Ensino Básico

Lúcia Dellagnelo: a educação básica antes, durante e depois da pandemia

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Uma pesquisa lançada no início de abril pelo Centro de Inovação para a Educação Brasileira (Cieb) escancarou a dificuldade da rede de educação básica em encontrar soluções para enfrentar a pandemia de covid-19. À época do estudo, 60% dos municípios não tinha estratégia digital para atender os alunos durante o período de distanciamento social.

Para Lúcia Dellagnelo, que é diretora-presidente do Cieb, a inércia é fruto de um problema anterior: a falta de experiência das escolas públicas com o uso tecnologias educacionais. Em entrevista ao portal Desafios da Educação, ela esmiúça a atuação das secretarias estaduais e municipais na crise, critica a ausência de competências digitais na formação de professores e projeta o futuro da educação básica no Brasil pós-pandemia.

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Lúcia Dellagnelo. Crédito: Divulgação.

Dellagnelo (foto) é doutora em educação pela Universidade de Harvard, nos Estados Unidos. Foi secretária de Desenvolvimento Econômico Sustentável em Santa Catarina, seu estado natal, onde criou o Cluster de Inovação na Educação. Tornou-se referência internacional em tecnologias educacionais a ponto do MEC condecorá-la com a Ordem Nacional do Mérito Educativo, em 2018.

A seguir, confira a entrevista.

O Cieb capitaneou uma pesquisa sobre o planejamento das secretarias de educação para o ensino remoto. O que você destacaria desse estudo? O estudo ouviu mais de 3 mil redes estaduais e municipais no Brasil e levantou dados muito interessantes. O primeiro é que apesar da maioria das redes ter publicado alguma regulamentação para suspensão das aulas, 60% dos municípios não havia definido nenhuma estratégia digital para viabilizar a aprendizagem dos estudantes no período.

As redes estaduais estavam começando a planejar alguma estratégia de ensino remoto enquanto as municipais não tinham nem ideia do que iam fazer. A maioria das redes estaduais fez férias ou adiantou os recessos escolares, para ganhar tempo e se organizar em termos de estratégia remota. As redes municipais ficaram meio a meio. Metade suspendeu as aulas, metade adiantou as férias dos alunos.

Então as redes estaduais estavam mais preparadas do que as municipais? O que fica claro é que a maioria das redes estaduais já tinha alguma experiência no uso de recursos educacionais digitais antes da crise. Então, foi mais fácil para as redes estaduais escolher as ferramentas que iam implementar.

Nas redes municipais, mais de 70% não tinha utilizado nenhuma ferramenta ou metodologia online com os seus alunos. E elas viram que os professores não sabem como utilizar bem essas ferramentas.

Lúcia Dellagnelo

Isso soou quase como um pedido de ajuda das redes municipais  sobre como escolher alguma maneira de fazer as atividades não presenciais. Com base nesses dados, o CIEB sistematizou sete estratégias de ensino remoto para ajudar as redes de ensino a entenderem quais são as possibilidades que existem. Algumas envolvem tecnologias e plataformas online, outras não, como distribuição de materiais impressos, programas via televisão e via rádio.

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A ideia do Cieb é diversificar as estratégias para adaptá-las aos diversos contextos? Exatamente, são estratégias múltiplas. Por isso também desenvolvemos uma ferramenta para ajudar o gestor a escolher quais daquelas estratégias são mais viáveis ou recomendáveis para a sua rede de ensino. Tudo isso de acordo com as característica da sua rede, como infraestrutura instalada e a experiência prévia da equipe pedagógica com as ferramentas.

Quais barreiras impedem a incorporação de tecnologias educacionais na educação básica? São alguns entraves. Em primeiro lugar, a incorporação de tecnologias não é trabalhada na formação inicial dos professores. Muitas faculdades de pedagogia não tratam desse tema e não preparam os profissionais para fazerem uma aplicação bem feita. Afinal, não é só usar a tecnologia, mas ter uma proposta e uma prática pedagógica mediada pelas tecnologias.

Além disso, a maioria das secretarias de ensino, quando faz formação continuada com os professores, repete os conteúdos e não leva em conta a variação de competência digital entre eles. E ainda há a falta de infraestrutura para que os professores possam realmente usar computadores e outras dispositivos para aulas online.

Tem professor que pode até levar seu laptop para sala de aula, mas não tem internet na sala, ou tem pouco tempo de acesso ao laboratório de informática. Ou seja, o próprio professor não é um usuário de tecnologia no ambiente escolar. Isso é um problema porque agora estamos pedindo para eles migrarem para um modelo que eles não tiveram muito tempo para se preparar.

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Lúcia Dellagnelo, do Cieb, concede entrevista ao Desafios da Educação. Crédito: Fiesc/divulgação.

 

Mas o momento que estamos passando agora abre alguma possibilidade para avançar no uso de tecnologias no ensino básico? Acho que sim. E acho que a tecnologia vai ser muito importante para o momento em que as aulas voltarem porque os professores vão ter que trabalhar muitos conteúdos que foram perdidos. Então, vamos ter que usar a tecnologia como uma aliada para poder garantir o processo de aprendizagem das crianças.

Além da aula presencial, quando voltarem, as redes de ensino precisarão fazer muito uso de tecnologias, atividades complementares e estratégias não presenciais para garantir que todo o conteúdo desse ano letivo seja trabalhado.

Lúcia Dellagnelo

Mas essa medida depende de políticas públicas que facilitem o trabalho de escolas e professores. Exatamente. O MEC tem um programa chamado Educação Conectada. E a sinalização é que o MEC quer ampliar e melhorar esse programa para permitir que todas as escolas brasileiras sejam conectadas.

Vale destacar que escola conectada não é aquela que tem conexão com a internet. É aquela que sabe utilizar a tecnologia nas práticas pedagógicas, que desenvolve competências digitais em toda a sua equipe, que tem um conjunto de materiais digitais alinhados e já pré-selecionado no seu currículo e que disponha de um bom número de equipamentos e conectividade para professores e alunos poderem utilizar em atividades em sala de aula.

O que temos visto é que se as escolas estivessem usando ferramentas online em sala de aula para exercícios e outras atividades, a transição necessária agora teria sido muito mais fácil.

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De certa maneira, é uma lição que o coronavírus nos deixa. A gente já vem alertando para isso há bastante tempo, mas acho que agora, frente à crise, essa lição vai ficar muito clara para todo mundo.

Qual é a diferença de realidade entre as escolas públicas e privadas? As escolas privadas também estão tendo muita dificuldade porque não houve tempo de planejamento adequado. O ensino não presencial requer uma metodologia e estratégias próprias de ensino. E isso não foi feito.

A única vantagem das escolas particulares é que, geralmente, elas atendem a um público com maior poder aquisitivo e que tem computador, tablet ou um smartphone. Então, elas não precisam se preocupar tanto quanto a escola pública nos quesitos de acesso e equidade.

Nas escolas públicas, é um grande desafio para usar os recursos digitais porque a gente não sabe quantos alunos vão conseguir acessar os conteúdos. A diferença é essa: o público das escolas particulares está com mais facilidade para continuar sua aprendizagem devido a sua condição socioeconômica. Mas os professores das escolas privadas também não estavam preparados e a maioria deles também não sabe como fazer essa migração do presencial para o remoto.

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Depois da pandemia a educação básica irá se tornar mais tecnológica. Crédito: Divulgação.

Depois da pandemia a educação básica irá se tornar mais tecnológica. Crédito: Divulgação.

Essa diferença de acesso aos dispositivos pode aumentar os níveis de desigualdade? Sem dúvida, pode. Mesmo em famílias de classe média com um computador em casa, é provável que esse dispositivo esteja sendo usado pelos pais para trabalhar. Então, estamos em uma situação em que mesmo quem tem um computador ou smartphone em casa acaba prejudicado.

Por outro lado, quanto mais sobe o nível socioeconômico, em uma parcela muito pequena da população, o estudante tem seu próprio equipamento e pode continuar seu processo de aprendizagem, enquanto outros estudantes, não. Esse cenário vai criar muita desigualdade.

A formação de professores é o grande gargalo para a adoção de tecnologias educacionais já que trata-se de um problema tanto do ensino público quanto do privado? O Cieb defende que para ser professor no século 21 você precisa desenvolver competências digitais para poder incorporar a tecnologia na sua forma de ensinar.

Tínhamos feito uma autoavaliação com mais de 30 mil professores no Brasil e percebemos que a grande maioria deles está em um nível muito básico de incorporação de tecnologias. E as redes de ensino precisam que levar em consideração esse despreparo dos professores para o ensino remoto como ele está sendo requerido neste momento.

A formação de professores é, sim, um gargalo. Mas, quando a gente fala de tecnologia educacional, temos que contemplar quatro dimensões: visão, competências, recursos educacionais digitais e infraestrutura.

Lúcia Dellagnelo

Então, quando você pergunta qual é o fator mais importante, a resposta tem que ser a presença das quatro dimensões, simultaneamente, para que a tecnologia tenha impacto na aprendizagem.

A dimensão da visão significa saber o que você deseja atingir com o uso da tecnologia, pois não se trata apenas de uma ferramenta e, sim, de um conjunto de conteúdos e saberes que temos que trabalhar com os alunos. Em segundo lugar, o nível de competência digital de professores e gestores é super importante. Por fim, a qualidade dos recursos educacionais –  tipos de plataformas e conteúdos – e a infraestrutura.

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Quais são outras lições que a pandemia pode deixar para o futuro do ensino básico? A ideia de que, no século 21, devemos oferecer uma educação híbrida. Uma educação que tenha, é claro, o componente presencial, pois a escola como local de aprendizagem é muito importante. Mas também que se aliem estratégias de ensino remoto, seja online ou offline, para complementar o processo de aprendizagem.

Hoje, a gente fala que aprendizagem tem que ser ubíqua, ou seja, tem que acontecer em qualquer circunstância, em qualquer lugar e qualquer tempo. A gente não precisa isolar ou reter o tempo de aprendizagem só naquelas hora em que o aluno fica na escola. Você pode expandir a experiência de aprendizagem para outros lugares, outros tempos, personalizando o processo de aprendizagem dos alunos.

O ensino básico pode abrir mão da presencialidade? Não pode e não deve abrir mão da presencialidade. Quanto mais nova a criança, maior a importância da interação social e da mediação dos professores para que a aprendizagem aconteça. Nesse sentido, me preocupa muito as redes de ensino que estão dizendo que vão orientar os pais a como estudar com os seus filhos.

A família, é claro, tem um papel super importante na educação, mas existe uma mediação pedagógica que precisa ser feita por educadores.

Lúcia Dellagnelo

É muito importante garantir a escola como o lugar de aprendizagem coletiva, de ação e interação para as crianças que ainda não têm autonomia e protagonismo no seu processo de aprendizagem. No ensino médio, teoricamente, a gente poderia aumentar o tempo do ensino online porque os jovens já teriam mais autonomia.

Existe alguma iniciativa para se encaminhar uma hibridização do ensino básico? Hoje, a legislação já permite a hibridização no ensino médio. Depende se é ensino médio noturno, mas varia entre 20% a 40% a carga horária permitida na modalidade a distância.

Nesse sentido, é importante diferenciar o que são essas estratégias de ensino remoto que estão sendo aplicadas agora de forma emergencial e o que é educação a distância. A educação a distância é uma modalidade regulamentada no Brasil. Ela tem algumas normas, algumas metodologias que precisam ser seguidas, como um processo de avaliação com polos presenciais.

O que a maioria das redes está fazendo nesse momento são estratégias remotas de aprendizagem. Algumas usando plataformas online, outras distribuindo material impresso, outras fazendo programação pelo rádio e pela TV. São estratégias, mas que não podem ser confundidas com educação a distância na forma como está prevista por lei.

A pandemia do coronavírus está mudando completamente a forma de ensinar na educação básica. Crédito: Pixabay.

A pandemia do coronavírus está mudando completamente a forma de ensinar na educação básica. Crédito: Pixabay.

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Além das mudanças nas competências exigidas dos professores, o que o uso de tecnologias educacionais exige de mudança na postura dos alunos? O aluno geralmente gosta da interação com a tecnologia. Aqueles que têm acesso gostam de aprender e sentem que estão aprendendo no seu ritmo e de uma forma personalizada. Geralmente, a experiência de uso de tecnologias com os estudantes é muito boa.

Mas também depende da idade e do grau de autonomia e protagonismo. Quanto mais jovens as crianças, mais elas precisam de mediação, de estímulo para aprendizagem. Até mesmo para alunos do ensino médio, é necessário ter um contato dos professores, mediação para tirar dúvidas e usar tecnologias para momentos coletivos de troca entre os alunos.

Pesquisa feitas em locais que já passaram pelo pico da epidemia, como Shangai, na China, mostram que mesmos em escolas que usaram muito bem a tecnologia, os professores e alunos estavam exaustos. Os professores relatam que não estavam preparados para fazer a transição e tinham que lidar com mil assuntos nas suas casas, com seus filhos. E os alunos disseram que ficaram muito tristes e isolados, sendo muito difícil estudar sem estar no ambiente da escola.

Parece paradoxal, mas neste momento a gente valoriza de novo a escola não só como um ambiente de aprendizagem, mas como um ambiente de interação e socialização para crianças e jovens.

Lúcia Dellagnelo

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