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Como inspirar alunos e identificar talentos em sala de aula

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Gabriel Fernandes tinha apenas oito anos quando entrou pela primeira vez em uma pequena sala improvisada na escola municipal Ana Iris do Amaral, em Porto Alegre. Estava lá para participar de uma oficina de dança. Naquele dia, encontrou a professora que mudaria sua vida.

Hoje, aos 28 anos, depois de enfrentar muitos percalços, o menino negro, magro, de pernas muito finas e altas, é bailarino profissional. Atua na Joburg Ballet, uma academia de balé na África do Sul. Antes, passou por instituições de renome, como a Companhia Brasileira de Ballet, Theatro Municipal do Rio de Janeiro, Companhia de Dança Deborah Colker e São Paulo Companhia de Dança.

Sua trajetória, dos palcos da periferia às apresentações internacionais, provavelmente não seria a mesma sem a participação de Angela Tonon, bailarina, formada em Educação Física com especialização em Dança. “Se não fosse ela, junto com a Ana Iris e o projeto que ela lutou tanto para manter, eu não estaria aqui e nem conheceria o mundo de possibilidades que tenho hoje”, conta.

Como Gabriel, você provavelmente teve um professor ou professora que marcou sua trajetória. Aquela pessoa que fez você se apaixonar por história ou ajudou a descobrir seu talento em matemática. Afinal, inspirar alunos e identificar talentos é parte da missão docente.

Olhar atento aos alunos

Tonon, atualmente aposentada, entende que a arte funciona como uma propulsora do conhecimento. “Acredito que não há como aprender se não for com o corpo inteiro”, afirma. Com base nessa crença, em 1999, ela começou uma oficina gratuita de dança na escola pública onde lecionava.

Ao longo de mais de 15 anos à frente do projeto, identificou múltiplos talentos. Apesar de a dança ser uma expressão na qual o biotipo corporal conta muito, ela acredita que a definição de uma pessoa com aptidão para a arte vai muito além das características físicas.

“Para mim, os talentosos eram aqueles que acreditavam no sonho, que se divertiam e que estavam sempre querendo melhorar”, pontua. “Se destacavam aqueles estudantes que eram sensíveis e disciplinados, que sabiam trabalhar em equipe, que buscavam satisfação naquilo que estavam fazendo”, completa.

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Muitos professores reconhecem em suas turmas estudantes com habilidades diferenciadas ou mais facilidade para realizar determinadas tarefas. Do ensino básico ao superior, os docentes são capazes de transformar histórias por meio de exemplos inspiradores e olhares atenciosos.

Segundo uma pesquisa do instituto Gallup em parceria com a universidade norte-americana de Purdue, o engajamento no trabalho e o bem-estar após a formatura dependem menos do tipo de instituição que os universitários frequentaram e mais de quais experiências tiveram por lá.

O estudo mostra que as chances de os formandos se engajarem no trabalho mais que dobram quando lembram de ter um professor que se preocupava com eles como pessoa, que os deixava animados com o aprendizado e os encorajava a perseguir seus sonhos. O mesmo vale para as chances de prosperar em todos os aspectos do seu bem-estar, o que contribui para o desenvolvimento das suas aptidões.

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Treino, diversidade e incentivo

Talento não é só uma questão de facilidade natural. Possibilidades de experimentar, contato com a diversidade e a presença de uma ou mais pessoas de referência são aspectos marcantes para o desenvolvimento de competências e habilidades em qualquer fase da vida.

Para a diretora executiva da Fundação Estudar, Anamaíra Spaggiari, talento significa, principalmente, a capacidade gerar resultados, levando em conta o nível de oportunidades que a pessoa teve. Além disso, trata-se da habilidade de entender problemas complexos, de aprender e de analisar criticamente as situações.

De acordo com o livro “Metodologias Ativas para uma educação inovadora”, organizado por Lilian Bacich e José Moran, todos os professores e todas as atividades de ensino e aprendizagem podem contribuir para que cada aluno se conheça melhor, se oriente de forma mais consciente e, consequentemente, desenvolva melhor seus talentos.

A professora da PUCRS (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul), Lucia Maria Martins Giraffa, que ministra a disciplina de Metodologia do Ensino Superior para estudantes da pós-graduação, afirma que a proximidade com os alunos faz toda a diferença. “Nestas quatro décadas de docência, sempre busquei conhecer meus estudantes, por maior que fosse a turma. Isso é muito importante para uma boa avaliação”, comenta.

Segundo a docente, o convívio próximo permite observar comportamentos e trazer contribuições que vão além do conteúdo disciplinar. Para ela, compromisso, atitudes éticas e sinceras, colaboração com colegas e contribuições espontâneas durante as atividades são aspectos que chamam a atenção em um estudante.

O retorno para os alunos geralmente vem em forma de oportunidades e incentivo para que eles desenvolvam cada vez mais seus talentos. Já para os professores, a sensação de fazer a diferença na vida dos estudantes é a recompensa, muitas vezes acompanhada de um sentimento de orgulho e de uma ligação que extrapola as paredes das salas de aula.

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