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Gustavo Hoffmann e Fábio Reis conversam sobre inovação no ensino superior

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Gustavo Hoffmann e Fábio Reis têm muitas coisas em comum. Entre elas, compartilham o entusiasmo em conversar sobre inovação e tecnologia no ensino superior – cartilha seguida à risca na última quarta-feira (8), quando participaram de uma live (transmissão ao vivo) promovida pelo portal Desafios da Educação.

Hoffmann é diretor do Grupo A Educação, fellow na Universidade de Harvard e especialista em educação superior. Reis é professor do Centro Universitário Salesiano de São Paulo (Unisal) e diretor de inovação do Semesp, sindicato do ensino superior. Você pode rever a live no Instagram do Desafios da Educação ou conferir, abaixo, os melhores trechos da conversa.

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Gustavo Hoffmann – O mundo inteiro está preocupado com a atual situação da pandemia. Então, eu queira te perguntar o que você acha que acontecerá com o futuro do ensino superior?

Fábio Reis – Primeiro terá uma mudança profunda na educação. Saímos de um modelo presencial e tivemos que ir para um remoto emergencial. Isso ocasionará uma fusão muito grande do que é bom do ensino a distância com o que é bom do presencial.

Também tem a aceleração da mudança do perfil do professor. Não é o fim da carreira do docente, mas o coronavírus irá acelerar a necessidade de ele ganhar competências digitais. Como um mundo será cada vez mais digital, os professores precisarão ser cada vez mais digitais.

A liderança acadêmica também é outro ponto. Existe uma geração de gestores mais jovens que visualizam esse processo de mudança. Mas também tem os líderes que tiveram um papel muito relevante, que fundaram faculdades, mas que ainda são pessoas que acreditam no modelo baseado em suas experiências. E essas experiências são conflitantes com as ideias dos jovens digitais de hoje.

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Gustavo Hoffmann – Você falou da aprendizagem digital e a gente tem falado muito sobre inovação e ensino híbrido. Acho que o que você está dizendo é que a gente terá mais aporte de tecnologia no ensino presencial – o mundo inteiro tem mostrado isso. Por outro lado, esse modelo a distância totalmente auto instrucional é muito provável que isso não se sustente mais. A gente precisa de mais interação.

Muita gente me pergunta qual é o futuro do professor. E eu sempre falei que o papel do professor vai mudar nos próximos anos. As instituições de ensino precisam investir na formação de docentes para um novo normal.

O professor não vai ser substituído por tecnologias, mas o papel dele tem que mudar radicalmente no que ele faz dentro de sala de aula. Não apenas em relação a tecnologias, mas sobretudo em metodologias.

Gustavo Hoffmann

Uma vez eu ouvi uma frase que diz: “o professor não vai ser substituído pelas tecnologias, mas ele vai ser substituído por professores que saibam usá-las.” E essa é a verdade.

O ensino híbrido veio para ficar, mas ainda tem muita gente que confunde o que ele é. Se trata de modelo educacional em que parte do processo acontece no ritmo do aluno – quando e onde ele quiser – e a outra parte é presencial e supervisionado por um professor. Entretanto, o principal é que essas duas partes estejam conectadas.

Teremos um modelo de ensino com mais tecnologia e precisamos formar professores para isso. Você tem acompanhado algumas instituições de ensino fora do Brasil. Elas estão preparadas para esse novo ensino e o que você acha que realmente vai mudar no modelo acadêmico das IES?

Desafios da Educação reuniu dois especialistas para falar sobre inovação e tecnologia no ensino superior. Crédito: Reprodução.

Desafios da Educação reuniu dois especialistas para falar sobre inovação e tecnologia no ensino superior. Crédito: Reprodução.

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Fábio Reis –  É cada vez mais difícil imaginar o futuro devido as novas tecnologias e a pandemia acelerou isso. Sempre falamos que a educação iria mudar, mas não estávamos fazendo a mudança necessária.

Conversando com gestores da Universidade Estadual do Arizona, percebi que eles possuem uma concepção acadêmica menos curricular. Os alunos do Arizona vão à sala de aula, apenas, duas ou três vezes por semana e a instituição não perde qualidade por isso. Porque o ensino híbrido não perde qualidade.

O ensino híbrido só perde qualidade se não for bem pensado, não tiver um planejamento e não manter um acompanhamento. A IES só perde qualidade se o único motivo para o fazer é reduzir custos.

Fabio Reis

Hoje, ainda somos muito curriculares – no sentido de disciplinas fragmentadas. Então, o que percebo é que as instituições mais adaptadas ao momento que está por vir terão um currículo menos disciplinado e cada vez mais pautado em desafios e projetos reais.

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Gustavo Hoffmann – Quem você acha que está mais preparado para esse novo normal e quais são as características dessas instituições?

Fábio Reis – O México talvez sirva de referência para nós. O mesmo grupo que criou o Instituto Tecnológico e de Ensino Superior de Monterrey, recentemente fundou a Universidade TecMilenio. Elas possuem focos diferentes, mas são duas referências.

É incrível olhar o crescimento do número de alunos matriculados e da capacidade que essas duas instituições têm de lidar com novas tecnologias. O instituto de Monterrey, por exemplo, lançou um relatório, que mostra a capacidade que a instituição teve em fazer uma mudança sistêmica no início da pandemia, desde a capacitação de professores até o uso de outras tecnologias. É uma instituição que já estava preparada e teve uma mobilização em fazer a mudança.

Para uma instituição mais focada em pesquisa, recomendo que observe a PUC do Chile. Ela está em primeiro lugar no ranking das instituições latino-americanas do Times Higher Education. A PUC do Chile tem uma capacidade muito grande em fazer parcerias com empresas, é um modelo muito interessante.

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Instituto Tecnológico e de Ensino Superior de Monterrey

Instituto Tecnológico e de Ensino Superior de Monterrey. Crédito: Divulgação.

Gustavo Hoffmann – O mundo caminha para uma educação digital. Hoje temos dois modeles distintos – EAD e presencial. A pandemia parece caminhar para a criação de um mix dos dois. Mas como você enxerga isso do ponto de vista da regulamentação?

Fábio Reis – No ponto de vista do Ministério da Educação, isso ainda não é muito claro devido à falta de um ministro da Educação. Não sabemos quais serão as futuras políticas públicas e isso deixa as coisas um pouco confusas. Porém, desejamos uma gestão que flexibilize a organização acadêmica e que dê autonomia para a instituição.

Hoje as instituições se organizam para uma visita do MEC e se preocupam muito mais com os indicadores do que com gerar inovação. Mas a instituição não pode ser um “cursinho preparatório para o Enade”. Elas precisam inovar. O próximo Ministro precisa olhar a longo prazo e dar autonomia para as IES. Porque no Brasil nós ainda temos muito temor em inovar devido as regulamentações.

Gustavo Hoffmann – A gente tem que ter liberdade e flexibilidade com responsabilidade. Reclamamos tanto da regulamentação, mas nos últimos anos temos ganhado algumas autonomias. Porém, precisamos ter reponsabilidade para utilizar, se não o risco é retroceder.

Fábio Reis – Concordo com você. A legislação mudou, existe mais liberdade, inclusive nesse período da pandemia. Mas algo que eu sinto é que isso assusta algumas pessoas.

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Gustavo Hoffmann – Qual papel da tecnologia, não só em tempos de distanciamento social, mas sobretudo quando acabar a pandemia? Como a tecnologia vai transformar a educação?

Fábio Reis –  Dificilmente uma instituição conseguirá ser competitiva e relevante se ela não fazer uma adaptação ao mundo digital. Mas não é qualquer tecnologia, é uma inovação que esteja atrelada as metodologias da instituição de ensino superior.

Gustavo Hoffmann –  Exatamente. A tecnologia tem um papel muito importante dentro e fora da sala de aula. Ela permite um ensino híbrido de maior qualidade e uma gestão acadêmica mais personalizada.

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Redação
A redação do portal Desafios da Educação é formada por jornalistas, educadores e especialistas em ensino básico e superior.

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