Capacitação Docente

Por que o professor deve cultivar a resiliência

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Por Elena Aguilar*

Imagine, professor, o fim de uma semana intensa de trabalho – naquele tempo onde não se tinha uma pandemia. Como o dia está chuvoso, as crianças ficaram em sala de aula durante o intervalo. Sobraram apenas 10 minutos para o almoço, quando você engoliu um lanche qualquer.

Assim que o expediente termina, você pede a um aluno para apagar o quadro. Ele bufa e solta um comentário desrespeitoso. A turma ri e assiste a cena para ver qual será a sua reação.

Congele esta cena.

Esse momento representa a situação descrita em uma citação de origem desconhecida e erroneamente atribuída a Viktor Frankl: “Entre estímulo e resposta, há um espaço. Nesse espaço, está nosso poder de escolher nossa resposta. Em nossa resposta, está nosso crescimento e nossa liberdade”.

É a hora de cultivar a resiliência, professor. Nós, educadores, somos repetidamente desafiados por atitudes de alunos, chamadas de última hora para uma reunião obrigatória, um pai chateado que aparece na porta da sala cinco minutos antes do início das aulas ou uma solicitação para cobrir o trabalho de outro colega. Tudo isso quando já estamos atolados de tarefas para cumprir.

Isoladas, qualquer uma das situações acima é um pequeno contratempo. No entanto, a longo prazo, a soma de todas pode levar os professores à exaustão.

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A resiliência dentro de cada um

Temos o poder de interpretar e responder aos incidentes. A origem da resiliência está na maneira como os entendemos. É a interpretação que determina as ações. E existem inúmeras maneiras de interpretar um comentário desagradável de um aluno no final de uma sexta-feira chuvosa.

A questão central é que cada uma dessas interpretações leva os indivíduos a agirem de maneiras distintas. Ou seja, podemos identificar o momento exato em que a resiliência precisa ser cultivada e colocada em prática. Não precisamos ser vítimas da turbulência e da imprevisibilidade do mundo.

Até porque, ironicamente, as mudanças são umas das únicas coisas certas na vida e não temos como controlá-las. Por outro lado, a forma como respondemos a elas está em nossas mãos.

Todos entramos na educação porque queremos impactar positivamente na vida dos jovens. A chave para alcançar esse objetivo está no instante entre o acontecimento inesperado e a sua resposta. Cumprimos nossa missão educacional quando examinamos esse momento e cultivamos comportamentos distintos daqueles que temos habitualmente.

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Assim, podemos oferecer aos nossos alunos mais estabilidade, bem como modelos de comportamento para que eles possam gerenciar os inevitáveis ​​desafios da vida.

Resiliência: o que, por que e como

Resiliência é como enfrentar uma tempestade que destrói tudo e, ainda por cima, conseguir se recuperar dela. O mais importante é aumentar essa capacidade com um conjunto de comportamentos adaptativos. Ou seja, em grande parte é sobre nossas atitudes. Entretanto, também é valioso reconhecer que a nossa capacidade de ser resiliente está ligada às circunstâncias do momento.

Pesquisadores afirmam que existem bases neurobiológicas para a resiliência emocional (Osório, Probert, Jones, Young e Robbins, 2017). Eles procuraram entender porque há tanta variação na maneira como os indivíduos reagem às situações adversas. Enquanto algumas pessoas superam dificuldades inacreditáveis, a vida de outras é completamente prejudicada por níveis intensos de estresse.

O estudo chegou à conclusão de que há vários mecanismos em nosso corpo – especificamente em nosso cérebro – que trabalham em conjunto para nos tornar resilientes ao estresse durante a vida. Ou seja, podemos realmente nascer com uma certa quantidade de resiliência.

Embora esse estudo seja relevante, quero focar no fato de que uma quantidade substancial de nossa capacidade de ser resiliente é estimulada em nossos hábitos diários. Uma boa notícia, afinal. A seguir, está uma definição menos resumida de resiliência:

  • Um modo de ser que nos permite recuperar rapidamente de uma dificuldade e nos tornar mais fortes, para que possamos cumprir nosso propósito na vida.
  • Um processo dinâmico e adaptável que inclui interações de um indivíduo dentro de um ambiente complexo, ao longo do tempo. A resiliência não é simplesmente uma função do comportamento de um indivíduo: quem somos e onde estamos afetam nossa capacidade de cultivar resiliência.
  • Uma capacidade cultivada por meio do envolvimento com hábitos específicos.
  • O que nos permite prosperar, não apenas sobreviver.

Por que devemos focar na resiliência

Independentemente do lugar em que você leciona, o ensino é um trabalho emocional e inerentemente estressante. Em parte, é a natureza de estar em uma profissão de ajuda e do servir ao outro.

Um estresse saudável pode até ser bom, uma vez que nos desafia e permite que nos desenvolvamos. No entanto, na área docente, o estresse saudável é frequentemente substituído pelo estresse tóxico.

Esse tipo de sentimento acontece quando as demandas ultrapassam consideravelmente a capacidade de lidar com elas. O estresse tóxico se manifesta, primeiro, com a diminuição da produtividade e se expande para a ansiedade, a frustração e o esgotamento. Diante disso, os líderes escolares devem se concentrar em aumentar a resiliência da equipe.

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Nas últimas duas décadas, o atrito entre professores aumentou cerca de 40% (Ingersoll, Merrill e Stuckey, 2014). Uma série de fatores são atribuídos ao crescimento dos conflitos, mas o mau gerenciamento da equipe é classificado como uma das principais razões pelas quais os docentes deixam a profissão (Carver-Thomas e Darling-Hammond, 2017).

O acúmulo de estresse causado pela profissão tem nome: síndrome de Burnout. Ela se caracteriza por ser um esgotamento físico e mental intenso, cujas taxas são mais altas em áreas urbanas, em educação especial, matemática, ciências e línguas estrangeiras (Carver-Thomas e Darling-Hammond, 2017).

Portanto, a falta de resiliência contribui para a instabilidade da equipe, o que afeta negativamente a aprendizagem, a experiência dos alunos e a vida profissional do docente. Sem contar as altas taxas de rotatividade de professores nas escolas, o que dificulta a acumulação de capital profissional, a implementação de programas, contribui para baixos níveis de confiança e fragiliza a cultura de funcionários e estudantes.

O objetivo final não é apenas manter corpos ensinando em salas de aula, mas atender também às necessidades dos alunos. Eles precisam de educadores apaixonados e comprometidos com o que fazem. Para reter os docentes, os líderes escolares precisam fornecer apoio aos professores, para que eles consigam aprender com esses desafios, superá-los e cumprir o seu propósito.

Nosso objetivo é garantir que estamos trabalhando, ensinando e liderando organizações em que todas os jovens prosperem acadêmica, social e emocionalmente.

Devemos cultivar a resiliência para que eles se formem, entrem em uma faculdade e sigam uma carreira de sua escolha. É importante que os professores cultivem sua própria resiliência para que as crianças tenham uma ferramenta para contribuir com a nossa sociedade.


Editado e traduzido pelo Desafios da Educação, a partir de texto publicado no site da KQED.


Sobre a autora

Elena Aguilar é fundadora e presidente da Bright Morning Consulting, um grupo de consultoria educacional. Ela também é autora dos livros The Art of Coaching e The Art of Coaching Teams.

Redação Pátio
A redação da Pátio – Revista Pedagógica é formada por jornalistas do portal Desafios da Educação e educadores das áreas de ensino infantil, fundamental e médio.

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