Opinião

A relação entre tecnologia digital cognitiva, Covid-19 e educação

1

*Por Rui Fava

Desde os primórdios da humanidade, a tecnologia impera provocando evoluções e revoluções. Ao longo dos tempos, os trabalhos físicos, repetitivos e preditivos foram afanados do homem, pelas máquinas mecanizadas e robôs movidos por inteligência artificial.

Na revolução atual, contudo, a tecnologia digital cognitiva (TDC) está sendo implacável e veloz. Estamos outorgando aos computadores não somente inteligência artificial, mas, do mesmo modo, neurônios, olhos, ouvidos, mãos, pernas e pés artificiais. No entanto, não conseguimos ainda presenteá-los com um coração sensível.

Leia mais: O valor da empatia na educação digital – durante e depois da quarentena

Hoje não é mais suficiente ser generalista. Tampouco especialista. O generalista, retêm um amontoado de conhecimentos genéricos, acoplados a uma visão sem foco e qualquer saber específico. O especialista se limita a opinar sobre um singular tema o que poderá ocasionar dificuldades na visão de conjunto.

Eis que, devido a TDC, a conformação passa a ser a do nexialista, com forte predisposição à versatilidade. Trata-se de um profissional que detém cabeça de hyperlink e está afixado entre o generalista e o especialista (imagem abaixo).

O nexialista apresenta a capacidade de congregar pontos de vistas diversos, compreender, analisar, sintetizar, avaliar uma situação, conectar e agregar pessoas, fazer nexo entre os temas e criar soluções com perfeito bom senso. Nem sempre sabe as respostas, mas conhece os caminhos de onde buscá-las.

Os nexialistas são, em tese, indivíduos bem esclarecidos, com visão sinérgica, conectados, que ostentam discernimento para apaziguar o caos e a anarquia causado pelo excesso de informações e oportunidades.

A despeito de não ser um técnico, a ponto de saber profundamente sobre determinado assunto, o nexialista propicia um padrão de comportamento no qual a comunicação, assimilação e integração de dados e informações passam a ser a cardeal estratégia. Essa visão agregadora propicia insights que facultam organizar as referências e informações de modo a conciliar os múltiplos temas e asserções que compõem a pluralidade do conhecimento humano.

Leia mais: Gestores analisam as lições do coronavírus e os desafios das faculdades brasileiras

Ábdito de ser um herói, o nexialista é substancialmente um indivíduo com nítida inteligência decernere, que contempla o contexto sob uma ótica diferenciada, estabelece parâmetros latos e destrói paradigmas.

Recalcitrante e obstinado, defende veementemente o benefício da dúvida. Prefere as perguntas bem elaboradas, pois usufrui da capacidade de discernir e encontrar as respostas necessárias e pertinentes. Dispõe de uma sagaz persuasão para estimular seus liderados à realizarem com eficiência e eficácia seus quefazeres; conseguem utilizar as redes sociais para identificar oportunidades; possui grande capacidade analítica e criativa, bem como, elevada habilidade para solucionar problemas; carisma e aptidão de se relacionar e aproximar pessoas; mestria para trabalhar em equipe, tendo como maior virtude saber conectar pessoas a resultados.

Leia mais: A anatomia da aprendizagem dedutiva, indutiva e abdutiva

O desafio da educação atual é formar nexialista com inteligência de escola e “inteligência de rua”. Inteligência de rua significa deter habilidades de pensamento de alto nível que lhes permitem ir além do sucesso nas provas e exames escolares, que se tornem empregáveis e empreendedores, que vivenciem e trabalhem no mundo real, resolvendo problemas palpáveis, no tempo presente.

Inteligência de escola expressa estar bem preparado para passar em algum vestibular ou processo seletivo, sair-se bem no exame do Enade, nas provas das corporações, atributos estes que eram suficientes para o emprego e ocupações físicas e repetitivas da Revolução Industrial e Pós-industrial.

O vocábulo nexialista foi utilizado pela primeira vez pelo escritor canadense de ficção cientifica, Alfred Elton Vogt (1912-2000), em seu livro Voyage of the Space Beagle. A ficção contava a saga de uma nave espacial tripulada por cientistas de diversas áreas e um tripulante sem especialidade denominado nexialista, que era mirado com certo desdém pelos demais colegas.

Em quase todas as situações de perigo e risco vital da nave e seus tripulantes, no entanto, surgia o nexialista como herói, graças a sua habilidade de reunir e integrar múltiplas informações, bem como, promover a agregação de todos os conhecimentos da equipe na solução do imbróglio, fazendo com que a nave continuasse sua peregrinação rumo ao futuro e novos desafios.

Leia mais: Educação do século 21 requer menos ensino e mais aprendizagem

O axioma é incipiente, mas o futuro da aprendizagem é empolgante. O currículo tradicional não consegue desenvolver os nexialistas, uma vez que transmite, mas não ensina a buscar informação, em outras palavras, não desenvolve a inteligência decernere, a aptidão de rastrear discernir, escolher e tomar boas decisões. As metodologias ativas, o modismo hodierno, também não medram, porquanto, o objetivo é aplicar os conteúdos ensinados para desenvolver a inteligência volitiva e a proatividade.

O embaraço é que nos últimos anos a educação está passando por fases de muitos modismos. Há pouco tempo atrás, foi a classe invertida (flipped classroom), atualmente a metodologia ativa é a estrela do firmamento. Daí o atraso da educação em se adaptar aos novos paradigmas provocados pelas TDC, inteligência artificial, big data e internet das coisas. Como diz o ditado popular, se algo inevitável não acontece pelo amor, decorrerá pela dor.

A Covid-19, síndrome respiratória decorrente dessa pandemia avassaladora do novo coronavírus, provoca aflição, pânico e desalento sob diversos pontos de vista. A pandemia acelerou mutações disruptivas sem precedentes, que nem se cogitava no médio prazo em área como a da educação.

A pandemia provocará uma mutação não somente na forma de se ofertar instrução, mas acima de tudo no comportamento e atitude dos educadores, dos estudantes e, enfim, dos stakeholders.

Atualmente, existem vários mendazes especialistas evangelizando a utilização de metodologias ativas para educação da 4ª Revolução Industrial, nas quais a escola se torna um teatro, a sala de aula o palco, onde o professor deveria se vestir de mambembe para fazer com que os estudantes fiquem motivados, felizes e ativos.

Essa venerável cena está muito mais nas palestras e apresentações, uma vez que, no momento em que o docente retorna para sua realidade, descobrirá que não consegue aplicar as atividades propositadas em um currículo tradicional.

Leia mais: Um guia completo sobre os efeitos do coronavírus na educação

Sou defensor de que não existe metodologia ativa e sim aprendizagem ativa. Mesmo a nomenclatura aprendizagem ativa concerne-se num pleonasmo inapropriado, todavia, aceitável, porquanto, a neurociência cognitiva testifica que não se encontra assimilação passiva, daí a indispensabilidade da pluralidade na educação, bem como, a aplicação de metodologias híbridas e não métodos únicos, como é o caso do modismo atual com as metodologias ativas.

A metodologia híbrida divide-se em:

Metodologia instrucional: Objetiva a aquisição dos conhecimentos necessários para aculturar o estudante e desenvolver as competências e inteligência de escola. Poderá levar o discente a aprendizagem ativa, se o docente tiver experiências e exemplos reais de projetos e problemas referente ao conteúdo a ser assimilado. É esse o motivo que a experiência “mundana” do professor é tão necessária quanto sua qualificação acadêmica.

Metodologia Experiencial: Também conhecida como Metodologia Ativa, tenciona o desenvolvimento de competências, ao colocar em prática situações e procedimentos para motivar e engajar os aprendizes, como execução de desafios, melhoria de serviços; desenvolvimento de projetos e resolução de problemas;

Metodologia experimental: Visa a criação e sedimentação de conhecimentos, granjeado por meio de pesquisa aplicada, experimentos laboratoriais e simulações.

Leia mais: Lourdes Atié: “Isolamento é oportunidade de tirar a escola de ativismo sem sentido”

Formar o perfil nexialista é mesclar a diversidade de conteúdos de fundamentos e específicos, de modo que tudo tenha nexo entre si. Emprenhar um profissional com capacidade de perscrutar, discernir, escolher, observar, compreender, ponderar, analisar, discernir, sintetizar, avaliar, criar, com as características de inconformismo, curiosidade, interesse amplo, visão sistêmica, habilidades multidisciplinar, discernimento para encontrar o conhecimento necessário, aplicar critérios e princípios comuns, competência para descobrir a causa e especificidade, com o propósito de julgar e solucionar cada anomalia, problema e adversidade.

Além do perfil profissional do egresso, a pandemia da Covid-19 será uma aliada da TDC para acelerar o acolhimento de outros arquétipos. Bem como para alterar a percepção sobre como ofertar educação.

Sairemos desse período totalmente diferentes. Na força, estamos nos transformando em educadores digitais. Mas será muito mais que isso: a educação pulará vários degraus e acatará mutações que, se não fosse essa cruel e malevolente pandemia, talvez levassem anos para adotá-las. Sem querer fazer premonições, ouso apontar algumas dessas metamorfoses.

A escola depois da pandemia

Definitivamente o ensino 100% presencial nos moldes atuais irá desaparecer. Deixamos de discutir sobre modalidade presencial e educação online e reconhecer a metamorfose inevitável em direção à educação híbrida, uma mescla bem temperada e equilibrada dos modelos presencial e a distância, que obtém robustez e aplicabilidade substitutiva às modalidades existentes.

A presencialidade passará a não se referir somente à presença física, considerando um mesmo espaço e um idêntico tempo, porquanto, com as possibilidades da tecnologia de comunicação e informação, é factível estabelecer tal relação e interação virtualmente. Em outras palavras, a presencialidade significará interagir, aprender e se relacionar no mesmo tempo, mas não obrigatoriamente em idêntico espaço.

Leia mais: Quando as aulas voltarem eu não quero que tenha “aula”

A geração atual não está interessada em possuir coisas, mas em acessar serviços para atender suas necessidades. Surge com força a economia por filiação ou modelo de negócio por assinatura.

Simplificadamente, o mundo está migrando o mindset de produtos e serviços com localização para serviços digitais. Vivenciamos a era do cliente, caracterizada pela expectativa de que qualquer conteúdo, conhecimento, informação ou serviço estejam disponíveis, em todo tempo, em qualquer aparelho compatível, no momento que se necessitar. O que os estudantes desejam é o acesso ao conhecimento e não um produto engessado denominado curso.

Não é de se estupeficar que o modelo por assinatura avance celeremente para a educação. Não estou asseverando que os cursos tradicionais irão findar, mas o conhecimento é efêmero e, seguindo os preceitos da aprendizagem permanente ao longa da vida, a atualização deve ser contínua.

Indubitavelmente, a educação por assinatura pode ser uma excelente parceira para todos aqueles que desejam sanar dúvidas, dissipar lacunas, estar ininterruptamente atualizados. Trata-se de um nicho de consumidores, bem como, uma oportunidade que não deve ser descartada pelas instituições de ensino e demais organizações ligadas a Educação.

A TDC aumentou drasticamente a capacidade de uma ampla gama de setores para aproveitar os modelos de associação e assinatura e, sem qualquer pirronismo, as instituições de ensino podem e devem estar nesse rol. Nesse item, creio que também a Covid-19 irá coadjuvar.

Os cursos depois da Covid-19

O propósito será o direcionador para concepção de cursos e não mais o objetivo. Serão concebidos para ocupações digitais e não mais analógicas. Nutrirão o foco no acesso ao conhecimento e não como um produto acabado. Terão duração mais curta e focados no desenvolvimento de competências.

Os cursos utilizarão metodologias híbridas e os docentes trabalharão no conceito de presencialidade hodierna, a distância, em home office, coworking e até no modelo offshoring, ou seja, com professores qualificados de distintas partes do globo.

O professor depois da quarentena

Se o mote estava no desaparecimento do professor transmissor de conteúdo, a Covid-19 acelerou o processo e exigiu que tenha habilidade de ensinar e desenvolver competências a distância.

O trabalho remoto tornou-se uma realidade. Aqueles docentes que não aceitavam o trabalho online, de repente foram forçados a fazê-lo. Muitos descobriram que são analfabetos digitais e que, à vista disso, serão eliminados mais rapidamente do que esperavam. A Covid-19 vai eliminar os educadores analógicos.

Leia mais: 5 dicas para os professores que vão migrar para a EAD

Os sofistas digitais estão chegando. A escola não será mais a mesma com advento da TDC, mutação essa acelerada pela Covid-19. O professor desfrutará não mais das funções, quase que únicas, de preparar e transmitir conteúdos, mas saber construir desafios e projetos que levem ao desenvolvimento das competências desejadas pelo estudante e pelo mercado.

Não será mais admissível um professor que não saiba trabalhar com tecnologia, seja para preparação dos desafios, seja para trabalhar à distância, por meio de comunicação síncrona e/ou assíncrona.

Em breve a tutoria será executada unicamente por meio de inteligência artificial, restando ao professor o desenvolvimento das competências técnicas e socioemocionais. Dessa forma, o processo de ensino e aprendizagem desloca-se para processo de ensino, desenvolvimento e aprendizagem, sendo o ensino para incremento da inteligência de escola e o desenvolvimento para ampliação da inteligência de rua.

As instituições de ensino devem abraçar a nova realidade digital cognitiva. Fora da escola, o mundo assentado em tecnologia, alterou fundamental e irrevogavelmente o modo como as coisas são empreendidas. Este é o caso, não apenas para os negócios, mas também para muitos aspectos de nossas vidas.

Transfigurar a educação, não significa apenas adotar redes de alta velocidade, mobiles, laptops e smartphones, tais recursos servem meramente como ferramentas. Transformar a educação, expressa desenvolver todo o espectro das inteligências cognitiva, emocional, volitiva e decernere, que são cada vez mais exigidas na cultura do século 21, e isso não se faz tão somente com a adoção de tecnologias, mas mutação de mentalidade. Lembre-se, educação é verbo. Transformar escolas de substantivo para verbo é realmente um gigantesco desafio.

Sobre o autor

Rui Fava é sócio-fundador da Atmã Educar, ex-reitor da Unic, da Unopar e vice-presidente acadêmico da Kroton. É autor de diversos livros, como Trabalho, Educação e Inteligência Artificial: A Era do Indivíduo Versátil, Educação 3.0: Como Aplicar o PDCA nas Instituições de Ensino e Educação para o século 21: a era do indivíduo digital.

Leia mais: Menos aulas presenciais, mais em EAD: como aprender em tempos de coronavírus

Redação
A redação do portal Desafios da Educação é formada por jornalistas, educadores e especialistas em ensino básico e superior.

    VOCÊ PODE GOSTAR

    1 Comentário

    1. Parabéns pelo texto e o nível de detalhes e aprofundamentos necessários, luxuosamente auxiliados pelos hiperlinks, levando a necessidade de outras leituras tão importantes quanto.
      Com certeza, terei de lê-los, ainda, outras vezes. Obrigada!

    Leave a reply

    O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

    Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.