Ensino Básico

Como Reggio Emilia, na Itália, virou referência em educação infantil

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Com o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, a população italiana precisou se unir para reerguer cidades devastadas. Em Reggio Emilia, localizada a 70 quilômetros de Bolonha, no Norte da Itália, famílias que haviam perdido tudo juntaram o dinheiro da venda de seis cavalos, três caminhões e um tanque de guerra abandonado pelos alemães para construir uma escola – inclusive com os tijolos das casas bombardeadas.

Mas não era uma escola tradicional. A ideia era uma escola que pudesse ter um projeto de futuro bastante diferente do que aquele presente. A visão transmissiva que havia na educação daquele tempo (e ainda há) era contraposta por uma visão participativa – ou seja, em que adultos e crianças coparticipam da construção do conhecimento.

Praça em Reggio Emilia. Crédito: Nicola/Flickr

Praça em Reggio Emilia, Itália. Crédito: Nicola/Flickr.

Duas décadas depois, em 1963, a luta que começou com um grupo de pessoas, liderado por mulheres especialmente, na construção de escola infantis, passou a ser uma luta pela municipalização destas escolas. A partir disso, o atendimento começou a ser ampliado. Iniciou-se o grande projeto de construir escolas públicas, laicas e de qualidade.

É contemporâneo a esse projeto político e social que nasce a abordagem pedagógica na cidade de Reggio Emilia – ganhando admiradores, pesquisadores e interessados de todas as partes do mundo.

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Atualmente, segundo a prefeitura de Reggio Emilia, mais de 5 mil educadores de todo mundo visitam a cidade para se aprofundarem sobre a abordagem – que acabou ganhando o nome de cidade.

Por trás do sucesso de Reggio Emilia está o professor Loris Malaguzzi, que visitou a escola em 1946 – e nunca mais foi embora. Ali nasceu o encontro de um pedagogo visionário e uma comunidade que deseja “uma escola melhor e diferente para os seus filhos”, como dizia a placa fixada na primeira escola.

Em entrevista à revista Newsweek, em 1991, Malaguzzi afirmou:

Uma escola precisa ser um lugar para todas as crianças. Não com base na ideia de que são todas iguais, mas de que são todas diferentes.

Loris Magaluzzi ficou à frente do Sistema de Reggio Emilia de Educação Municipal para a Primeira Infância até 1985, quando se aposentou – mas ainda seguiu colaborando e trabalhando com as escolas. Ele morreu nove anos depois, aos 74, decorrência de um infarto. Se estivesse vivo, completaria 100 anos no dia 23 de fevereiro de 2020.

Leia mais: Loris Malaguzzi: 100 anos do criador da abordagem Reggio Emilia

Os fundamentos de Reggio Emilia

Para saber mais sobre os fundamentos de Reggio Emilia, conversamos com o professor Paulo Fochi – doutor em educação pela USP, onde escreveu tese sistematizando o pensamento de Loris Malaguzzi, e autor de Afinal, o que os Bebês Fazem no Berçário?

Professor Paulo Fochi.

Ele afirma que, como outras abordagens participativas – Pikler e Waldorf, por exemplo –, Reggio Emilia tem atributos e elementos que a caracterizam. Um deles é a metáfora das cem linguagens das crianças.

De acordo com o livro homônimo As Cem Linguagens da Criança – Volume 2: a Experiência de Reggio Emilia em Transformação, crianças pequenas podem ser encorajadas a explorar seu ambiente e se expressar “por meio de múltiplos caminhos e de todas as suas ‘linguagens'”. Entre as elas: expressiva, comunicativa, simbólica, cognitiva, ética, metafórica, lógica, imaginativa e relacional”.

Malaguzzi construiu seu pensamento pedagógico a partir de muitas metáforas, e esta, a de que a criança é feita de cem linguagens, é um convite para a escola pensar a complexidade em que se dá a construção do conhecimento. Segundo ele, a “escola rouba 99” dessas linguagens, e prioriza a palavra.

“Foi por isso que Malaguzzi criou a figura do atelierista, para que ele pudesse problematizar as diversas linguagens que o seu humano se vale para se relacionar com o mundo”, diz Paulo Fochi.

Saiba mais (livro): O papel do ateliê na educação infantil: a inspiração de Reggio Emilia 

Falando em atelierista, é importante destacar também sobre a cultura do ateliê, um conceito que evoluiu do ateliê físico para uma abordagem de trabalho que marca a experiência de Reggio Emilia. Com a chegada do atelierista para trabalhar nas escolas, criou-se o ateliê como um espaço para que as cem linguagens das crianças pudessem estar em relação.

Com o passar do tempo, essa experiência que antes estava restrita ao espaço do ateliê, ganha uma compreensão ampliada e passar a ser pensado na cultura do ateliê como modo de organizar e pensar as propostas de investigação para as crianças.

Crianças e suas descobertas. Crédito: NAREA.

Outro aspecto central na abordagem de Reggio Emilia é a imagem de criança. “O que Malaguzzi sempre falou é a respeito da “imagem de criança” que temos. Com isso, ele convidava a pensar que a partir dessa imagem de criança, nos relacionamos com elas e, por isso, é preciso sempre problematizar”, diz Fochi.

Leia mais: Jaume Carbonell: “Função do professor não é ditar pensamento, mas ensinar a pensar”

A pedagogia da escuta é outra metáfora malaguzziana. Para o pedagogo italiano, Malaguzzi, escutar é um modo ativo do adulto aprender a acolher o mundo das crianças e oferecer as condições para que ela possa crescer e aprender.

Nesse sentido, os educadores interagem de forma participativa, assumindo a consciência de que a escola é um lugar para se fazer perguntas – em vez de valorizar apenas verdades e certezas. As qualidades especiais de cada criança também são reconhecidas e nutridas pelos professores.

Alunos de escola em Reggio Emilia. Crédito: Cumone Reggio di Reggio Nell Emilia.

Além deles e dos pais, a escola reggiana conta com outro importante elemento de aprendizagem: o espaço como um outro educador. O ambiente é desenhado e planejado para incentivar a interação entre as pessoas.

Isso significa que a luz natural que advém da janela pode se tornar um forte componente no currículo. Para Malaguzzi, o ambiente se torna um terceiro educador – já que em Reggio Emilia são sempre dois educadores por agrupamento, chamado dupla pedagógica.

Saiba mais (e-book): Crianças, Espaços, Relações: Como Projetar Ambientes para a Educação Infantil

Mais: na abordagem de Reggio Emilia, os materiais são muito valorizados. Nas escolas municipais de Reggio Emilia, encontramos diversos materiais que não são aqueles convencionais de papelaria. A razão disso é que nas materialidades podemos encontrar diversas possibilidades das crianças agirem e construírem suas teorias e conhecimentos.

Leia mais: Livro explica o papel do ateliê na educação infantil

Os educadores também são incentivados a manter um registro contínuo das atividades das crianças usando fotos, vídeos ou gravações. Essa forma de construir memória e vestígios do trabalho que é desenvolvido acaba por se fundir no modo como os professores planejam, refletem, avaliam e narras as aprendizagens das crianças.

A isso, chama-se de documentação pedagógica. Trata-se de uma estratégia pedagógica fundamental da experiência das escolas de Reggio Emilia, pois permite que o professor construa um percurso de reflexão sobre a criança e que ela própria acompanhe o processo de aprendizagem ao revisitar desenhos, pinturas, esculturas e colagens.

A gestão da abordagem

Outras características importantes das escolas de Reggio Emilia incluem “o uso de pequenos grupos em projetos de aprendizagem, a continuidade entre professor-criança (como dito, dois professores trabalham com a mesma turma por três anos) e o método de gestão com base na relação com a comunidade”, descreve o livro As Cem Linguagens da Criança – Volume 2 .

Desenho da parte central (mais antiga) de Reggio Emilia. Crédito: Reprodução.

Em outras palavras, há uma forte combinação de conceitos de serviços sociais e educação.

“Crianças de todas as origens socioeconômicas e educacionais frequentam o local, sendo que crianças com deficiências recebem prioridade e plena integração, de acordo com a lei italiana. Mais de 14% da verba da cidade destina-se a esse sistema de educação infantil, que, no momento, inclui mais de 30 creches infantis e pré-escolas municipais, além de muitas outras pré-escolas e serviços conveniados para crianças de até seis anos.”

Leia mais: Como criar uma escola acolhedora para crianças e adolescentes surdos

A cidade de Reggio Emilia tem, atualmente, cerca de 170 mil habitantes. Desde outubro de 2003, o Sistema municipal de Educação para a Primeira Infância – que por anos ficou sob direção de Loris Magaluzzi – é administrado por um órgão específico chamado Scuole e Nidi d”Infanzia Istituzione del Comune di Reggio Emilia, que é equivalente às secretarias de educação.

A entidade tem autonomia em questões educacionais, pedagógicas e administrativas. Os objetivos da instituição incluem organizar, gerenciar e aumentar as atividades necessárias para o funcionamento e a qualificação de centros e pré-escolas de bebês e crianças pequenas de Reggio Emilia.

Isso inclui garantir a combinação dos princípios mencionados ao longo desta reportagem, como protagonismo infantil, pedagogia da escuta, pensamento crítico, arte e documentação pedagógica. Afinal, foi isso que transformou a cidade italiana, antes conhecida pela qualidade do vinho e do presunto, em referência internacional em educação infantil.

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Redação
A redação do portal Desafios da Educação é formada por jornalistas, educadores e especialistas em ensino básico e superior.

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