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Nova onda da EAD é híbrida. Saiba como surfá-la

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ensino híbrido

Planejamento: IES que quiser ofertar modelo híbrido, sem o limite de 20% da carga horária, deve solicitar o credenciamento para EAD. Crédito: Pexels.

Está aberta, desde 3 de outubro, a janela para pedidos de credenciamento de cursos na modalidade a distância. Trata-se da última oportunidade do ano para o credenciamento, que se encerra no dia 4 de novembro.

Tenho recebido mensagens de gestores de todas as regiões do país que perguntam: por que e como entrar na educação a distância (EAD)? Antes de responder neste meu espaço mensal, no entanto, acho importante esclarecer alguns aspectos regulatórios que ainda geram dúvidas em relação às modalidades presencial, EAD e híbrida.

Do ponto de vista regulatório, existem duas possibilidades de credenciamento institucional: ensino presencial e ensino a distância.

O ensino presencial permite a oferta de, no máximo, 20% da carga horária não presencial. De acordo com a Portaria 1.428, publicada em dezembro de 2018, em condições específicas alguns cursos podem chegar a 40% da carga horária ofertada de forma não presencial. Acontece que se uma instituição de ensino superior (IES) não estar credenciada para a EAD, ela fica limitada aos 20%.

Já o credenciamento para EAD permite a oferta de, no máximo, 30% da carga horária total do curso na modalidade presencial (desconsiderando os estágios obrigatórios).

Pois bem, qualquer IES que hoje queira ofertar um modelo verdadeiramente híbrido, sem o limite de 20% da carga horária imposta pela regulação, deve solicitar o credenciamento para EAD.

Leia mais: Quais são os desafios de um gestor de programas EAD?

Motivos para o credenciamento EAD

O primeiro motivo pelo qual toda IES deveria se credenciar para ofertar cursos EAD se deve ao crescimento da modalidade. A divulgação o último Censo da Educação Superior mostra uma tendência incontestável: 46% dos ingressantes no ensino superior em 2018 se matricularam em cursos a distância.

Ou seja, é provável que já em 2019 mais da metade das novas matrículas sejam em cursos a distância.

Projeções da consultoria Educa Insights indicam que em 2023 a base total (ingressantes + veteranos) de alunos matriculados na modalidade EAD será maior do que a base presencial. Isso porque enquanto o número de novas matrículas nos cursos presenciais apresentou queda nos últimos 3 anos consecutivos, no EAD online cresceu 26,5% em apenas um ano, e, no modelo híbrido, o avanço foi de 71,9%, já representando 16% do total de novas matrículas na EAD.

O segundo motivo está relacionado à qualidade, à inovação e à eficiência operacional.

escrevi diversos artigos que defendo a oferta do modelo híbrido de ensino. Sem entrar em detalhes, é importante ressaltar que o ensino híbrido, se bem construído, planejado e executado, promove mais aprendizagem do que o modelo 100% presencial, tradicional, expositivo.

Além de ter um custo menor do que o presencial, o ensino híbrido promove maior satisfação, engajamento e percepção de valor quando comparado ao modelo 100% online. Em suma, trata-se de um modelo em que o aluno aprende mais, fica mais engajado, estuda com mais flexibilidade e gasta menos.

Não há dúvida de que o ensino presencial tradicional está falido. A tecnologia, incluindo realidade aumentada, inteligência artificial, computação cognitiva, aprendizagem adaptativa, conteúdo digital, as impressoras 3D, entre outras, permitirá, nos próximos anos, a chegada do modelo de ensino 4.0.

Leia mais: Quando a tecnologia está a serviço da educação

Não podemos ficar presos a questões regulatórias. É muito provável que o limite de 20% de carga horaria não presencial seja muito pouco para a revolução tecnológica pela qual estamos passando.

Assim, o credenciamento para a oferta de EAD abre um leque de oportunidades para qualquer instituição de ensino superior. Nenhuma delas deveria ficar de fora desse jogo, independentemente do seu posicionamento estratégico.

Qual seria a primeira ação para surfar esta onda?

A oportunidade está aberta. E a janela se fecha no dia 4 de novembro. Instituições de ensino que ainda não são credenciadas para a modalidade EAD podem protocolar o pedido até esta data.

O sistema e-MEC, onde o protocolo é feito, exige informações relativamente simples referentes à IES e aos cursos vinculados (IES que possuem autonomia não precisam vincular cursos ao processo, a não ser os cursos regulados que estão fora da autonomia universitária).

Após o credenciamento, o próximo passo é o preenchimento de um formulário eletrônico. Posteriormente acontece a visita in loco (é possível que a legislação mude, não sendo mais necessária a visita para processos autorizativos) e, em seguida, a tramitação nos órgãos competentes (Inep, Seres, CNE, Conjur e Gabinete do Ministro).

Trata-se de um processo que gera algum esforço, principalmente nas fases iniciais, mas é relativamente simples e absolutamente necessário para a nova onda do ensino superior.

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Planejando a oferta

O processo de credenciamento pode se desenrolar por cerca de dois anos. Ao fim do primeiro ano, e após as visitas in loco, é hora de iniciar o planejamento da oferta. Este planejamento inclui currículo, tecnologia, conteúdo, metodologia e formação de pessoas. Entenda por quê:

Currículo: a oferta de um curso EAD não é um simples espelho dos cursos presenciais. Por mais que eu defenda a maior similaridade possível entre os currículos, o tipo de oferta é diferente. Enquanto nos cursos presenciais as disciplinas previstas para o semestre são ofertadas em paralelo, durante 20 semanas letivas, nos cursos presenciais a oferta deve ser modular.

O mais comum são módulos de 10 semanas ou até mesmo uma disciplina ofertada por vez, como já acontece nos cursos de pós-graduação. Um aluno de EAD, mesmo na modalidade híbrida, normalmente se perde ao cursar um número elevado de disciplinas ao mesmo tempo. Por isso, a modularização acaba sendo uma boa alternativa.

Tecnologia: além do ambiente virtual de aprendizagem (AVA ou LMS, na sigla em inglês), é importante prever todas as ferramentas que permitirão não somente o maior engajamento do aluno, como também a geração de informações fundamentais para o gerenciamento do processo.

Recursos como “break out groups” e “polling” permitem uma interação síncrona em altíssimo nível, reproduzindo as metodologias ativas de aprendizagem que hoje são aplicadas em sala de aula para um ambiente 100% online. Aprendizagem adaptativa, realidade aumentada e a utilização de laboratórios virtuais são também alguns recursos tecnológicos que deveriam fazer parte de qualquer modelo de oferta EAD.

Leia mais: Big data reduz evasão e melhora performance de alunos em universidades

Conteúdo: foi-se o tempo em que o conteúdo de EAD era uma mera gravação das aulas presenciais, transmitidas posteriormente para os alunos via web. O modelo de videoaulas e PDF também já era.

Hoje, existem objetos de aprendizagem bastante sofisticados e bem estruturados, partindo de desafios ou problemas e passando por imagens, vídeos e textos bem dimensionados, criando trilhas que podem ser percorridas pelos alunos no seu próprio ritmo, de forma gamificada.

Metodologia: por mais que tecnologia e conteúdo sejam extremamente relevantes em uma oferta EAD ou híbrida, é a metodologia que faz a diferença. Modelos de EAD baseados em metodologias ativas de aprendizagem e sala de aula invertida funcionam bem melhor. Isso não é opinião: é evidência.

Formação de pessoas: com raras exceções, nossos professores do ensino superior não foram formados nem mesmo para o ensino tradicional presencial, expositivo. Muito menos para o uso de tecnologias educacionais e aplicação de metodologias ativas de aprendizagem.

Nossos programas stricto sensu preparam muito mais para a pesquisa do que para a docência. Portanto, a formação de pessoas preparadas para esse novo modelo é fundamental.

Se tudo isso for bem planejado e executado, pode subir na prancha e se preparar para surfar a nova onda do ensino superior brasileiro. E o melhor: em um oceano azul.

Leia mais: Não existe educação de qualidade sem bons professores

Gustavo Hoffmann
Gustavo Hoffmann é diretor do Grupo A, membro do projeto SAGAH e do conselho editorial do portal Desafios da Educação, onde escreve mensalmente.

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