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Por que meninas são mais afetadas pelo fechamento de escolas na pandemia

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111 milhões de meninas vivem em países subdesenvolvidos, onde manter os estudos durante a crise do coronavírus é uma guerra. Crédito: Pixabay.

111 milhões de meninas vivem em países subdesenvolvidos, onde manter os estudos durante a crise do coronavírus é uma guerra. Crédito: Pixabay.

Em decorrência da pandemia do novo coronavírus, pelo menos 90% da população estudantil em todo mundo foi afetada pelo fechamento de escolas e faculdades. Segundo levantamento da Unesco, mais de 1,5 bilhão de crianças e jovens chegaram a ficar fora da sala de aula.

Entre os efeitos da política de distanciamento social, a entidade ligada à ONU chama atenção para a desigualdade de gênero. O lockdown abre margem para um potencial aumento nas taxas de evasão escolar, que pode afetar bem mais as meninas do que os meninos.

Das quase 743 milhões de meninas sem aulas presenciais, 111 milhões vivem em países subdesenvolvidos. Nessas regiões, o direito à educação já é uma batalha sem fim – em virtude do contexto de extrema pobreza, vulnerabilidade econômica e disparidades de gênero.

Com o lockdown derivado da pandemia de coronavírus, a batalha tende a se agravar.

Leia mais: Como o coronavírus mexe com o calendário escolar e acadêmico ao redor do mundo

Enquanto muitas meninas continuarão os estudos tão logo os portões da escola sejam reabertos, é provável que uma parte significativa nunca mais volte à sala de aula. O que era temporário, será permanente. O mesmo efeito deve ser observado em meninas que vivem em campos de refugiados ou que se deslocam internamente.

As taxas mais baixas de matrículas femininas estão no Mali, no Níger e no Sudão do Sul. Nesses países pobres, o novo coronavírus fez com que 4 milhões de meninas deixassem de frequentar a escola.

O resultado dessa política? De acordo com a Unesco e a Plan International, ONG que defende a igualdade para meninas, quanto mais tempo em casa maior é o risco de elas sofrerem exploração sexual, gravidez precoce e casamento infantil.

Hoje, se todas as meninas concluíssem apenas a escola primária, o casamento infantil cairia 14% nesses países. Se concluíssem o ensino médio, o indicador cairia 64%.

Leia mais: Os desafios do crescimento do ensino superior na África

As lições da epidemia de ebola

Na época da epidemia de ebola, que atingiu a África em 2014, a educação também foi afetada. No auge da crise de saúde, 5 milhões de crianças ficaram sem frequentar escolas em países como Guiné, Libéria e Serra Leoa.

Quando as coisas normalizaram, milhares de meninas que deveriam regressar à escola jamais voltaram. Em razão do aumento das responsabilidades domésticas, mas também porque, ao ficarem em casa sozinhas e sem supervisão, os casos de abuso físico e sexual cresceram.

Em algumas comunidades de Serra Leoa, a gravidez na adolescência aumentou até 65%. Um estudo da “Save the Children” mostra que esse aumento foi resultado direto da ausência do ambiente escolar.

Para piorar, Serra Leoa criou uma lei em 2015 proibindo que meninas grávidas frequentassem as escolas. A lei foi anulada cinco anos depois, em março de 2020.

Para meninas que viveram ou vivem situações de vulnerabilidade, a educação é uma tábua de salvação. Ela oferece proteção contra a violência e a exploração, bem, como habilidades e esperança para um futuro melhor.

No momento, os países precisam manter as escolas fechadas, é verdade. Mas quando a crise do coronavírus passar, as autoridades precisam garantir que todas as meninas voltem à escola. Todas.

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Redação
A redação do portal Desafios da Educação é formada por jornalistas, educadores e especialistas em ensino básico e superior.

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