Ensino Superior

Universidade tem que transformar sala de aula em ateliê, sugere José Valente

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Embora engenheiro mecânico de formação, o professor José Armando Valente sempre se viu às voltas da computação. Até por isso dedicou boa parte da carreira na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) ao estudo da tecnologia aplicada à educação.

Após 38 anos – com passagens pelo Departamento de Multimeios, Mídia e Comunicação do Instituto de Artes (IA) e pelo Núcleo Interdisciplinar de Informática Aplicada à Educação (Nied) –, José Valente se aposentou da docência. Mas segue vinculado à Unicamp como pesquisador.

Enquanto aguardava a segunda dose da vacina, o professor de 72 anos aceitou o convite para uma entrevista do Desafios da Educação. Ele falou de sua casa, em Campinas (SP). A seguir, confira os principais trechos da conversa.

Tecnologia na educação

A pandemia forçou a adoção do ensino remoto nas graduações presenciais. O que vem depois? Acho que a educação jamais ficará igual a fevereiro de 2020. Depois dessa experiência que as pessoas vivenciaram, boa ou ruim, será muito difícil a sala de aula ser o que era antes da pandemia. Eu entendo que o presencial seguirá importante. Mas o que fica dele? E o que fica do on-line no pós-pandemia? Essa é a questão que precisa ser pensada.

O uso de tecnologia certamente ficará. Sim, principalmente porque se criou uma maior familiarização com as tecnologias. Quem não tinha um bom equipamento se adequou. Alunos, professores e as instituições de ensino se mobilizaram nesse sentido. E também tem o fato das pessoas terem trabalhado mais de casa, sem se deslocar. Essa eficiência no uso do tempo será importante no futuro. Eu mesmo: se você me convidar para um evento presencial, vou questionar porque não posso participar on-line.

Mas o sr. acha que a transição para o on-line está sendo bem executada por escolas e faculdades? Há um problema sério aí: o que está sendo feito ainda é muito distorcido. Gestores e professores ainda não compreenderam totalmente o papel da tecnologia. O que está sendo feito hoje é praticamente transferir o ensino tradicional para o on-line. Têm crianças que ficam quatro horas em frente à tela, ouvindo o professor falando.

O sr. está dizendo que as instituições de ensino não utilizam todo potencial que as tecnologias educacionais oferecem? Infelizmente, sim. Tanto as instituições quanto os professores, que não foram preparados para o ensino remoto, não foram formados para isso. Foram pegos de surpresa. Fazem o que podem. Mas não sabem como usar os recursos de maneira adequada. E também não tiveram tempo de vivenciar a oportunidade de combinar o que é presencial com o que é on-line. Afinal, quase tudo que fazemos hoje é virtual.

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Desenvolvimento de competências

Fala-se muito em desenvolver nos alunos as competências do século 21, como resolução de problemas, trabalho em equipe e criatividade. As tecnologias ajudam nisso? Eu acho que sim. No entanto, também é preciso criar um espaço flexível, onde aluno e professor tenham autonomia para o desenvolvimento dessas habilidades.

Esse espaço não existe? A educação de hoje é uma “caixinha” com uma série de coisas pré-definidas. Como ter autonomia dentro da caixa? É difícil implantar o desenvolvimento de competências dentro de uma cultura rígida, com estrutura fossilizada. Existem muitas universidades com esse problema, o que dificulta o desenvolvimento do que estamos falando. Se o professor não tem autonomia, ele não tem como desenvolver autonomia no aluno.

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Sala de aula e metodologias ativas

Já que estamos falando de estrutura… Se o ensino digital tende a crescer, qual é o papel do campus agora? Trabalha-se com a ideia de que a sala de aula terá que ser alterada, que ela não terá a mesma função de antes. Eu penso num modelo de ateliê, principalmente na universidade.

Como seria um ateliê na universidade? Os alunos não precisam de salas de aula só para ouvir o professor, ler ou ver vídeos, mas precisam para fazer atividades, colocar a mão na massa e desenvolver projetos. Acho que as salas de aula deveriam ser reservadas à discussão, a compartilhar o que estão fazendo, buscar apoio do colega e do professor a respeito dos projetos. É nesse sentindo que a sala de aula me parece mais um ateliê. Se a sala de aula continuar como era, ela vai ficar vazia e sem sentido.

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Temos uma “sala” do futuro, mas e quanto às “aulas”? Eu colocaria mais metodologias ativas e ensino híbrido, que mistura o virtual com o presencial. O quanto fica para um e para outro? Depende da área e da disciplina que está sendo trabalhada. De todo modo, numa visão geral, as aulas tendem a ser menos expositivas. Depois de tudo o que se vivenciou em 2020, será difícil segurar o aluno numa aula tradicional.

O.k., o sr. falou sobre o ensino híbrido. E sobre as metodologias ativas? Sem elas é provável que haja uma evasão muito grande. As metodologias ativas possibilitam uma atenção mais individualizada ao aluno e um ensino mais personalizado. É com elas que vamos desenvolver as competências que falávamos como autonomia, senso crítico, colaboração, criatividade. Mas se não for assim, se a instituição continuar na caixinha com tudo pré-definido, então esquece, vai ser um desastre. Como eu disse, a sala de aula vai ficar vazia.

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Leonardo Pujol
Leonardo Pujol é jornalista e editor do Desafios da Educação. Também é sócio-diretor da República – Agência de Conteúdo, onde colabora para a revista Superinteressante, Piauí, BBC Brasil e HSM Management.

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1 Comentário

  1. Bom dia, sou Professor no Ensino Superior e gostei do artigo sobre a sala de aula como ateliê pós pandemia.
    É verdade, temos de nos preparar e reinventar.

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