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Michael Horn: professores devem ser advogados dos alunos, não juízes

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Professora e alunos: o novo modelo de avaliação para melhorar a relação entre docente-discente e o processo ensino-aprendizagem. Crédito: Cecília Bastos/USP Imagens.

Por Michael Horn*

Ser avaliado pode não ser bom para os alunos. Ou até mesmo para os professores e para a sociedade. E há evidências suficientes para considerarmos isso.

Em seu livro Mentalidade: a nova psicologia do sucesso, Carol Dweck, professora de Stanford, escreveu: “Quando o professor os julga, os alunos o sabotam ao não se esforçarem. Mas, quando compreendem que a escola existe para eles – e é um caminho para aprimorarem seus conhecimentos –, os alunos não insistem em se sabotar”.

Segundo a autora, é comum entre estudantes o desinteresse pela escola e a adoção de um ar de indiferença. No entanto, já viu diversos alunos chorarem ao perceber que são capazes de se tornar mais inteligentes.

Por que os alunos teriam a impressão de que seus professores estão os julgando? Porque são seus professores os responsáveis por avaliá-los – que envolve julgar o desempenho que tiveram em determinada disciplina.

Em O presente do fracasso, a escritora e professora Jessica Lahey argumenta que os alunos aprendem mais quando suas famílias estão envolvidas em sua educação. No entanto, em muitos casos, pais e professores viram adversários – a ponto de muitos docentes citarem o desafio de lidar com os familiares o principal motivo de abandonar a sala de aula. O motivo de toda essa tensão é, nada mais, nada menos, que as notas.

Leia mais: Feedback é melhor do que avaliação por nota, diz professor de Harvard

Lahey escreve: “Muitos de meus alunos expressam medo e tensão por semanas antes da entregue dos boletins e, nos dias que antecedem as reuniões de pais e mestres, eles parecem estar destinados à forca. Mesmo quando adoram os pais e respeitam os professores, a lealdade a um atrapalha o relacionamento com o outro, mais ou menos como negociar em um divórcio. Meus alunos não podem confiar em mim completamente quando estou travada na batalha com seus pais.”

E por que os alunos estão travados em uma batalha com os pais? Uma das razões é que eles estão presos em um sistema de alto risco em que os pais são altamente percebidos como avessos ao fracasso – o que eu abordei em um outro artigo.

Como escreveu a co-fundadora e CEO da Summit Public Schools, Diane Tavenner, em Preparado, os professores têm duas funções contrárias. A primeira é fazer com que o aluno aprenda. A segunda é garantir que esse aprendizado seja avaliado de maneira ética e justa.

Leia mais: Não existe educação de qualidade sem bons professores

Há outras razões para desconfiar da avaliações dos professores. As notas dadas por eles podem estar sujeitas à inflação. Isso explica o motivo dos testes padronizados continuarem existindo para verificar se os professores estão pegando leve com os alunos ou não.

Outra razão é que as notas às vezes levam em consideração comportamentos, hábitos e outros aspectos dos alunos, além dos conhecimentos acerca da disciplina.

De acordo com Tavenner, o sistema de avaliação é profundamente defeituoso. “As notas oferecem pouco em termos de objetividade, pois dois terços dos professores reconhecem que suas avaliações também levam em conta progresso, esforço e participação nas aulas.”

Recentemente, em uma reunião com uma importante organização de professores, um membro me confidenciou que os professores estão cada vez mais preocupados e conflituosos em reprovar alunos pelo desempenho acadêmico e, em vez disso, querem ter certeza de que eles recebam crédito por aspectos não tão técnicos – que as escolas deveriam ajudar a desenvolver nos alunos.

Leia mais: Os métodos de avaliação na Educação 4.0

Afinal, o que fazer a respeito

A Western Governors University (WGU), de Utah, nos Estados Unidos, criou um caminho que pode iluminar esse problema. Conforme artigo da Education Next, a WGU possui uma equipe de professores apenas para avaliarem provas ou trabalhos dos alunos e determinar se possuem as competências necessárias para passarem de ano.

Com isso, o aluno nunca pode dizer que tirou uma nota ruim porque o professor não gostava dele, já que quem faz a classificação não o conhece. E a instituição também fica protegida da tal inflação de notas – e, de maneira mais geral, de diferentes práticas para atribuir nota utilizada pelos professores.

A universidade também investiu no treinamento de profissionais na ciência da avaliação – uma habilidade que recebe pouca atenção da maioria dos professores. Como resultado, as avaliações na WGU são tarefas robustas de desempenho, em vez de medidas restritas que poderiam ser utilizadas em testes padronizados – motivo de desprezo dos educadores.

Leia mais: Por que a OCDE “reprova” o modelo do Enade

Isso contraria a maioria das escolas de ensino fundamental e médio, onde, como escreveu Tavenner, “as notas oferecem pouca consistência, pois o rigor delas varia de professor para professor e de escola para escola, e pouca especificidade. A maioria dos pais e alguns alunos não sabem o motivo por trás de uma nota escolar”.

No fim, os estudantes da WGU não têm uma relação conflituosa com seus professores porque não são eles que estão os avaliando. Em vez disso, os professores fazem tudo o que podem para apoiar e defender seus alunos, em um esforço para ajudá-los a dominar diferentes conceitos e habilidades – e progredir na vida.

Implementar isso nos distritos escolares do ensino fundamental e médio é bem mais complicado. Alguns distritos têm apenas um professor para uma determinada disciplina ou série, o que significa que os governos teriam que criar ou associar sistemas e acordos com outros sobre como usar os professores para classificar seus alunos.

Os distritos precisariam entrar em um acordo de que tipo de avaliações seriam utilizadas, a rubrica pela qual classificar os alunos e qual nível de conhecimento constitui qual série correspondente – ou, melhor ainda, qual sinal de domínio.

Leia mais: Como diminuir a ansiedade do aluno antes de uma prova

Mas isso não significa que não devemos ser criativos e criar essas oportunidades. Empresas como Validated Learning (onde sou consultor), Khan Academy e The Graide Network estão fazendo diversos experimentos iniciais neste âmbito. Espero que mais venham.

Vale um investimento sério em tempo e pensamento. Porque é hora de dar aos alunos escolas onde os professores são apenas seus mediadores e apoiadores, não seus juízes ou jurados.


Sobre o autor

Michael Horn é co-fundador do Clayton Christensen Institute e consultor principal da Entangled Solutions.

*Artigo publicado originalmente no blog do Clayton Christensen Institute. Traduzido e editado pelo Desafios da Educação.

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A redação do portal Desafios da Educação é formada por jornalistas, educadores e especialistas em ensino básico e superior.

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