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Lourdes Atié: “Criança com fome não aprende na escola”

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A Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (RBPSSAN) divulgou, recentemente, o 2º Inquérito Nacional de Insegurança Alimentar e Covid-19 no Brasil. Os resultados são aterradores. Segundo o relatório, no fim de 2020, 19,1 milhões de brasileiros conviviam com a fome. Em 2022, são 33,1 milhões de pessoas sem ter o que comer.  

O levantamento foi realizado entre novembro de 2021 e abril de 2022, a partir de entrevistas em 12.745 domicílios, em 577 municípios em áreas urbanas e rurais. Ou seja, tem amplitude para concluir que a fome voltou ao Brasil e dá a dimensão do retrocesso que estamos passando, o que degrada a dignidade de milhões de brasileiros.  

Este cenário absurdo nos faz recuar no tempo e lembrar que, há trinta anos, o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, lançou a primeira campanha de mobilização da sociedade em relação ao tema: a Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida. Desvinculada de partidos políticos, a campanha convocou a sociedade para lembrar que a “fome tem pressa”.  

Além disso, não podemos esquecer que, em 2014, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) informou a saída do Brasil do Mapa da Fome no mundo.  

O que aconteceu desde então? Como regredimos tanto? Como explicar este cenário em um país que é um dos maiores produtores de alimentos do mundo?   

A situação nas escolas  

Mas não para aí. No dia 10 de junho, o jornal Folha de São Paulo publicou uma matéria informando que o Governo Federal envia menos de R$1 por aluno para refeição para as escolas. Mais precisamente, as escolas recebem R$ 0,53 centavos para alimentar cada aluno por refeição. Isso na educação infantil, em uma fase decisiva para o desenvolvimento das crianças. 

Já para os alunos do ensino fundamental e médio, o valor cai para R$0,36 por estudante. Inacreditável, não? Estes valores aumentam apenas para o período integral, quando variam entre R$1,07 e R$2,00. As informações estão disponíveis no Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE). 

Considerando a desigualdade entre as regiões do Brasil, os municípios com alta arrecadação conseguem complementar os valores das refeições. Enquanto isso, os mais pobres, com crianças em situação de maior vulnerabilidade alimentar, não têm condições de reverter o quadro, o que reforça a situação de injustiça social que o Brasil vive. 

Acontece que, muitas vezes, a escola é o único espaço onde as famílias garantem a alimentação dos seus filhos. Se a escola não consegue cumprir essa função de cuidado – que é tão importante quanto ensinar -, como os estudantes vão aprender?

Sabemos que com fome não é possível aprender.  

Leia mais: O paradoxo da educação no Brasil 

O impacto da pandemia  

Quando as escolas fecharam, no começo de 2020, por conta da pandemia da covid-19, os governos estaduais e municipais demoraram para descobrir algo que parecia óbvio: escolas públicas fechadas impactam não apenas no aprendizado dos conteúdos escolares, mas também na alimentação dos alunos que não têm o que comer em casa. 

Por isso, é urgente que os profissionais da educação comecem a relacionar a fome com as dificuldades de aprendizado. Caso contrário, seguiremos, injustamente, repetindo a falsa afirmação que tivemos déficit de aprendizagem apenas por causa da pandemia. Ninguém desaprende aquilo que verdadeiramente aprendeu. Da mesma forma, é preciso ressaltar que aprender é um processo complexo, com diversos condicionantes que não se limitam aos acertos em testes aplicados pelas escolas.  

É hora de os profissionais da educação assumirem o papel de protagonistas em defesa da escola, deixando de culpabilizar aqueles que são vítimas de um processo injusto ao qual são submetidos. 

Por outro lado, a sociedade vem naturalizando algo inadmissível para um país rico e com alto índice de desperdício de alimentos – sem falar da questão da dignidade humana. A ausência de soluções por parte do Governo Federal e a apatia da sociedade brasileira frente a esses problemas emergentes geram consequências gravíssimas.  

Enfim, 2022 – um ano de eleição – ficará marcado pelo retrocesso da segurança alimentar do Brasil, além de um mar de problemas de toda ordem que temos vivido. Estamos comprometendo o desenvolvimento de milhões de crianças e jovens que são o presente e o futuro do país. É urgente a sociedade se mobilizar para ajudar aqueles que são invisibilizados. 

Leia mais: Pode o ‘SUS da Educação’ resolver o paradoxo do Brasil?

Lourdes Atié
Lourdes Atié é socióloga com pós-graduação em Educação pela FLACSO, na Argentina, diretora da empresa Ideias Futuras e membro da comissão editorial da Revista Pedagógica Pátio – Ensino Fundamental e Ensino Médio. E-mail: lourdesatie@terra.com.br

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