Metodologias de Ensino

Os elementos vitais para o sucesso da sala de aula invertida

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O que diferencia um modelo bem sucedido de sala de aula invertida de um modelo insatisfatório é o investimento da IES em alguns elementos. Aqui estão eles

Desde que o texto “114 estudos em salas de aula invertidas mostram pequena recompensa para um grande esforço” foi publicado no site The Hechinger Report, em meados de dezembro, alguns educadores puseram em dúvida a real aprendizagem obtida pela metodologia da sala de aula invertida.

Para estimular o debate, e esclarecer alguns pontos, decidi comentar alguns trechos da versão traduzida do texto, publicada no site da revista Ensino Superior. Farei assim: abaixo, colocarei o trecho original em itálico e em seguida farei meus comentários.

O que performa melhor na aula invertida

“Há pesquisas menos rigorosas nas escolas secundárias e nas séries iniciais. Na pesquisa existente, alguns estudos descobriram que os alunos aprenderam muito mais em uma sala de aula invertida do que na forma tradicional, ouvindo palestras em sala de aula e fazendo a lição de casa depois. 

No entanto, outros estudos concluíram que os alunos foram prejudicados e aprenderam menos em uma sala de aula invertida. E muitos estudos não encontraram nenhuma diferença entre as duas abordagens.”

Estes achados são relevantes, pois não é a mera aplicação do conceito que gera resultados. A sala de aula invertida não é “one size fits all”. É fundamental que haja um bom planejamento, considerando a realidade de cada instituição de ensino superior (IES).

Aqui no Brasil, as IES que investem tempo e energia no planejamento desse novo modelo tendem a performar melhor. Outro elemento fundamental para o sucesso da execução é a formação docente.

Com raras exceções, nossos professores do ensino superior aqui no Brasil não foram formados para a aplicação das metodologias ativas, para o uso de tecnologia e para a adoção de um ensino híbrido. Temos que formar e dar suporte aos professores. E, por fim, acompanhar de perto a execução, corrigindo com agilidade eventuais erros. Esse é fator um crítico para o sucesso da sala de aula invertida.

Leia mais: Por que os professores escolhem usar a aprendizagem invertida

Tecnologia disponível

“A pesquisa em sala de aula invertida aponta para a importância de reunir alunos e professores para sessões de vídeo ao vivo. E sugere que pode ser um uso inteligente desse tempo de aprendizado síncrono para que os alunos resolvam problemas ou trabalhem juntos em um projeto em grupo.” 

Durante o ensino remoto, boa parte das instituições – do ensino fundamental ao ensino superior – estão utilizando as ferramentas de webconferência (Blackboard Collaborate, Teams, Zoom, Google Meet) para a realização de aulas expositivas. Isso tem que mudar.

Estamos utilizando tecnologia digital para replicar um modelo tradicional, predominantemente expositivo, que está falido. Hoje, já temos tecnologia disponível para aplicarmos metodologias ativas de aprendizagem em um ambiente 100% online. Os recursos de interação síncrona em um ambiente virtual de aprendizagem permitem a reprodução de diversas metodologias ativas que até pouco tempo só poderiam ser aplicadas em um ambiente físico.

Leia mais: Como a integração de tecnologias está revolucionando a EAD

Recursos como o breakout groups (Collaborate), salas temáticas (Meet), breakout rooms e salas simultâneas (Zoom) permitem que os professores proponham um problema via webconferência e dividam os alunos em grupos, ou salas virtuais privadas, nas quais poderão iniciar uma discussão entre colegas.

Neste modelo, alunos e professores interagem em tempo real, com um alto grau de engajamento. Os resultados são muito interessantes.

Lá fora, um bom exemplo deste modelo, concebido bem antes do início da pandemia, é o Projeto Minerva (minervaproject.com), que desenvolveu uma plataforma própria desenhada com o propósito de promover a aplicação de metodologias ativas em um formato 100% online. O Peer Instruction é uma das metodologias adotadas por Minerva e é aplicado em boa parte dos momentos online síncronos.

Questionários e análise de dados

“Os questionários extras eram outra característica das salas de aulas invertidas. Os questionários atraem os alunos a assistir e prestar atenção às aulas em vídeo antes. Muitos estudantes não têm disciplina ou motivação para fazer esse “dever de casa” de outra forma e acabam pulando totalmente as explicações do professor. Os questionários também forçam os alunos a relembrar informações dos vídeos das aulas e indicam que a repetição os ajuda a reter o que precisam aprender.”

Este é outro ponto que merece ser “tropicalizado”.

Culturalmente, um dos maiores desafios aqui no Brasil é garantir que os alunos acessem previamente um conteúdo que será trabalhado nos momentos presenciais. Utilizar ferramentas de analytics dos AVAs, monitorar os acessos dos alunos, oferecer apoio remoto aos que têm dificuldade para usar de tecnologia e reforçar em toda aula presencial a importância do estudo online são alguns elementos que mitigam o risco da baixa adesão ao componente online do processo.

Leia mais: Learning analytics: o poder dos dados na instituição de ensino superior

No limite, a aplicação de uma avaliação conteudista semanal acaba sendo uma forma eficaz de garantir acesso prévio ao conteúdo. Não há uma regra, por isso é importante conhecer o perfil dos alunos antes de iniciarmos a modelagem da sala de aula invertida.

O potencial dos vídeos

“Usar palestras longas e gravadas anteriormente é considerado um golpe ruim, disse van Alten, explicando que é difícil cortar atalhos ou confiar em vídeos gratuitos disponíveis no mercado e obter bons resultados.”

Outro fator crítico de sucesso é o formato do conteúdo disponibilizado no AVA. Modelos que preveem vídeos longos ou textos mal dimensionados acabam desestimulando o consumo prévio do conteúdo.

Se nos momentos presenciais o professor percebe que os alunos não acessaram o conteúdo previamente, é inevitável que tome um tempo maior da aula com exposições. Isso diminui o tempo de aplicação do conteúdo, prejudicando o processo. Além disso, se o resgate de conteúdo tomar boa parte do tempo da aula, os alunos ficarão ainda menos interessados no acesso prévio, pois saberão que o professor fará a exposição nos momentos presenciais, criando um ciclo vicioso.

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Conclusão

Em suma, o sucesso da sala de aula invertida depende muito de um bom planejamento. Também da formação docente e de um acompanhamento bem próximo de toda a execução. Na modelagem, é fundamental dimensionar bem o conteúdo, as interações síncronas, as interações assíncronas e os momentos presenciais. O que diferencia um modelo bem sucedido de sala de aula invertida de um modelo que não traz resultados satisfatórios é o investimento da IES nesses elementos.

Gustavo Hoffmann
Gustavo Hoffmann é diretor do Grupo A, membro do projeto SAGAH e do conselho editorial do portal Desafios da Educação, onde escreve mensalmente.

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