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Como os “hackers” da educação querem transformar o ensino

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Vivemos tempos de mudanças na educação. A cada ano, vemos o crescimento nos cursos a distância, a ampliação do ensino híbrido – mesclando aulas presenciais com lições online -, inúmeras inovações em estratégias de ensino e a flexibilização do papel do professor. Nesse contexto, até mesmo as práticas que já são pouco tradicionais podem se tornar ainda mais diferenciadas. É o que está acontecendo nos Estados Unidos com o homeschooling, ou, como se passou a chamar aqui, o ensino domiciliar. Insatisfeitos com os rumos da escola ortodoxa, um grupo de pais da Califórnia está reinventando a sala de aula em casa com o projeto batizado de hackschooling, transmitindo a ideia de “hackear a escola”.

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Nem todo hacker se propõe a praticar o mal
[FONTE: 1000 words 1000 days]

O termo – e o conceito – foram criados pelos pais do garoto Logan La Plante. A família acredita que, no atual mundo da informática, tudo pode ser “hackeado” para o bem, aprimorando-se processos e buscando novas maneiras de atingir os mesmos objetivos. E, para transformar a educação, eles apostam em uma escola com foco na felicidade e em projetos de vida, mais do que em carreiras e notas. Embora estejamos falando de Ensino Fundamental e Ensino Médio, as reflexões servem para professores e gestores de todos os níveis, já que os preceitos básicos do sistema são bastante universais: entre eles, estão exercícios, boa alimentação, tempo na natureza, contribuição e serviços aos outros, relacionamentos, recreação, tranquilidade e espiritualidade. Mas o melhor porta-voz do projeto é o próprio Logan LaPlante. Veja a palestra que o adolescente de 13 anos deu em uma TED Talk que já tem mais de 5 milhões de visualizações.

Mas como colocar esse belo discurso em prática? O caminho encontrado foi criar a Natomas Homeschool Alliance (ou Aliança do Ensino Domiciliar de Natomas, em bom português), uma rede de apoio a pais que dão aulas a seus filhos em casa mas desejam adotar um modelo híbrido, com participação em aulas coletivas e grupos de estudos da região. A aliança se transformou em cooperativa e conta com diversos parceiros que se encontram semanalmente para dar aulas coletivas e incentivar a socialização das crianças. O grupo tem diversos apoiadores. Mas – não poderia ser diferente – também há muita gente que critica o sistema. No Brasil, por exemplo, tal modelo sequer seria regulamentado.

Embora a legislação brasileira não proíba o ensino domiciliar, ele não é reconhecido como educação formal nem incentivado pelo MEC. A postura do Ministério é defender que as crianças devem ser inseridas no convívio escolar, já que faz parte das obrigações do Estado educar os cidadão para o convívio em sociedade. Hoje, as cerca de 800 crianças que estudam em casa no País precisam ser aprovadas no ENEM para receberem o diploma de conclusão do Ensino Médio. Mas o caminho até a prova pode ser cheio de obstáculos.

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Aprender em casa permite supervisão constante dos pais. Bom ou ruim?
[FONTE: The daily beast]

O Ensino Fundamental é obrigatório no Brasil, e os pais que impedem o acesso dos filhos à educação podem ser acusados de abandono intelectual. Entretanto, a lei não estabelece a escola como única fonte de educação, por isso, desde que consigam provar que seus filhos estão recebendo educação intelectual, não há impeditivo para o ensino domiciliar. E, apesar dos apelos do MEC, estima-se que a prática esteja crescendo no País. Já existem grupos de pais que se unem em prol de uma educação caseira que não deixe a desejar em qualidade.

A personalização do conteúdo é a grande atração para os pais que escolhem o ensino domiciliar. Sem grade fixa de horários, os pais podem improvisar as disciplinas do dia conforme o interesse das crianças. A maioria também investe em atividades de socialização como cursos particulares e atividades extracurriculares. Outro fator determinante para quem tira os filhos do ambiente escolar são as influências externas que destoam dos valores da família, além do medo de que a criança seja vítima de bullying ou agressões por outros colegas. Neste ponto, também há polêmica. Para os técnicos do MEC, a exposição a diferentes influências faz parte da educação cultural do indivíduo, e não caberia aos pais o direito de manter os filhos em uma “bolha” na qual não há divergências de valores e opiniões.

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Pausa no alpinismo para aula de geografia
[FONTE: IIDE]

O debate é amplo e está longe de chegar ao fim, seja nos Estados Unidos ou no Brasil. Se, por um lado, ainda não conseguimos nos afastar da educação voltada à boa performance em provas, por outro, a personalização do ensino já está se tornando realidade mesmo em instituições tradicionais. Graças às novas tecnologias, diversas escolas já conseguem adaptar seus métodos às aptidões e à rotina dos alunos. Sobretudo na EAD, os estudantes assumem um papel ativo e se tornam agentes da própria educação. Para eles, estudar em casa é sinônimo de liberdade, já que podem fazer suas grades de horários e levar a sala de aula para onde quiserem. Caberá a todos nós, professores, alunos e gestores, investigar quais as melhores práticas para cada faixa etária e para cada contexto. O importante mesmo é nunca esquecer que podemos “hackear” a tradição para melhorar a experiência de ensino.

E você, como “hackearia” o ensino em sua instituição? Se quiser receber por e-mail reflexões como essa sobre as mais novas tendências da educação, assine nossa newsletter.

Redação
A redação do portal Desafios da Educação é formada por jornalistas, educadores e especialistas em ensino básico e superior.

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