencial da instituição. Que cruza o perfil do aluno com os três pilares acadêmicos e define quais metodologias atendem cada perfil dentro de cada pilar. Esse é um trabalho que ajuda muito os professores, que dá um direcionamento.

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Como os alunos da IMED percebem e entendem a integração entre o ambiente presencial e o ambiente virtual de ensino?

William Zanella – Complementariedade. Acho que esse é o tema central na percepção. E cada curso trabalha isso de um jeito. O curso de Ciência da Computação percebe de uma forma, Medicina de outra. Mas o grande agrupador disso é a complementariedade. A soma da riqueza do professor no síncrono com a gama de possibilidades no online.

Mesmo que vocês atuem no setor acadêmico da IMED, o planejamento e as decisões de vocês são indissociáveis da IMED como negócio. Quais são as características e as ferramentas do AVA que dão competitividade ao trabalho de setor acadêmico?

Juliana Priscila Cardozo – Toda essa mudança, essa virada de chave, nesse curto espaço de tempo, só foi possível porque tínhamos esse recurso à disposição. O AVA era utilizado somente por uma fatia e focado muito na graduação e nos cursos 100% presenciais. Então a gente conseguiu entender que o strictu senso e o lato sensu também poderiam beber dessa fonte e utilizar este recurso. Então, conhecendo a plataforma, conhecendo as possibilidades, é que foi possível essa tomada de decisão para uma virada tão rápida. Então, o que a plataforma nos entrega é que a gente pode tomar decisões quanto a gestão dos cursos. Esse é o melhor exemplo que eu poderia te dar, de ter transitado, tanto do AVA da Blackboard, quando do próprio SAGAH, como complemento aos docentes e a disseminação de conteúdos também.

Nós temos professores que são muito autodidatas e produtores de conteúdo, então o SAGAH é utilizado como complemento. Para você ter ideia: de todas as matrículas que a gente tem dentro do AVA, a gente não utiliza o mesmo número para o SAGAH, porque os professores se interessam em selecionar os conteúdos.

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William Zanella – Institucionalmente, uma plataforma que é mais robusta dá mais tranquilidade para os tomadores de decisão, porque ela vai estar 100% no ar, terá as questões técnicas sanadas. A gente não vai precisar montar um time interno para isso, então ela dá tranquilidade. Em segundo ponto, para o professor, uma ferramenta mais robusta, permite dar uma caixa de ferramentas com mais ferramentas, para que ele possa explorar o potencial – o seu e o da turma. Então, usar mais ferramentas, bem claras e treinadas, resulta em um avanço.

Para o aluno, eu acho que volta para aquela questão de complementariedade. Nós fizemos uma campanha de ligação para os alunos depois de 15, 30 dias depois de iniciar a covid-19. Uma ligação para ouvir o aluno, para saber como estava a família e tudo mais. E a ferramenta tem ajudado nisso. Se eu não posso estar na hora da disciplina lá, eu posso ler o conteúdo em outro momento. Então, ele dá mais flexibilidade para esse aluno e eu acho que isso é bem importante.

O home office se tornou o “novo normal”. É provável que muitas funções sejam adaptadas daqui em diante – o trabalho remoto era uma tendência que se confirma agora. E a educação a distância: vai crescer também?

Juliana Priscila Cardozo – Eu acho que é um caminho sem volta. Eu não acho, eu acredito que a educação a distância é um caminho sem volta. E estou muito feliz com a postura que a IMED tem adotado com relação a isso. Ao mesmo tempo que eu e o William, nós não acreditávamos tanto na educação a distância. Então a gente reformulou a tal da EAD, hoje a gente tem uma educação remota, que é diferente da a distância, não tem um distanciamento do aluno, nós mantemos um contato com o aluno constantemente, não só do docente, mas da instituição.

A própria ação, que o William comentou, de estarmos entrando em contato com os alunos e de estarmos ligando para eles. O William fez ligações, eu fiz ligações, a central fez ligações, todo mundo ligou para todo mundo para saber como os alunos estavam. Então a agente se repaginou, se co-criou em cima de algo que já vem acontecendo há muitos anos, que é a educação a distância.

William Zanella – Eu acho que esse é o grande tema. Se a gente pegar o conceito de ensino a distância e esse distanciamento, isso morreu. A gente vem comentando aqui, que o ensino a distância, da forma como ele foi conduzido, versão 1, versão 2 e versão 3, para mim, neste momento é de dar um basta e dizer: “Olha, agora a gente vai ter um ensino, que ao meu entendimento é muito melhor que o presencial e muito melhor que o ensino a distância. Acredito que nós vamos ter uma educação melhor”.

A gente costuma trabalhar a taxonomia de bloom e também as formas de aprendizado de cada pessoa, que é diferente. Este ensino, com tecnologia ou com essas ferramentas, vai permitir que a gente possa trata-los diferente, levando a sua formação ao alto nível. Então, é nisso que a gente acredita.

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Redação
A redação do portal Desafios da Educação é formada por jornalistas, educadores e especialistas em ensino básico e superior.

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