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E se convertermos escolas e universidades em “centros seguros de aprendizagem online”?

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Sala de aula vazia. Professora explica como converter os ambientes físicos e outros grandes espaços não utilizados em centros seguros de aprendizagem online. Crédito: Pixabay.

Sala de aula vazia: ambientes físicos e outros grandes espaços não utilizados poderiam ser transformados em centros seguros de aprendizagem online. Crédito: Pixabay.

No acalorado debate sobre a reabertura de escolas, algumas questões tornam a tomada de decisão bastante complexa. O maior dilema é quanto risco à saúde. Muitos professores sofrem de doenças que os colocam no grupo de risco para a covid-19. Além disso, uma parcela significativa de crianças e jovens vivem com adultos idosos e com comorbidades.

Embora os dados disponíveis indiquem que o risco de complicações em crianças e jovens seja aparentemente baixo, ainda não se sabe o papel delas como vetores da doença. Um novo estudo feito na Coréia do Sul, com 65 mil pessoas, sugere que crianças menores de 10 anos transmitem o vírus para outras pessoas com menos frequência do que os adultos. Mas o risco não é zero. Entre 10 e 19 anos, as pessoas poderiam espalhar o vírus tanto quanto os adultos.

Apesar disso, compreende-se que enquanto as instituições de ensino seguem fechadas existe um crescente prejuízo emocional e de aprendizagem. Centenas de milhares não têm estrutura familiar e tecnológica para uma boa aprendizagem virtual. Além disso, a economia provavelmente não vai se recuperar até que os pais que trabalham possam enviar seus filhos à escola.

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Em meio ao dilema, um artigo de opinião no jornal The New York Times desta segunda-feira (20) oferece uma nova abordagem para reabrir a economia “sem matar pais e professores”.

Como? Permitindo que escolas e universidades ofereçam apenas aulas virtuais, convertendo seus ambientes físicos e outros grandes espaços não utilizados em centros seguros de aprendizagem online.

O argumento é de Shardha Jogee. Ela é professora de Astronomia na Universidade do Texas, em Austin, e mãe de uma criança da 6ª série. Segundo Jogee, essa solução permite que os adultos voltem ao trabalho, eduquem as crianças e mantenham todos seguros ao mesmo tempo.

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Como seriam os SCOLs

Funcionaria assim: os alunos que podem continuar estudando em casa continuam a fazê-lo. Os centros seguros de aprendizagem online (Shardha Jogee os chama de “SCOLs”, na sigla em inglês) seriam destinados sobretudo àqueles com dificuldade de infraestrutura e outros problemas.

O fato de atenderem apenas uma parcela dos alunos faria com que os centros não ficassem lotados. Grandes salas de aula poderiam receber um pequeno número de estudantes usando máscaras e sentados em mesas distantes umas das outras. Seria possível, assim, manter o distanciamento físico adequado.

A equipe de atendimento poderia incluir profissionais que se assemelham aos tutores da educação a distância. O papel deles seria o de sanar eventuais dúvidas dos alunos e ajuda-los a se conectarem aos cursos virtuais oferecidos pelas instituições.

Recém-formados poderiam ser recrutados para trabalhar nesses centros – um programa de perdão de empréstimos estudantis poderia incentivar a adesão. Embora alguns professores possam optar por trabalhar em um SCOL, a maioria seria capaz de atuar remotamente e gastar seu tempo desenvolvendo aulas virtuais realmente eficazes.

"Os alunos precisam apenas de uma mesa e um notebook", afirma Shardha Jogee.

Nos SCOLs, alunos precisariam apenas de uma mesa e um notebook, diz Shardha Jogee. Crédito: Governo do Paraná.

Leia mais: Pós-pandemia: como reabrir as escolas

Além de escolas e instituições de ensino superior, poderíamos criar esses centros nos muitos locais que ficarão vazios nos próximos meses, como centros de convenções, estádios, teatros e parques. No caso de um surto, os alunos podem voltar a estudar de casa ou ser reencaminhados a um centro diferente.

Os requisitos físicos seriam modestos, segundo Shardha Jogee. “Os alunos precisam apenas de uma mesa e um notebook.” A professora afirma, ainda, que os centros poderiam oferecer refeições aos alunos que dependessem da merenda.

Solução prática

Os centros seguros de aprendizagem online não são um conceito radical. Nos Estados Unidos, muitas universidades estão convocando parte do corpo discente ao campus para realizar aulas quase 100% virtuais. Em vez disso, os SCOLs se aproximariam de uma solução prática, mais segura e pragmática.

Até onde se sabe, não há nenhuma discussão no Brasil voltada à criação de centros seguros de aprendizagem online, mas apenas e principalmente para reabrir creches e escolas de educação infantil, fundamental e média.

De acordo com levantamento divulgado em 20 de julho pela Fenep, a Federação Nacional das Escolas Particulares, só o Amazonas retomou as atividades escolares presenciais, começando em Manaus. Outros nove estados e o Distrito Federal tinham data agendada para o retorno, a maioria no mês de agosto. Os demais estados brasileiros ainda não têm data definida.

No ensino superior e na educação profissional, aulas presenciais estão autorizadas para práticas laboratoriais.

Crianças em Manaus. Cidade foi a única a retomar aulas presenciais. Crédito: Altemar Alcantara/Semcom.

Crianças em Manaus. Cidade foi a única a retomar aulas presenciais. Crédito: Altemar Alcantara/Semcom.

O retorno seguro no Brasil provavelmente não poderia incluir aulas cinco dias por semana para todos os alunos. Por isso as redes de ensino pensam em alternar a aprendizagem em sala de aula e virtual. Mas como esse sistema ajudará pais, filhos e empresas a voltar ao horário normal – uma necessidade premente no momento em que mais pessoas estão sem trabalho do que trabalhando em todo o Brasil, segundo o IBGE?

Não bastasse essa questão, o Brasil está à beira de confirmar 80 mil mortes por coronavírus, segundo levantamento do consórcio de veículos de imprensa. Há surtos crescentes em todos os estados do Sul e em pelo menos outros cinco estados. Cabe lembrar: entre nações desenvolvidas, nenhuma enviou crianças de volta à escola com o vírus em patamares como o do Brasil.

Em vez de investir recursos e esforços em aulas presenciais que colocariam todos em risco – e que nem sequer seriam suficientes para permitir a reabertura da economia –, financiar opções criativas como os centros seguros de aprendizagem online não seria má ideia.

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Leonardo Pujol
Leonardo Pujol é editor do Desafios da Educação e sócio-diretor da República – Agência de Conteúdo.

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