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O impacto da pandemia no caixa das pequenas faculdades

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Impacto da pandemia nas pequenas faculdades. Crédito: Divulgação/FAVAG.

Sala de aula flexível da FAGAV: pandemia afetou caixa das pequenas faculdades do Brasil. Crédito: divulgação.

Quando é questionado sobre como a Faculdade do Vale do Gorutuba (FAVAG) reagiu à crise financeira dos alunos, em decorrência da pandemia, Vanilson de Almeida Nascimento afirma sem hesitar: “O que foi possível, nós fizemos.”

Diretor-geral da instituição de Nova Porteirinha (MG), a 550 quilômetros de Belo Horizonte, Nascimento explica que a FAVAG – que oferece sete cursos para 800 alunos – flexibilizou a ponto de firmar acordos que coubessem no bolso do estudante, sem sacrificar a sustentabilidade da instituição. “Apostamos em um canal de diálogo aberto.”

O Centro Universitário União das Américas, de Foz do Iguaçu (PR), optou por um caminho parecido. Com 2 mil alunos, a Uniamérica percebeu ainda em março que muitos alunos teriam dificuldade para honrar as mensalidades. Em vez de dar desconto universal, a instituição paranaense tratou individualmente cada caso de perda de renda.

“Para uns fizemos um parcelamento maior das mensalidades vencidas e a vencer. Para outros [alunos], postergamos integralmente vários meses, para além do termino do curso. Até retomar o emprego ou a renda, ele não paga a mensalidade. Essa medida nos ajudou a evitar uma evasão maior”, explicou Ryon Braga, reitor da Uniamérica.

Medidas como essas foram essenciais. Afinal, o setor privado de educação está entre os mais afetados pela pandemia.

No Brasil, as aulas presenciais do ensino superior estão suspensas há dez meses. E assim seguirão pelo menos até março de 2021. Considerada a desaceleração econômica, essa situação atípica resultou em inadimplência, ações judiciais e evasão de alunos, seja por desistência ou por transferência para cursos mais baratos. As instituições que mais sofreram foram as de pequeno e médio porte, como a FAVAG e a Uniamérica.

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Impacto nas IES

Hoje, 75% dos alunos da rede privada são de classe C, D e E, grupos fortemente atingidos pela crise econômica. Com a diminuição dos salários ou a extinção de empregos, ocorreu um efeito cascata. Parte do investimento desse público parou de chegar aos caixas das instituições de ensino superior.

Como consequência, boa parte das faculdades terminou o primeiro semestre de 2020 no vermelho e pode terminar o segundo sem grandes expectativas de recuperação. (Os balanços ainda não foram fechados.)

Para equilibrar as contas, as instituições vem adotando estratégias de retenção específicas para as suas comunidades acadêmicas, apostando em descontos, parcelamento e negociações individuais dos débitos.

Para atrair os calouros, a opção foi recorrer às ações de marketing digital. O período difícil, entretanto, não terminou em dezembro: com o adiamento do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) para os dias 17 e 24 janeiro, as IES já vislumbram dificuldades para as matrículas de 2021, porque a nota do exame ficará disponível apenas em março.

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O novo contexto da educação em tempos de pandemia. Crédito: Shutterstock.

As adaptações e receios de 2020/1

A queda nas receitas já era esperada desde o início da pandemia, mas sua dimensão só se definiu com o passar dos meses. Entre março e agosto, o Instituto Semesp realizou levantamentos com 53 faculdades privadas para mapear os índices de inadimplência, evasão e rematrícula. O objetivo era mensurar o comprometimento financeiro do setor. Os resultados, divulgados em outubro, evidenciam um prejuízo com potencial para influenciar todo o cenário do ensino superior no país.

No primeiro semestre (2020/1), mais de 500 mil alunos entraram em inadimplência entre as IES consultadas, o que representa um aumento de 30% em relação ao ano passado. A evasão também cresceu: 608 mil pessoas abandonaram, temporária ou definitivamente, os cursos de sua escolha. A taxa é 15% superior à do mesmo período de 2019.

O diretor-executivo do Semesp entende que a omissão do governo acentuou o problema. Para Rodrigo Capelato, era necessária uma política pública para resgatar esses estudantes, ajudando-os a continuar estudando.

A sugestão de Capelato era que houvesse algum tipo de financiamento estudantil. “O percentual de alunos que concluem a graduação com Fies é de 61%, com ProUni, 59%”, diz o diretor do Semesp. “Sem Fies ou ProUni, apenas 36%. Esses números reforçam a importância de não apenas aumentar o acesso dos jovens, mas também de garantir a sua permanência na instituição.”

Sem financiamento, restou às IES a missão de garantir a continuidade da formação dos universitários de hoje. Por isso Vanilson de Almeida Nascimento, da FAVAG, diz o que diz: “O que foi possível, nós fizemos”. A IES mineira deve encerrar 2020 com estabilidade.

Nascimento diz que o resultado só foi possível porque a FAVAG já realizava um processo de adaptação para o ambiente virtual. “A verdade é que faculdades de médio e pequeno porte estão sofrendo com o corte de bolsas e financiamentos há tempos. Com isso em mente, começamos a repensar custos, e iniciamos nossa migração para o EAD.”

Esse reposicionamento, feito antes da pandemia, foi essencial para dar segurança aos alunos que assustaram no começo da crise. Mas tudo tem um preço.

Investindo em softwares, evitando descontos e adotando a política de não cortar funcionários, a FAVAG precisou adiar renovações estruturais e projetos de inovação. “Para os grupos de médio e pequeno porte, é uma coisa ou outra. Paramos de injetar dinheiro nos laboratórios de pesquisa, nas ações de expansão e até nas aquisições de itens para a biblioteca. Nesse momento, todos os nossos recursos estão voltados para a manutenção da qualidade de ensino”, explica Nascimento.

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Centro Universitário União das Américas. Crédito: Divulgação.

Sede da Uniamérica, em Foz do Iguaçu (PR). Crédito: divulgação.

Efeitos de longo prazo

O segundo semestre (2020/2) não foi necessariamente mais fácil. Mesmo com o achatamento da curva de contágio e com a liberação de determinadas atividades comerciais, a economia seguiu fragilizada e as aulas continuaram no ambiente virtual, assim como os vestibulares de inverno.

Reter e captar alunos ficou ainda mais desafiador. Dessa forma, muitas IES recorreram à duas frentes: o marketing digital. A FAVAG, por exemplo, apostou em ações de engajamento, como gincanas virtuais com os colégios da cidade e palestras com professores de outros países.

“Além de transpor o próprio vestibular e o sistema de matrículas para o modelo online, exploramos as oportunidades que só a rede oferece. É um modo de mostrar aos prospects que somos uma faculdade capaz de enxergar e se adaptar às mudanças e tendências”, afirma o diretor da IES.

A maioria das escolas, entretanto, apostou nos descontos. Conforme o INPM-QB, o Índice Nacional de Preços de Mensalidades da plataforma Quero Bolsa – calculado com base em dados de 10 mil instituições de ensino –, o valor das mensalidades sofreu uma retração de quase 13% quando comparado a 2019.

Mesmo assim, os ingressos no ensino superior diminuíram significativamente. Segundo o Semesp, a pandemia foi responsável pela redução de 250 mil matrículas em 2020, quando comparado ao mesmo período do ano anterior. Os cursos presenciais foram os mais afetados, com uma baixa de 40% na procura. A pesquisa também mostrou que 90 mil alunos não fizeram a rematrícula no segundo semestre.

Apesar de não alcançar o crescimento projetado no início de 2020, a FAVAG deve fechar o ano no azul. Para Nascimento, o diretor da IES mineira, esse é um momento de contenção de danos. As IES, afinal, perderam mais de 420 mil alunos em menos de 12 meses.

“As ações tomadas nesse período, tanto pelo governo quanto pelas instituições, independentemente do tamanho, vão repercutir por um longo tempo”, acredita. Quem sabe, a repercussão seja para o bem do setor – melhorando as perspectivas e as estratégias de gestão do ensino superior brasileiro.

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