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Não existe educação de qualidade sem bons professores

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“Quem vai querer ser professor?”. Estampada em um cartaz, a pergunta dava o tom de uma das manifestações realizadas em maio em cerca de 250 cidades brasileiras.

À época, um bloqueio de R$ 5,8 bilhões no orçamento, anunciado pelo Ministério da Educação (MEC), cortou centenas de bolsas de pós-graduação e afetou o custeio das universidades federais e até mesmo da rede básica de educação.

Na semana passada, quase cinco meses depois dos protestos, o governo anunciou a liberação de R$ 1,99 bilhão do montante contingenciado. O ministro da Educação, Abraham Weintraub, disse que a situação está sendo regularizada em razão da recuperação econômica. “Educação é uma prioridade para o governo”, afirmou.

Deveria ser prioridade de todo governo, a educação de qualidade – que, aliás, não existe sem investimentos em pesquisa e infraestrutura como salas de aula bem-equipadas, novas tecnologias, laboratórios modernos e transporte aos alunos.

Da mesma forma, não existe educação de qualidade sem um projeto direcionado à formação de bons professores.

O alto nível educacional alcançado por países como Coreia do Sul, Singapura e Finlândia é proveniente, entre outros fatores, de políticas públicas de incentivo, seleção, reconhecimento e formação continuada de quem leciona.

dia do professor

Docente na sala de aula: não há futuro sem bons professores. Crédito: Freepik.

No Brasil, contudo, a capacitação docente deixa a desejar. Segundo com o Anuário Brasileiro da Educação Básica 2019, menos da metade dos professores do 6º ao 9º ano tinham formação superior compatível com as disciplinas que lecionaram em 2018.

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Além da falta de preparo, a baixa qualidade dos cursos de Pedagogia e outras licenciaturas é outro problema a superar. Não são poucas as formações que se debruçam mais em aspectos teóricos e do que práticos.

Também há incertezas sobre a qualidade das graduações a distância, cuja oferta cresce a cada ano, e mesmo a respeito do alunado. Como os cursos de Pedagogia são, em geral, de fácil acesso, acabam permitindo o ingresso de alunos menos qualificados.

“Vinte por cento dos alunos que vão para cursos de Pedagogia e licenciatura têm nota entre 450 e 500 no Enem. Não poderiam nem ter diploma de ensino médio”, criticou Priscila Cruz, presidente-executiva do Todos Pela Educação, em entrevista ao jornal Valor Econômico. A nota máxima do Enem é de 1000 pontos.

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Ensino superior é solução?

O dado mencionado por Cruz serve de alerta. Afinal, a qualificação dos professores tem impacto direto sobre a aprendizagem dos alunos. Não à toa, uma das metas do Plano Nacional de Educação (PNE) é a formação de nível superior para todos os docentes do ensino básico até 2024.

Pelo que se pode perceber, o Brasil está avançando nesse sentido. Entre 1995 e 2015, o percentual de professores de educação básica com nível superior aumentou consideravelmente, de 49% para 83%.

Mas uma maior proporção de docentes com formação de nível superior não necessariamente reflete maior qualidade do ensino. A conclusão é do estudo Requirements to Be a Teacher in Brazil: Effective or Not?, divulgado em setembro pelos pesquisadores Leandro Oliveira Costa, economista sênior do Banco Mundial, e Marcelo Ponte Barbosa, professor da Universidade Federal do Ceará (UFC).

Os autores escrevem que a universalização da educação expandiu a rede básica e estimulou a contratação massiva de novos professores. “Em resposta à demanda crescente por professores com diplomas, aconteceu um boom no fornecimento de cursos de licenciatura para essa área”, indica o estudo.

O resultado ainda está longe do ideal. Hoje, um em cada três brasileiros segue considerado analfabeto funcional. No Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), calculado de 0 na 10 com base no aprendizado e na taxa de aprovação, os alunos do 5º ano têm média 5,5 e os do ensino médio, 3,5.

O Brasil também está entre os piores países do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), que aplica provas de conhecimento a jovens de 15 anos de 72 países e economias. Segundo os últimos dados disponíveis, de 2015, o Brasil está na 63ª posição em ciências, na 59ª em leitura e na 66ª em matemática.

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Formação continuada

Mas, afinal, o que devem aprender aqueles que ensinam? A jornada do professor passa pelo domínio do conteúdo, pelo conhecimento do contexto em que sua comunidade está inserida e sobre quem são os estudantes sentados em sua frente – ou seja, conhecer suas histórias de vida, emoções e, sobretudo, seus limites.

Quem afirma é Heloisa Morel, diretora executiva do Instituto Península, na versão brasileira de Preparando os Professores para um mundo em transformação. Lançado com o selo da editora Penso, o livro é uma das novidades da coleção Biblioteca Essencial do Professor.

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Para Morel, a universidade ainda não cumpre o papel de formar o docente à prática. “Temos educadores que chegam em sala de aula sem saber lidar com o que vai além da disciplina que dominam, em descompasso com o que o mundo pede.”

Para estimular o interesse do aluno e fazer com que a didática acompanhe seu ritmo, o professor precisa criar uma conexão com o estudante. “Ou, então, todos os esforços serão em vão”, afirma a diretora do Instituto Península.

Segundo ela, a qualificação e a formação continuada são eixos básicos para uma mudança de paradigma. “Se queremos fortalecer a profissão que é a chave para a transformação que o Brasil necessita, além da revisão da formação inicial, é preciso investir em políticas públicas de incentivo e formação continuada de professores.”

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No colégio Santa Maria, escola privada da zona sul de São Paulo (SP), a coordenação pedagógica investe na formação continuada como forma de preencher as lacunas de conhecimento dos profissionais.

“Na formação inicial, falta aprofundamento na didática, então, muitas vezes, precisamos dar orientações mais específicas”, explicou a orientadora pedagógica da escola, Maria Cristina Forti, à revista Problemas Brasileiros.

Além de estimular os professores a se desenvolver e a continuar estudando, o Santa Maria promove reuniões pedagógicas entre professores de uma mesma série ou área de atuação. “Eles sentem que aprendem muito uns com os outros, nas trocas de experiências, e quando planejam coletivamente projetos que são executados”, contou.

Segundo uma pesquisa realizada pelo Itaú Social e o movimento Todos Pela Educação, 69% dos professores brasileiros consideram o aprimoramento constante a principal medida para a valorização da profissão.

Isso faz crescer a demanda por plataformas como o Polo, que reúne formações práticas, certificadas e gratuitas para professores, além de livros como o recém-lançado Preparando os professores para um mundo em transformação.

“É essencial que o professor se desenvolva de uma forma mais completa, para se conectar com seus alunos e promover experiências que se aproximem de suas realidades”, escreve Heloisa Morel, na apresentação do livro. “Assim, estaremos promovendo uma mudança significativa na educação em nosso país.”

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Leonardo Pujol
Leonardo Pujol é editor do Desafios da Educação e sócio-diretor da República – Agência de Conteúdo.

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