Ensino Básico

Misturados na vida, separados na escola: a integração das idades dos alunos

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idade dos alunos

Alunos do ensino básico: a separação dos alunos por idade prejudica a socialização e aprendizagem. Crédito: USP Imagens/Marcos Santos.

Quando eu era criança, brincar na rua era a coisa mais importante do dia. Escola era apenas um dos lugares que era obrigada a frequentar, assim como as aulas de catecismo, na igreja, de domingo. Mas a rua, era o verdadeiro sentido da vida. Era onde tudo acontecia. Muitas aprendizagens, conquistas, derrotas, medos, sustos e alegrias.

Era tudo misturado. Não se brincava por idade, não se separava as brincadeiras por idade. Tinha brincadeiras de menina, como casinha. E de meninos, o futebol. E tinha a maioria das brincadeiras de jogos coletivos que juntava meninas e meninos com queimada, vôlei, quantos passos e muitas outras…

O que unia ou separava eram as propostas de brincadeira. Participava quem sabia ou queria. Assim cresci, com tudo misturado. Assim, também, é a rua até hoje. Lugar de múltiplas idades. Nos espaços coletivos, como clubes ou igrejas, encontramos todas as idades misturadas.

Atualmente, no entanto, as crianças estão cada vez menos nas ruas e o que era lugar de viver e aprender, virou lugar de passar e não mais lugar de ficar. E onde ficam hoje as crianças e jovens na maior parte do seu tempo? Nas escolas.

É neste lugar que todo seu tempo passa a ser consumido. Tempo organizado por atividades, tempo controlado, sem tempo para ficar à toa. Tudo vigiado. Acabou o protagonismo infantil e juvenil do tempo. Foi instituído o tempo programado, previsível e avaliado.

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Tudo planejado com um propósito, que é em nome da construção de um futuro promissor. Mas qual futuro? Como é possível achar que em tempo de fechamento da segunda década do século 21, sabemos algo a respeito do futuro? Ora, se o passado já foi e o futuro não sabemos o que será, efetivamente o presente é o lugar onde está acontecendo a vida e a escola não é o único lugar para se viver.

Mas além do tempo, que já escrevi um artigo sobre, quero agora focar em outro aspecto. Ao sair da rua, o que mais as crianças perderam foi a possibilidade de conviver com outras crianças e jovens de idades diferentes. Enquanto na rua tudo é misturado, na escola tudo é separado por idades. E assim, a convivência, aspecto fundamental de socialização e aprendizagem, foi ficando cada vez mais pobre.

A escola dividida

Escola é lugar de aprender, mas também de conviver. E isso significa ampliar os momentos dos encontros. Quando a escola é organizada para trabalhar com cada idade de forma exclusiva, crianças e jovens perdem a oportunidade de conviver com pessoas de faixas etárias diferentes. As escolas particulares, em sua maioria, e muitas do setor público, separam até fisicamente os estudantes. Não basta separar por sala de aula. Estão todos separados nos recreios e nos prédios também.

O recreio que é uma excelente oportunidade de convivência coletiva, os estudantes seguem separados. Como nos presídios, que estão organizados em alas, onde os presidiários podem ter acesso ao pátio para tomar sol, sem misturar as alas por segurança.

Ao separar as idades até no tempo livre, como no recreio, a escola não reproduz o mesmo conceito? Do que tem tanto medo as escolas? Temem que os estudantes maiores maltratem os menores ou machuquem, mesmo sem querer. Não será excesso de zelo e falta de confiança nos princípios básicos da educação? Como aprender a respeitar e cuidar do outro, se não praticam, simplesmente convivendo? Ao separarem os estudantes por idades, até no recreio, as escolas roubam a riqueza da convivência real e verdadeira.

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Em muitas escolas, o espaço da educação infantil é como um galinheiro, todo cercadinho para “os pintinhos” ficarem protegidos. Sempre segurança máxima. As crianças pequenas não têm acesso ao espaço total da escola. Estão limitadas aos territórios pensados exclusivamente para elas. Muitas escolas alegam que os pais exigem isso. Ficam com medo das crianças correrem riscos. Mas qual é o papel educativo da escola, junto às famílias?

A escola não se limita a prestar um serviço. É um espaço coletivo que está educando crianças e jovens não apenas para passarem de ano com boas notas, mas, acima de tudo, para serem cidadãos na e para além da escola. É preciso esclarecer para os pais que eles são mais que “consumidores de um serviço” e sim parceiros da instituição com o compromisso conjunto para que seus filhos vivam a escola como um espaço para entender o mundo e se prepararem para atuar na vida de forma positiva.

Se os prédios dos pequenos têm segurança máxima, os prédios dos maiores são cheios de “troféus”, fotos dos formandos, dos que passaram nas melhores faculdades ou venceram alguma olimpíada ou qualquer outra competição. A linguagem subliminar que transmite é que o valor de cada um se mede pelo resultado individual, focado em algum rendimento. Onde foi parar a convivência livre e misturada? Assim fica difícil ser feliz na escola, não é?

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Está na hora de nos questionarmos: por que a escola segue agindo da mesma forma como nos séculos passados, em um mundo que está mudando tão rápido e radicalmente?

A escola pode mudar essa história

Está amplamente divulgado quais são as competências necessárias para se viver no século 21. Já sabemos que não bastam competências cognitivas. A educação emocional ou as habilidades socioemocionais tem igual relevância. Para viver um futuro que não sabemos qual será, é preciso transmitir as bases da resiliência, flexibilidade, cooperação, colaboração, empatia, adaptabilidade e o sentido de pertencimento. Como trabalhar tais demandas sem a convivência multietária?

Se no tempo livre, que deveria ser o recreio, os estudantes estão impedidos de conviver, imagine misturar para trabalhar juntos em um projeto, em um estudo ou até mesmo em um passeio? As escolas poderiam se permitir pensar de outra perspectiva, mais educativa e de menos controle.

Para isso precisa não ter medo de correr risco. É assim que as mudanças acontecem. Educação sem risco, não existe para pessoas, mas somente para robôs. Correr risco significa inovar, paixão pelo conhecimento, utopia. Escola que não arrisca, está imobilizada, tem medo, está paralisada. Assim, como encantar para a vida?

Leia mais: Aprendizagem baseada em projetos estimula alunos do ensino básico

A escola necessária para o século 21 não é mais aquela que reforça o desenvolvimento individual, a competição, julgamentos e comparações. Mas sim aquela que educa para a convivência, valoriza a colaboração, a partir do desenvolvimento das fortalezas individuais. É a escola que se preocupa com o aprender a conviver e com o aprender a ser. Hoje pelo mundo tem muitas escolas que estão conseguindo avançar neste sentido.

As crianças, os jovens e os adultos formam uma coisa só: a humanidade. Fazem parte uma grande atividade: aprender a lógica de viver a vida juntos. A escola não pode roubar esta possibilidade, sob pena de deixar de ser necessária para este mundo que vivemos.

Estamos fechando o ano, fazendo planos, planejamento e currículo para 2020. É uma excelente oportunidade para mudar este cenário, para desenhar outras configurações de habitar a escola, criar projetos de outra perspectiva e se propor a correr riscos. E para isso não é preciso derrubar tudo e iniciar do zero. Pelo contrário: ter claro a história de cada escola, indica o tamanho das mudanças possíveis e como elas podem ser promovidas.

As transformações acontecem “no miudinho”, com calma e por meio do comprometimento coletivo de todos. Basta dar um passo para já não estar mais no mesmo lugar. É o que diz o adesivo que está na minha geladeira. Eu acredito. É assim, em movimento sempre. Vamos começar a mudar?

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Lourdes Atié
Lourdes Atié é socióloga com pós-graduação em Educação pela FLACSO, na Argentina, diretora da empresa Ideias Futuras e membro da comissão editorial da Revista Pedagógica Pátio – Ensino Fundamental e Ensino Médio. E-mail: lourdesatie@terra.com.br

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