Ensino Básico

A alfabetização e o letramento no Brasil, segundo Magda Soares

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É impossível discutir com seriedade alfabetização e letramento sem mencionar a educadora e pesquisadora Magda Soares. Professora titular emérita da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em 1990 Magda fundou nessa instituição o Centro de Alfabetização, Leitura e Escrita (Ceale), do qual continua sendo pesquisadora atuante e diretora emérita.

Graduada em Letras, doutora e livre-docente em Educação, Magda Soares tem uma extensa lista de obras publicadas, incluindo diversos livros didáticos de língua portuguesa usados dos anos 1970 a 1990.

A professora Magda Becker Soares. Crédito: Glaucia Rodrigues/Revista Fapesp/divulgação/Magda Soares.

Em 2017, recebeu um dos prêmios de maior prestígio do mercado editorial brasileiro. Seu livro Alfabetização: a questão dos métodos (Editora Contexto) ficou em primeiro lugar entre as obras de educação e pedagogia na 59ª edição do Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, e foi considerado o livro do ano na categoria de não ficção.

Mesmo com uma agenda repleta de compromissos, a professora integrante do conselho consultivo da Pátio Ensino Fundamental concedeu esta entrevista em meados de 2018, na qual brinda o leitor com sua visão lúcida sobre os caminhos e descaminhos da alfabetização e do letramento no Brasil. Publicada na edição n° 85 da Revista Pátio Ensino Fundamental, a entrevista é recuperada no Desafios da Educação.

Em abril passado, vale lembrar, Soares também concedeu entrevista ao portal onde abordou, entre outros assuntos, a polêmica envolvendo a nova política de alfabetização (método fônico) e a tentativa de suspender o Saeb – o Sistema de Avaliação da Educação Básica.

Avaliações nacionais e internacionais têm mostrado que os estudantes brasileiros apresentam grande dificuldade para compreender e interpretar textos. Como uma das principais pesquisadoras da área nas últimas décadas, que perspectiva histórica a senhora poderia apresentar sobre esse fato? Uma análise histórica dos resultados da alfabetização no Brasil em avaliações nacionais e estaduais evidencia, desde as estatísticas de índices de aprovação e reprovação dos anos 1960-1970 até as atuais avaliações com base em provas de larga escala, um reiterado baixo nível de leitura e escrita na aprendizagem inicial da língua escrita.

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Os brasileiros estão mais alfabetizados, mas menos letrados? Em primeiro lugar, não se pode pretender, penso, que os brasileiros estejam hoje mais alfabetizados que antes, se se entender por alfabetização algo mais que saber codificar e decodificar. Em segundo lugar, julgo muito difícil separar alfabetização de letramento, no estágio atual das teorias da leitura e da escrita: a alfabetização, segundo essas teorias, se desenvolve em contexto de letramento, que dá sentido ao aprender a ler e escrever, portanto, ser alfabetizado supõe ter também pelo menos algum nível de letramento. O que se pode dizer é que os níveis de letramento, tal como os níveis de alfabetização, são ainda muito baixos na população brasileira, como têm mostrado os resultados de pesquisas sobre índices de alfabetismo (letramento).

Temos uma tendência a achar que há 30 ou 50 anos lia-se mais e melhor. A senhora concorda com essa opinião? Para responder, seria preciso atribuir objeto direto ao verbo ler: lia-se o quê? Talvez há 30, 50 anos se lesse mais e melhor livros, revistas, jornais… Atualmente, esses portadores de texto em papel enfrentam a concorrência de portadores de texto em telas — TVs, computadores, celulares, jogos digitais —, que também pedem leitura… Se considerarmos a multiplicação, nas últimas décadas, de textos, portanto, de propostas de leitura, em numerosos contextos sociais, sob diferentes formas e suportes, talvez se possa dizer que hoje se lê mais. Resta discutir se podemos lamentar que essas novas propostas de leitura estejam afastando as pessoas da leitura no papel — o uso do verbo “lamentar” revela um juízo de valor que eu faço, e muitos também fazem.

Os resultados recentes evidenciam que a escola está falhando em ensinar crianças e jovens a ler. Na sua opinião, onde estamos errando? Enquanto considerarmos que ensinar a ler é uma questão de “métodos” e de “atividades de interpretação de textos”, continuaremos fracassando em alfabetizar e letrar adequadamente nossas crianças. Em relação à alfabetização, entendida como apropriação do sistema alfabético, prevalece a falsa suposição de que basta adotar um método, entre os vários que são oferecidos. Na verdade, ensinar a ler é processo muito complexo. Exige de quem ensina conhecimentos linguísticos e psicológicos.

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Por que é preciso ter esse conhecimento? Aprender a ler significa apropriar-se de um objeto linguístico — a língua escrita — complexo e abstrato, um sistema de representação convencional e em grande parte arbitrário, que demanda de quem aprende operações cognitivas de diferentes naturezas, por sua vez dependentes dos estágios de desenvolvimento do aluno. Por isso é que ensinar a ler exige ter conhecimentos de natureza linguística sobre este objeto de conhecimento, a língua escrita — por exemplo, conhecimentos de fonologia, ortografia, das estruturas silábicas do português —, e conhecimentos de natureza psicológica — por exemplo, da psicogênese da língua escrita, da psicologia cognitiva, da psicologia do desenvolvimento.

Como a senhora analisa o impacto das políticas públicas em vigor atualmente, como o Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa (PNAIC)? Pode-se dizer que a cada mudança de gestão em nível nacional ou estadual novas políticas de atualização, aperfeiçoamento e formação continuada de professores são implantadas. Embora sejam poucos os estudos e pesquisas de avaliação dos resultados dessas políticas, talvez mesmo devido à sua descontinuidade, o que não se pode negar é que as avaliações da aprendizagem dos alunos vêm revelando que os resultados das políticas não têm correspondido às expectativas de avanço na qualidade do ensino. Levanto algumas hipóteses para a compreensão desse descompasso entre multiplicação de políticas de formação e o pouco avanço na aprendizagem das crianças. Uma hipótese é o conteúdo dos programas, que não têm, em geral, privilegiado o que mais falta aos alfabetizadores e formadores de leitores.

Uma outra hipótese é que, em geral, as políticas de formação continuada são estruturadas prevendo a reunião de diferentes professores em diferentes redes de educação, de modo que a heterogeneidade dos contextos e das peculiaridades do ensino em diferentes municípios equaliza o que é desigual, tornando difícil a discussão de questões e dúvidas específicas.

Uma terceira hipótese (que pode ser vista como meio autoritária, mas vou correr o risco…) é que os programas são quase sempre oferecidos à adesão pelos municípios e, neles, à adesão de professores, o que torna os efeitos quase individuais, o que seria corrigido se os programas fossem estruturados visando à melhoria dos professores de conjuntos de escolas ou até de toda uma rede, não só daqueles que aderissem ao programa, em geral por interesse pessoal. O critério da adesão pressupõe que o avanço na qualidade da educação seja uma questão de opção, quando esse avanço é uma responsabilidade social.

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Ensinar a ler e escrever ainda é considerada atribuição apenas dos professores de língua portuguesa. Como a senhora analisa isso? Aqui, julgo necessário que se faça uma distinção. A aprendizagem inicial da língua escrita, a alfabetização, o ensinar a ler e escrever, é atribuição de um profissional que conheça, como disse, o processo linguístico e cognitivo de apropriação da língua escrita por crianças no início de seu processo de escolarização, (o que considero ser a pré-escola e os dois anos iniciais do ensino fundamental).

A seguir, no que se refere ao desenvolvimento da leitura, ao ler com compreensão, sabendo interpretar, inferir, relacionar ideias em textos de diferentes gêneros, entre outras habilidades leitoras, a atribuição, se é específica do professor de português, é também de todos os outros professores, porque todos eles trabalham intensamente com textos, e textos de gêneros específicos de seu campo de conhecimento, portanto, textos cuja leitura, compreensão e interpretação só eles têm plenas condições de orientar. Quanto a questões ortográficas, de concordância, de regência, supõe-se que, como professores de todas as áreas têm, ou devem ter, o domínio da variedade formal da língua escrita, é também a eles que cabe orientar os alunos para o domínio dessa variedade.

Na cultura digital, a relação dos jovens com a escrita mudou. Que impacto desse fato a senhora verifica em relação ao letramento? Na verdade, há escritas digitais, no plural, porque são escritas com peculiaridades segundo as possibilidades da tecnologia usada, do gênero, dos objetivos, dos destinatários dos textos, escritas que têm características próprias que as diferenciam das escritas em papel, e aqui de novo uso o plural, porque, tal como as escritas digitais, estas também têm características próprias, segundo o gênero, os objetivos, os destinatários do texto. Há ainda poucos estudos e pesquisas sobre a influência, ou não, de características de escritas digitais sobre a escrita em usos convencionais.

O que ainda é dúvida, ou são hipóteses, é se os alunos têm transferido para sua produção de texto nos gêneros da escrita em papel recursos da escrita digital, como as abreviações, as alterações ortográficas, recursos visuais como os emojis, os emoticons… De qualquer forma, a escola precisa hoje incluir no ensino da língua escrita a reflexão sobre as diferenças entre escritas digitais e escritas no papel, a importância de adequar seu texto às características do suporte que usa — tela ou papel —, dos gêneros, dos objetivos e dos destinatários.

E quanto à leitura? Talvez se possa dizer que tem ocorrido um grande impacto da cultura digital sobre a cultura do papel. Os jovens leem sem dificuldade as escritas digitais. São eles mesmos que as criam… A leitura digital é mais fácil e mais rápida, porque os textos devem ser, por natureza, breves (estou excluindo a leitura de informações buscadas na internet, de livros, jornais, revistas em tela), e isso vem criando uma certa impaciência dos jovens na leitura de textos mais longos, que demandam mais tempo e mais reflexão, com evidentes implicações para a formação de leitores atualmente.

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Do que os professores precisam para conseguir melhorar o nível de proficiência dos estudantes da educação básica em leitura? Os professores deveriam receber uma formação que os habilitasse a orientar adequadamente a aprendizagem dos alunos da educação básica. No caso do ensino da leitura e da escrita, não basta conhecer sobre a língua, conhecer teorias de leitura e de produção textual e teorias literárias, é preciso conhecer também como a criança aprende a ler e a escrever, como se forma um leitor, um produtor de textos, como desenvolver gosto pela leitura… Essa desconexão entre conhecer sobre o que se vai ensinar e conhecer como se aprende o que se vai ensinar é particularmente grave no caso da formação de professores para a educação infantil e as séries iniciais do ensino fundamental na licenciatura em Pedagogia.

Elevar a qualidade de ensino depende de uma reformulação dos cursos de formação de professores, embora não se possa negar que depende também de vários fatores que nos têm faltado na área de educação: melhores condições de infraestruturas escolares, de salários, de eliminação de discriminações de natureza econômica e social características de sociedades hierarquizadas como a nossa.

Que tipo de práticas e estratégias pedagógicas a senhora aponta como sugestão para os educadores? Não são práticas, estratégias, métodos que se deve sugerir aos educadores. Educar ou ensinar não podem nem devem ser ações guiadas por prescrições, fórmulas, mas por conhecimento e compreensão de como a criança ou o jovem aprendem aquilo que se ensina. Práticas e estratégias serão, assim, decorrentes desse conhecimento e compreensão. Isso é que dá ao professor condições de criar suas próprias práticas e estratégias, decidir ele mesmo como ensinar aqueles a quem ensina, ou lhe dá condições de selecionar, entre práticas e estratégias sugeridas por livros didáticos e paradidáticos, por colegas, e por tantas outras fontes, aquelas que se fundamentem em conhecimento e compreensão dos processos de aprendizagem daqueles a quem ensina. 

Redação
A redação do portal Desafios da Educação é formada por jornalistas, educadores e especialistas em ensino básico e superior.

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    1 Comentário

    1. É muito importante que o professor compreenda como uma criança aprende aquilo que se quer ensinar porque todo profissional de sucesso conhece o seu objeto de trabalho, por exemplo o cardiologista é um especialista em coração, biólogo é na ciência da natureza e etc. Assim, deve ser o professor conhecer como se dá o processo de aprender. Ao se apropriar desse conhecimento o professor estará mais seguro para desenvolver estratégias de ensino que motivem a aprendizagem.

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