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O legado de Sir Ken Robinson, o ativista das escolas criativas

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Ken Robinson, que fez nome no mundo educacional e influenciou toda uma geração de pais, professores, governantes e CEOs, morreu na última sexta-feira, 21 de agosto, em razão de um câncer. Ele tinha 70 anos.

Sir Ken Robinson em palestra no TED 2010. Crédito: TED/James Duncan Davidson.

Sir Ken, como era chamado, nasceu em 1950 na Inglaterra – era contemporâneo de John, Paul, George e Ringo. Cedo na vida, teve poliomielite e reaprendeu a andar a muito custo. Como as sequelas o impediriam de atuar como atleta ou operário, ainda em sua infância o pai cravou: “Você vai ter que ganhar a vida com a cabeça; precisa se concentrar na educação”.

Foi o que fez. E mais. Sir Ken Robinson se tornou um líder global amplamente reconhecido nos esforços para transformar a educação. Era professor emérito da Universidade de Warwick, na Grã-Bretanha, e o conselheiro preferido de muitos governos, empresas, sistemas de educação e organizações culturais de ponta, inclusive condecorado pela rainha Elizabeth II.

Em 2006, proferiu a palestra mais assistida da história na série de conferências TED: Do Schools Kill Creativity? (“As escolas matam a criatividade?”). Na publicação deste texto, o vídeo tinha 66 milhões de visualizações.

 

No ano passado, Sir Ken teve seu best seller lançado no Brasil. Escolas Criativas: a revolução que está transformando a educação (Penso, 2019) apresenta soluções práticas e inovadoras para revolucionar a educação – com histórias, pesquisas e benchmarks do tema, convidando o leitor a repensar o verdadeiro propósito da criatividade, da aprendizagem e do ensino. No mesmo ano, publicou Você, seu Filho e a Escola: trilhando o caminho para a melhor educação (Penso, 2019).

Em homenagem ao legado de Sir Ken Robinson, o Desafios da Educação publica a seguir um trecho do livro “Escolas Criativas“.


Elevando os padrões na educação

Por Ken Robinson

Elevar os padrões na educação certamente parece uma boa ideia. Não há nenhum motivo para baixá-los. Mas quais padrões? Como escolhê-los e implantá-los? Um mantra comum é que as escolas devem se “voltar ao básico”.

É uma frase com um apelo popular que sugere uma abordagem pragmática de senso comum. É como comer vegetais e dormir o suficiente. Que básico é esse para o qual as escolas devem se voltar?

O movimento de reforma tem quatro prioridades: os três Rs (reading, riting and rithmetic – o que significa leitura, escrita e aritmética), a elevação dos padrões acadêmicos, as disciplinas STEM (ciência, tecnologia, engenharia e matemática) e o ingresso no ensino superior.

Em alguns países, incluindo o Reino Unido e os Estados Unidos, uma preocupação de longo prazo são os baixos padrões em leitura e matemática. Os reformadores não estão errados em relação a isso. Existem problemas e eles não são novos.

Em 1983, o Departamento de Educação dos Estados Unidos publicou A nation at risk (Uma nação em risco). O relatório alertava que o país estava afundando em uma “crescente maré de mediocridade” que ameaçava o futuro da sua economia e do seu bem-estar social. Os reformadores priorizam o ensino da gramática, escrita e pontuação corretos, bem como o ensino básico de matemática.

O movimento de padronização está preocupado especialmente em elevar os padrões acadêmicos. Mais uma vez, isso parece razoável. Mas o trabalho acadêmico é apenas parte da educação. Envolve principalmente certos tipos de argumentação analítica, sobretudo com palavras e números, bem como um foco no que costumamos chamar de conhecimento propositivo.

Por várias razões, como veremos, a educação é dominada por essa ideia.

Ironicamente, o movimento de padronização também deveria, em princípio, preparar os estudantes para o mundo profissional e para lidar com a competição internacional, por isso a ênfase nas disciplinas STEM: ciência, tecnologia, engenharia e matemática.

Mas aqui há uma contradição curiosa. De um lado, os políticos estão pressionando por mais trabalho acadêmico nas escolas; de outro, eles dizem ser totalmente a favor da relevância econômica. Porém, os acadêmicos são frequentemente vistos como afastados do mundo real, vivendo em torres de marfim e imersos em teoria pura. Como o trabalho acadêmico no mundo moderno veio a ser encarado como a salvação das nações é um tema interessante, ao qual retornaremos.

Por fim, em muitos países aumenta o número de alunos que ingressam no ensino superior. Na Europa e nos Estados Unidos dos anos 1950 e 1970, cerca de uma em cada 20 pessoas entrava no ensino superior. Entre 1970 e 2000, houve um aumento global de quase 300%. Pelo menos nos países desenvolvidos, uma em cada três pessoas ingressa no ensino superior.

Hoje, entrar no ensino superior costuma ser visto como o objetivo final do ensino médio. Então o que os reformadores estão fazendo para promover essa agenda? Existem três estratégias principais: padronização, competição e corporativização.

Leia mais: Depois da STEM, a HECI: o humanismo e a criatividade na educação

Padronização

A educação formal é composta de três elementos principais: currículo, ensino e avaliação. A estratégia básica é padronizá-los ao máximo. Muitos países apresentam regulamentações determinadas sobre o que as escolas devem ensinar, geralmente definido ano a ano, em algum tipo de currículo nacional. Isso vale para a Inglaterra, França, Alemanha, China e muitos outros países.

Alguns têm estruturas mais livres, como Finlândia, Escócia e, até o momento, Estados Unidos e Cingapura.

A maioria dos currículos nacionais se baseia na ideia de disciplinas distintas, e na maioria dos sistemas existe uma hierarquia delas. No topo estão leitura, matemática e, agora, as disciplinas STEM.

Em seguida vêm as humanas, incluindo história, geografia e estudos sociais. Uma vez que o movimento de padronização enfatiza o estudo acadêmico, ele atribui um valor menor às disciplinas práticas, como arte, teatro, dança, música, desenho e educação física, e a “temas mais leves”, como comunicação e estudos de mídias, que são considerados não acadêmicos.

Nas artes, as artes visuais e a música recebem em geral uma importância maior do que o teatro e a dança. Frequentemente, esses dois últimos não são sequer ensinados. Programas vocacionais como oficinas e economia doméstica também desapareceram de muitas escolas. Em alguns países, a oferta dessas disciplinas “não essenciais” foi arrasada.

Em termos de ensino, o movimento de padronização favorece o ensino direto de informações e habilidades factuais para uma turma inteira, em vez de atividades em grupo. Ele é cético sobre criatividade, expressão pessoal e tipos de trabalho não verbais, não matemáticos e da aprendizagem por descoberta e trabalho criativo, mesmo na pré-escola.

Em relação à avaliação, o movimento da padronização enfatiza exames formais escritos e a extensa utilização de testes de múltipla escolha de modo que as respostas dos alunos possam ser facilmente codificadas e processadas. Ele é cético a respeito de trabalhos de conclusão de curso, portfólios, testes com consulta, avaliação de docentes, avaliação por pares e outras abordagens que não são tão facilmente quantificáveis.

É por isso que os alunos ficam tanto tempo sentados em suas mesas, trabalhando sozinhos.

Competição

Um dos objetivos dos testes é aumentar a competição entre os alunos, professores e escolas, supondo que isso elevará os padrões.

Nesse novo ambiente, os estudantes competem uns com os outros, os professores são julgados unicamente a partir dos resultados dos seus alunos e as escolas e os distritos se digladiam para disputar recursos. Testes baseados em padrões influenciam a alocação de fundos, promoções de funcionários e se as escolas continuarão a existir ou serão colocadas sob uma nova jurisdição. É por isso que elas são chamadas de avaliações de alto risco. Como vimos, a competição é agora de natureza cada vez mais internacional.

Corporativização

Por mais de 100 anos, a educação de massa nos países industrializados era financiada pelos impostos e encarada como um investimento em um bem público.

Agora, alguns governos estão encorajando o investimento na educação por parte de instituições privadas e empresários. Sua participação varia da venda de produtos e serviços às escolas à manutenção de suas próprias instituições com fins comerciais. Os governos estão promovendo diferentes tipos de escolas públicas – tais como charter schools e free schools – nas quais alguns rigores do movimento de padronização são deliberadamente flexibilizados.

(Free schools são novas no Reino Unido. Como as charter schools nos Estados Unidos, elas são financiadas pelo governo, mas funcionam independentemente do sistema escolar público, submetidas a diferentes regulamentações e administradas de modo privado.)

Existem vários motivos para isso. Um deles é intensificar a competição; o segundo é promover a diversidade de oferta; o terceiro é diminuir o custo público; e o quarto é o lucro. Como eu disse, a educação é um dos maiores negócios do mundo.

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Qual é o resultado?

Se o movimento de padronização estivesse funcionando do modo previsto, não haveria nada mais a ser dito. Mas não está.

Pegue, por exemplo, os três Rs. Apesar de bilhões de dólares gastos, o movimento de padronização tem apresentado, na melhor das hipóteses, um sucesso parcial. Países como os Estados Unidos e a Inglaterra investiram muito em um impulso desesperado para aumentar os padrões em leitura e matemática. Porém, a pontuação nos testes dessas disciplinas melhorou muito pouco.

Em 2012, 17% dos formandos do ensino médio nos Estados Unidos eram incapazes de ler ou escrever fluentemente e apresentavam problemas básicos de escrita, gramática e pontuação (abaixo do nível 2 nas escalas do PISA). Mais de 50% dos adultos estavam abaixo do nível 3 de leitura.

“Embora poucas notas na National Assessment of Educational Progress, NAEP (Avaliação Nacional do Progresso Educacional), tenham lentamente aumentado um pouco”, disse Paul R. Lehman, um ex-presidente da National Association for Music Education (Associação Nacional para Educação Musical), em 2012, “muitas permaneceram essencialmente imutáveis nos últimos anos, e em março de 2013, Arne Duncan alertou o Congresso que mais de 80% das escolas do país provavelmente seriam rotuladas com um desempenho ruim no NCLB em 2014”.

Os problemas não são apenas nas “habilidades básicas”. Os alunos norte-americanos lutam para adquirir conhecimento cultural elementar. Em 2006, a National Geographic fez um levantamento sobre conhecimento cultural nos Estados Unidos e descobriu que 21% dos adultos jovens de 18 a 24 anos não eram capazes de identificar o Oceano Pacífico no mapa.

Ainda mais alarmante (pelo menos para mim), 65% não conseguiam identificar o Reino Unido no mapa, o que é vergonhoso por quaisquer padrões. A situação não é muito melhor no próprio Reino Unido, onde quer que ele se situe.

O movimento de padronização não está atendendo aos desafios econômicos que enfrentamos. Uma de suas finalidades declaradas é preparar os jovens para o trabalho. Entretanto, os níveis de desemprego de jovens no mundo atingem níveis recordes.

Existem no mundo cerca de 600 milhões de pessoas entre 15 e 24 anos, e cerca de 73 milhões delas estão desempregados há muito tempo. Esse é o maior número já registrado – quase 13% da população total dessa faixa etária. De 2008 a 2013, o desemprego de jovens na Europa aumentou drasticamente, atingindo quase 24%.

O flagelo do desemprego está afetando até mesmo jovens que fizeram tudo o que se esperava deles e se formaram no ensino superior. Entre 1950 e 1980, um diploma universitário era a garantia de um bom emprego.

Se você tivesse um título superior, os empregadores formavam uma fila para lhe entrevistar. Agora eles não fazem mais isso.

O problema essencial não é a qualidade dos títulos, mas a quantidade. As qualificações acadêmicas são um tipo de moeda, e, como todas as moedas, seus valores variam de acordo com as condições do mercado. Um título universitário costumava ser valioso porque relativamente poucas pessoas tinham um. Em um mundo repleto de graduados, um título universitário não é mais uma distinção como já foi.

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Redação
A redação do portal Desafios da Educação é formada por jornalistas, educadores e especialistas em ensino básico e superior.

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