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Como falar sobre racismo na escola

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Cartaz com os dizeres: "Abolição ao ódio e ao racismo". Crédito: NBC News/ Reprodução.

Homem com cartaz escrito “Abolish hate!! End racism!!” (Abolir o ódio! Acabar com o racismo, em português) em protestos nos Estados Unidos. Crédito: NBC News/ Reprodução.

O mundo acompanhou, ao longo das últimas semanas, a escalada de manifestações contra o racismo. Enquanto um vírus mortal nos mantinha dentro de casa, uma morte violenta – a do americano negro George Floyd, estrangulado pelo policial branco, Derek Chauvin, em 25 de maio – levou centenas de milhares às ruas.

Os protestos, que começaram nos Estados Unidos, se espalharam por muitos países, incluindo o Brasil. Na esteira desses movimentos, o preconceito racial voltou ao centro da discussão – ganhando ainda mais fôlego na arena das redes sociais.

Como a escola entra nesse debate? Assim como a família, a educação é um pilar essencial na formação de crianças e jovens que não descriminam pessoas pela cor da pele – tampouco por gênero, religião ou aspecto físico.

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De forma prática, há muitas maneiras de abordar o racismo na escola. “Da mesma forma que pautamos nossas professoras mulheres para falarem sobre feminismo, pautamos nossos professos pretos para falar sobre racismo”, explica Luiza Sassi, diretora geral do Instituto GayLussac, escola localizada em Niterói (RJ).

A instituição cria todos os anos um projeto para debater problemas sociais em sala de aula. O tema de 2020 foi o combate ao racismo na escola. Tudo começou com os professores recebendo um livro de referência para trabalharem com os alunos. A obra selecionada para 2020 foiPequeno Manual Antirracista, de Djamila Ribeiro.

A abordagem que os professores utilizam nas atividades, contudo, varia conforme a idade dos alunos. Com crianças pequenas, a escola prefere não utilizar literaturas que apresentam situações de racismo, mesmo que de forma subliminar. Já no caso do ensino fundamental e do ensino médio, sim – pois essas obras podem incentivar o senso crítico.

Elencar uma literatura de escritores negros, que valoriza a cultura negra, tende a fazer com que os estudantes cresçam com esses pensamentos não-discriminatórios. “É isso que estamos vendo com os nossos alunos”, compartilha a diretora do GayLussac.

Alunos do Instituto GayLussac realizando atividade prática de conscientização racial. Crédito: Divulgação.

Alunos do Instituto GayLussac realizando atividade prática de conscientização racial. Crédito: Divulgação.

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Antes do isolamento físico mudar radicalmente a forma de ensinar, as atividades práticas de conscientização do racismo eram feitas presencialmente. Agora, os trabalhos continuam de forma online.

E a participação dos pais é de suma importância – seja para ensinar ou para aprender junto com os filhos, apesar das diferentes perspectivas sobre o tema. Existem pais que reconhecem a importância de aprender e combater o racismo ainda na sala de aula, como têm pais que consideram o tema uma “bobagem”. Alguns desses inclusive já relataram à escola que foram corrigidos pelos filhos, após dizer frases de cunho racista.

“A gente prepara os alunos, e eles desconstroem os pais.”

Racismo e pensamento crítico

Casos de racismo infelizmente não são raros. Umas das mais recentes vítimas de injuria racial foi uma aluna de um colégio particular do Rio de Janeiro (RJ). A adolescente senegalesa Fatou Ndiaye recebeu prints de comentários racistas feitos por colegas da escola em um aplicativo de conversa. O conteúdo foi parar nas redes sociais.

A escola emitiu uma nota de repúdio, mas afirmou que, por se tratar de um fato ocorrido fora da instituição, encaminhou o caso ao Conselho Tutelar. Cinco adolescentes foram identificados pela polícia como suspeitos pelos ataques racistas.

Em entrevista ao jornal O Globo, o pai da adolescente, Mamour Sop Ndiaye, disse que ela e a irmã não irão assistir mais as aulas – que estão o correndo remotamente devido as restrições impostas pela pandemia do novo coronavírus.

Luiza Sassi, do GayLussac, opina que casos como esse devem ser encarados por toda a comunidade escolar – alunos, pais, professores e gestores. “Essas temáticas precisam ser discutidas na escola. É assim que se desenvolve o pensamento crítico e que podemos criar uma sociedade sem preconceito”, diz Sassi, pedagoga e psicóloga por formação.

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O estado de São Paulo registra um caso de injuria racial em estabelecimentos de ensino a cada cinco dias. Crédito: Agência Brasil.

O estado de São Paulo registra um caso de injuria racial em estabelecimentos de ensino a cada cinco dias. Crédito: Agência Brasil.

O racismo em dados

Além de abordar o tema, é preciso dar voz à população negra. Fica difícil, por exemplo, combater o racismo na escola sem professores negros.

Um estudo do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) mostra que professores brancos são maioria nas escolas do Brasil. No Sudeste, apenas 32% dos docentes de escolas das regiões metropolitanas são negros. No Sul do país o número é ainda mais baixo: 12,5%.

Também preocupa os casos de racismo na escola. O estado de São Paulo, por exemplo, registra um caso de injuria racial em estabelecimentos de ensino a cada cinco dias. Em 2017, dos 1.297 boletins de ocorrência, 67 foram em escolas ou universidades do estado.

Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra Domicílio (PNAD), 4 em cada 10 jovens negros não terminam o ensino médio. Os dados ainda mostraram que 73,7% dos alunos do EJA (Educação de Jovens e Adultos) no ensino fundamental são pardos ou negros. No ensino médio, esse percentual era de 65,7% em 2018.

O abandono escolar, que ainda é um dos maiores problemas educacionais do país, tem taxas mais altas entre a população negra. Enquanto a média dos jovens de 19 a 24 anos que não haviam concluído o 9°ano era de 13,1%, entre os negros o percentual é de 19%.

Por isso discutir questões raciais dentro da sala de aula – não apenas quando ganham atenção da imprensa ou do debate público – é importante. Se o preconceito racial é estrutural – num país onde 56% da população se declara negra (preta ou parda), segundo o IBGE –, as escolas não só podem como devem contribuir para uma sociedade mais justa e igualitária.

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