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Como tantos pais e mães, Marcos Piangers passou pelas agruras do distanciamento social imposto pela pandemia – tendo que conciliar, em casa, tanto o trabalho quanto o ensino remoto das filhas. Foram oito meses desafiadores até aqui. Mas que deixaram lições valiosas, como o papel relevante dos professores, o potencial da tecnologia e das metodologias ativas de ensino.

Piangers é pai de Anita, 15 anos, e Aurora, 8. Jornalista com passagem pela TV Globo e autor do best seller “O Papai é Pop”, com mais de 300 mil livros vendidos, consolidou-se como uma das principais referências em paternidade no país.

Mais recentemente, Piangers tem se aproximado dos educadores. Em 2019, publicou junto com o professor Gustavo Borba o livro A Escola do Futuro”. Neste ano, ele e outros profissionais participam do e-book gratuito “A escola na pandemia. As visões do papai mais pop do Brasil sobre o ensino remoto você confere a seguir nesta entrevista concedida ao Desafios da Educação – editada para efeitos de clareza a concisão.


Piangers, imagino que você receba muitos depoimentos de pais e mães compartilhando os desafios de conciliar o trabalho, as tarefas domésticas e os hobbies com a educação dos filhos em casa. Quais são os desafios que você mais identificou? Acho que muitos pais não percebiam a escola como uma extensão da sua casa, nem os professores como profissionais gabaritados e preparados para o ensino. Os pais, que não têm a paciência para passar o conteúdo aos filhos, estão percebendo que existem métodos, pedagogias e preparo desses professores.

Tenho recebido muitos áudios e vídeos de pais agradecidos por existir professores e escolas. Agradecidos pela paciência e afeto que os professores têm demonstrado com os seus filhos – e até com certo constrangimento em perceber que eles, pais de uma ou duas crianças, não conseguem ter a paciência, didática, esforço e dedicação que o professor tem com 20, 30 alunos.

A dificuldade dos pais é real, mas o ensino remoto também pode trazer experiências positivas? Depois de eu ter notado pais mais agradecidos pela escola, percebo que eles estão se esforçando mais para participar da educação dos filhos. É como se a escola tivesse se misturado com a casa. Nesse sentido, faz muito bem para a criança ter um pai mais presente e percebendo que ela está estudando, contando histórias, fazendo treinamentos de matemática, história, geografia, química e que de alguma forma entende melhor a pedagogia e conhece a escola do filho.

Isso faz bem à família. A gente passa a entender que a escola não é só uma instituição de ensino que presta um serviço. Ela é uma espécie de extensão da nossa casa. Afinal, é lá que os nossos filhos são cuidados, educados, onde um profissional inspira os nossos filhos e reforçam aqueles valores que se ensina dentro de casa.

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Mas e aquela história de que, no ensino remoto, “os professores fingem que ensinam enquanto os alunos fingem que aprendem”. Você acha que é por aí? Acho que existem situações assim, mas não concordo 100% com essa afirmação. Porque há várias boas práticas espalhadas pelo Brasil, que são muito inspiradoras. Desde professores que estão se reinventando, que entendem que a aula a distância precisa de mais energia, tem que ser mais curta, tem que ter uma aleatoriedade na chamada ao engajamento dos alunos. A sala de aula invertida virou uma realidade.

Outra práticas interessantes e inspiradoras incluem convidar autoridades ou pessoas que não poderiam estar em uma sala de aula, mas que podem participar a distância. Também tem professores que ligam e conversam mesmo com alunos que não tem a capacidade de ter aula online pelo telefone. É quase uma aula personalizada. Outras escolas estão ligando para os alunos só para conversar mesmo e manter os alunos conectados. Tem escolas incentivando os alunos a jogarem vídeo game, onde eles podem conversar. Enfim, são muitas iniciativas para tentar suprir a falta brutal que o espaço físico da escola faz.

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Marcos Piangers. Créditos: Arquivo Pessoal.

Marcos Piangers. Créditos: divulgação/arquivo pessoal.

Quase todas as interações atuais só são possíveis graças à tecnologia. Como você percebe esse aumento no uso dos dispositivos digitais? O que aconteceu na pandemia foi um crescimento de movimentos que a gente já vinha diagnosticando. Há muitos anos eu falava nas minhas palestras que o ensino a distância, que o ensino remoto iria se tornar uma realidade – assim como o e-commerce iria tirar o lugar de muitas lojas e o delivery iria substituir os restaurantes. Então, o que a gente está vendo é uma aceleração brutal de 10 anos em 2 meses. Eu falo isso porque foi exatamente o que aconteceu com o e-commerce: ele demorou 10 anos para crescer 10% e nos primeiros dois meses da pandemia cresceram 11%. Vimos a explosão do Zoom, dos videogames, das plataformas de ensino a distância.

Como esse “novo normal”, para usar uma expressão da moda, tem mexido na rotina da tua família? Esses dias eu estava passando pelo corredor e vi minha filha conversando com um monte de amigas. Aí eu disse: “Aurora, o que você está fazendo?” Ela me explicou que estava em uma reunião de Zoom. Era sábado, ela e as amigas tinham combinado de ficar estudando e desenhando ao mesmo tempo em uma ferramenta própria do Zoom, uma espécie de Paint Brush (para quem é velho, na minha época era paint brush). Elas estavam todas fazendo o mesmo desenho, mesmo morando uma em cada canto da cidade (com uma das amigas morando com os pais em Paris). Eu fiquei pensando “nossa, que coisa interessante”.

É incrível como internalizamos novos costumes baseados no uso da tecnologia. Sabe que lá em casa a gente sempre foi low tech. A gente nunca teve vídeo game, iPad e nunca usamos muito a tecnologia. Sempre valorizamos o tempo analógico de família, de conversa e de brincadeiras que a gente podia olhar no olho do outro e ter o que a gente chama de “tempo de qualidade”.

Mas, na impossibilidade dessa interação física, a tecnologia é fantástica para outro tipo de conexão, que mantém os laços sociais e que prepara os nossos filhos para um futuro onde o trabalho será híbrido, onde o homem trabalhará com uma máquina e, por que não, ferramentas como o Zoom no trabalho remoto e o Google Docs na produção de conteúdo e relatórios para o trabalho em equipe.

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E como foi essa transição do analógico para o digital na sua família? A minha experiência tem sido desafiadora, assim como a de muitas famílias. Não fácil produzir profissionalmente e cuidar dos filhos. A gente tem que abrir uma série de concessões e explicar para os filhos como eles têm que desenvolver autogestão e uma autônima nessa relação com o aprendizado. Mas eu tenho visto a minha filha mais velha de 15 anos se interessando por alguns assuntos, entrando em trilhas autoguiadas de aprendizado. A minha filha mais nova está feliz por poder estar conectada com as amigas espalhadas pelo Brasil e pelo mundo, usando ferramentas tecnológicas, que são muito engajadoras. Se você parar para pensar, ela fica muito mais engajada quando fica conversando, desenhando, pintando e até jogando um jogo de vídeo game com as amigas e, na minha opinião, ao mesmo tempo aprendendo.

No e-book gratuito “A escola na pandemia”, lançado recentemente, você comenta essa percepção – de que o engajamento das suas filhas aumenta quando a ferramenta tecnológica não é passiva, “como em uma aula pelo Zoom em que elas apenas ficam ouvindo o professor falar”. Sim, e a explicação rápida é que a atenção de uma criança de oito anos é restrita, a gente sabe que é menor que a de um adulto. O que a gente tem visto em alguns estudos é que uma criança nos primeiro anos teria de 5 a 10 minutos de atenção. Uma criança do terceiro ao quinto ano uns 15 minutos.

É difícil ter a atenção do aluno durante 50 minutos de aula. Por isso a gente recomenda aulas mais curtas, professores mais animados (uma transmissão do conteúdo mais energética) e aleatoriedade na demanda de participação dos alunos para que eles percebam que a qualquer momento eles podem ser chamados e fiquem nessa espécie de ‘tensão’ pela participação e consequentemente fiquem mais focados no conteúdo.

Mas as aulas precisam ser mais curtas. Se a fadiga de Zoom é uma realidade para adultos, por que não seria para crianças, que tem o tempo de atenção mais limitado?

Minhas filhas ficam muito animadas com aplicativos que ensinam geografia, por exemplo. Tem aplicativos que elas ficam treinando a capital dos países e tem outro aplicativo que elas ficam treinando idiomas. Muito engajadas, muito animadas, disputando com as amigas, com os pais, com a gente.

"Sempre valorizamos o tempo analógico de família", diz Piangers.

“Sempre valorizamos o tempo analógico de família”, diz Piangers.

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Você falou bastante sobre o Zoom. O que acha das plataformas de videoconferência? O Zoom é uma ferramenta que não foi feita pra dar aulas, mas está ali pegando o pior dos dois mundo. É igual filmar um teatro, porque o teatro tem a maravilha que é estar naquele lugar e o filme tem aquela edição, trilha e efeitos especiais, mas filmar um teatro é o pior dos dois mundo porque você não tem nem a emoção de estar no teatro e nem a emoção carregada por toda aquela parafernália de edição, trilha sonora e efeitos especiais. A mesma coisa é a aula. O Zoom não foi feito para aulas ele foi feito para reuniões e ele cansa os adultos e cansa criança.

Acho que a gente está somente no início de uma revolução tecnológica. E claramente a gente já tinha ferramentas para iniciar essa revolução – que só não existiu antes porque não tinha uma pré-disposição comportamental. Agora, obrigados a fazer o isolamento social, começamos a namorar o trabalho remoto e o ensino a distância de uma maneira mais séria.

Eu imagino que em 10 anos vamos ter ferramentas de aprendizagem muito mais engajadoras e estimulantes. A má notícia é que essas ferramentas irão buscar aquilo que todos os grandes players de tecnologia buscam: um monopólio.

Eu imagino um mundo daqui 15 anos onde uma única empresa de tecnologia compre todas as empresas relacionadas a educação e proporcione aos jovens do mundo todo a oportunidade de estudar com os melhores professores. Isso pode tornar as escolas obsoletas ou apenas um lugar de encontro onde os jovens se sociabilizam, praticam esportes e exercitam a arte: aquilo que a tecnologia não consegue emular.

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Isso significa que, no pós-pandemia, podemos encarar um mundo com ensino híbrido para as crianças e jovens? Eu não gostaria muito desse mundo. A gente pode sim ter aplicativos, como o Bijus da Índia que ensina trigonometria, matemática, idiomas, português – no caso deles os diferentes dialetos da Índia. Mas é muito triste imaginar um futuro onde as crianças não se sociabilizam fisicamente, um mundo onde as crianças não praticam esportes, não fazem brincadeiras e não exercitam a arte.

“Ah, mas dá para aprender arte sozinho”. Dá. “Ah, mas dá para fazer exercício sozinho” Dá. Mas a gente já tem uma sociedade solitária demais para gente perder a chance de socializar essas crianças.

Eu enxergo a escola como um ponto de encontro, um ponto de contato das crianças com o seu dever cívico, de ajudar as comunidades, com o aprendizado através da arte, do esporte e da interação física do brincar, que é tão importante e necessária.

Voltando ao livro “A escola na pandemia: você escreve que a “ânsia por voltar ao passado pré-covid-19” pode nos tirar a chance de “desenhar um futuro diferente”. O que você espera? E mais: você acha que as escolas tem papel nisso? Sim. Eu acredito que as escolas tem um papel de cura nesse processo, um ponto de encontro das crianças com elas mesmas, com o próximo, com a natureza e com a comunidade. Eu acho que a gente não pode voltar correndo para aula sem antes deixar as crianças seguras e as famílias seguras, mas principalmente os professores e servidores de ensino seguros.

Eu vejo algumas campanhas que dizem: “vamos voltar pela saúde mental das crianças”. Para mim isso é uma mentira de pais que não aguentam mais cuidar dos seus próprios filhos e querem entregar eles para a escola de uma forma irresponsável, que talvez adoeça professores e funcionários. E, sinceramente, não sei como eu dormiria sabendo que desejei a volta às aulas e um funcionário da escola das minhas filhas morreu de covid-19.

Então, eu acho irresponsável voltar. Mas também acho que vale a pena discutir sobre essa volta, desde que não seja sobre entupir os alunos de conteúdo. Se seu filho está cheio de traumas, problemas e ansiedade, entupir ele de conteúdo não será a solução. A solução, aqui, é um processo de bastante discussão, conversa, arte, música, trabalho em grupo e bastantes brincadeiras. Porque isso é curativo, não só para as crianças, mas para o próprio trauma que os professores passaram.

Marcos Piangers e suas duas filhas, Aurora e Anita.

Marcos Piangers e suas duas filhas, Aurora e Anita.

Depois que tiver uma vacina e todo mundo estiver imunizado a gente volta de forma presencial valorizando ainda mais esse processo. Eu acredito muito que a escola tem uma nova vida e um novo papel na sociedade. A gente via a escola como uma preparação para o mundo profissional meramente, mas aí a gente foi vendo que além da formação profissional a escola precisa trabalhar questões comportamentais também e algumas escolas já vinham trabalhando em capacidades emocionais, trabalho em equipe, respeito ao próximo e de respeito pela ecologia e natureza.

Bem, para encerrar (e honrar o título desta entrevista), a pergunta é: a sua aula é pop? Não. Com certeza não. A aula “pop” de verdade é da professora Tati, a professora que é ídola da minha filha e que segura a onda com 30 crianças em uma sala de Zoom com toda paciência e afeto. A aula “pop” de verdade é de todos esses professores espalhados pelo Brasil, que estão se desdobrando para cuidar, educar e ensinar os nossos filhos. Um obrigado para eles.

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Leonardo Pujol
Leonardo Pujol é editor do Desafios da Educação e sócio-diretor da República – Agência de Conteúdo.

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