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O autor de ficção costuma se sentir desconfortável em analisar a própria obra. Os livros devem falar por si, é o que muitos escritores dizem. Incluindo Itamar Vieira Junior, autor do fenômeno Torto Arado (Todavia, 2019) – vencedor dos prêmios Leya, Oceanos e Jabuti, e que até maio tinha 150 mil cópias vendidas em todo o Brasil.

Se os livros falam por si, é preciso dar especial atenção às palavras de Torto Arado. Dos muitos atributos da obra, destaca-se a capacidade de instigar o leitor a reconhecer e refletir sobre importantes temas sociais.

Sem levantar bandeiras ou discursos doutrinários, Vieira Junior expõe em Torto Arado as várias mazelas da pobreza, como a falta de moradia e de acesso adequado à educação. O autor é geógrafo de formação, doutor em estudos étnicos e africanos pela UFBA e funcionário do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra).

Segundo Vieira Junior, o livro foi construído a partir das próprias experiências. Para ele, a educação não ocorre apenas na escola, na universidade ou nos espaços de instrução formal. “A educação acontece todos os dias em muitos lugares.”

Em um fim de tarde recente, o autor conversou com o Desafios da Educação. Via Zoom, Itamar Vieira Junior relembrou os tempos em que atuou no Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera) e deu detalhes sobre instrução recebida por sua família. Além, claro, de abordar os aspectos de Torto Arado que permeiam o debate da educação – como a chegada de uma escola à Água Negra e a atividade de Bibiana como professora.

A entrevista foi editada para efeitos de clareza e concisão.

Itamar Vieira Junior: em entrevista, autor fala sobre Torto Arado e a educação brasileira. Créditos: Todavia/divulgação.

Torto Arado conta sobre um povo quilombola que sofre com as mazelas da pobreza. O que inclui, entre outras coisas, a falta de acesso à educação. Isso é apenas ficção ou um retrato de suas experiências profissionais? Isso tem uma relação muito forte com as minhas andanças. Quando comecei a trabalhar como servidor público, minha primeira missão, por se assim dizer, foi no Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária. Em três anos no programa, visitei muitos assentamentos da reforma agrária, comunidades ribeirinhas e quilombolas. Então tudo o que aparece no livro, em relação a educação, foram coisas que vi no meu cotidiano.

Pode dar um exemplo de algo do livro que foi inspirado por suas vivências? Tem um momento especial em Torto Arado, que é quando o Zeca Chapéu Grande convence o prefeito a levar educação, através de uma escola, aos trabalhadores de Água Negra (comunidade onde vivem os personagens do livro). Vi muitas histórias parecidas ao longo do meu percurso profissional – de pessoas que faziam esforços semelhantes. E que às vezes não eram alfabetizadas, mas tinham consciência do papel transformador da educação e batalhavam para que seus filhos e os de seus companheiros tivessem um destino diferente do deles.

O que mais chamou sua atenção no Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária? É uma proposta de educação diferente. Usa-se até o termo “educação do campo” – e não “no campo” –, porque é uma educação que tem como base os princípios freirianos, cuja aprendizagem é realizada a partir do contexto do próprio indivíduo.

O programa não se limitava só à alfabetização de jovens e adultos, mas à toda escolarização, do ensino básico ao ensino superior – em convênio com universidades públicas. Ao longo do tempo, formou-se por exemplo um curso de Direito Agrário voltado para as comunidades rurais. A ideia era que, depois da conclusão, as pessoas voltassem para comunidade para utilizar o conhecimento em benefício do seu grupo.

O que é “educação”, na sua opinião? Educação é uma palavra mais abrangente do que o sentido que é dado a ela, de instrução formal, que é institucionalizada nas escolas e universidades.

Acredito que educação é algo muito mais humano, uma espécie de aprendizagem que a gente carrega por toda vida, que nos atravessa de diversas formas. E é algo que fazemos cotidianamente.

Isso é interessante porque me lembra uma passagem do livro. Em certo momento, Belonísia diz que lhe interessa aprender mais ao lado do pai do que ir à escola, ouvindo “histórias mentirosas sobre a terra”, contadas pela professora, Dona Lourdes. Belonísia afirma:

“[A professora] não sabia por que estávamos ali, nem de onde vieram nossos pais, nem o que fazíamos, se em suas frases e textos só havia histórias de soldado, professor, médico e juiz.”

O que ela quis dizer? Nesse trecho de Torto Arado, Belonísia faz uma crítica à educação promovida na escola. Uma crítica intuitiva. Ela diz algo como “se estou na escola para aprender isso, então é mais salutar eu estar com meu pai aprendendo as coisas da terra”. Porque ela tinha uma intuição, uma visão, não muito elaborada, de que aprender é algo permanente e para a vida toda.

Imagina a contradição: o pai com muito esforço consegue uma escola, mas o ensino que chega em Água Negra não atinge todos da mesma maneira. Às vezes a gente acha que o problema é do estudante, mas não. É porque as pessoas não conseguem se comunicar de maneira adequada com todos, respeitando as diferenças.

Isso é o que muitos pesquisadores defendem para educação. Ou seja, que a aprendizagem precisa considerar a realidade do aluno. Não por acaso o Brasil promulgou legislação específica para o ensino em comunidades indígenas, quilombolas e de outras etnias. Uma educação que espelha a diversidade do próprio povo. A diversidade de saberes, de tradições, de línguas. No Rio Grande do Sul existe línguas europeias, mas também indígenas. O mesmo acontece no Nordeste e no Norte. Acho que tudo isso é interessante e deve ser lavado em conta na educação.

Voltando à trama: Bibiana, irmã de Belonísia, tornou-se professora. Por quê? Acho que Bibiana foi muito influenciada pelo pai. Primeiro porque Zeca detinha uma grande sabedoria. Uma sabedoria que envolvia a expressão religiosa daquele grupo. Ele era um homem que conhecia as ervas e as plantas, sabia identificar o corpo e o espírito das pessoas que o procuravam. Então, era um homem com uma sabedoria inspiradora.

Zeca Chapéu Grande também valorizava a educação formal, embora não fosse letrado ou alfabetizado. Era uma liderança religiosa, mas também política. Bibiana estava presente quando a escola foi construída. Ela viu o engajamento do pai naquele projeto. De certa forma, ele iluminou o destino dela.

Foto de Itamar Vieira Junior, durante pesquisa de doutorado, retrata realidade em comunidades quilombolas na Chapada Diamantina, Bahia.

Segundo o livro, Bibiana era uma professora que “ensinava sobre a história do povo negro, que ensinava matemática, ciências e fazia as crianças se orgulharem de serem quilombolas. Que contava e recontava a história de Água Negra e de antes, muito antes, dos garimpos das lavouras de cana, dos castigos, dos sequestros de suas aldeias natais, da travessia pelo oceano de um continente para outro”. 

O que foi essa mudança curricular em Água Negra? Há uma mudança de perspectiva. Bibiana passa a falar a partir da centralidade da vida dela. Ou seja, não fazia sentido ensinar história a partir dos heróis que nos foram dados pelos que estão lá em cima.

A história sempre foi documentada pelos vencedores. Em um país como o Brasil, com racismo estrutural e ampla desigualdade, é muito prazeroso praticar a educação na centralidade das vidas negras.

Foi o que Bibiana fez. Ela começou a ensinar a partir da perspectiva da vida daquelas pessoas. Seu conhecimento em história era mínimo. Mas no passado ela se envolveu com sindicatos e outros movimentos fora de Água Negra. Ou seja, a educação dela não esteve restrita à escola. Quando ela volta, há essa perspectiva de educação de que “agora vamos falar da nossa história”. E fazendo isso de uma forma crítica.

Você falou que o conhecimento de Bibiana era mínimo porque ela cursou o antigo Magistério, opção do ensino médio que antigamente formava professores no Brasil? Sim, ela fez Magistério. Tornou-se o que hoje entendemos como uma professora leiga. E, na verdade, meus irmãos e eu fomos alfabetizados por professores assim, que não tinham entrado na universidade. E isso não era um demérito.

Qual é o nível de instrução da sua família? Eu tive chances que os meus pais não tiveram. Minha mãe não concluiu o ensino básico e meu pai concluiu o ensino médio com muita dificuldade. Mas eles se preocupavam muito com a educação dos filhos. Meus irmãos e eu prosseguimos os estudos. Eu concluí o doutorado. E tenho dois irmãos mais novos que são doutores também. Um é professor em uma universidade e outro de uma escola estadual de ensino.

Qual é o grande marco da sua educação? Eu diria que um grande momento de aprendizagem para mim foi o contato com os povos do campo. Lá eu não tinha nenhuma diretriz guiando meu conhecimento, apenas a intuição e a curiosidade por muitos assuntos. Se tivesse que escolher entre o doutorado e o que eu aprendi com os povos do campo, escolheria a segunda opção. Porque além de técnicas agrícolas e a história da agricultura do Brasil, com eles eu pude aprender sobre o que é humano. Por isso eu acho que a educação não ocorre apenas na escola, na universidade ou nos espaços de instrução formal. Ela acontece todos os dias em muitos lugares.

Leonardo Pujol
Leonardo Pujol é jornalista e editor do Desafios da Educação. Também é sócio-diretor da República – Agência de Conteúdo, onde colabora para a revista Superinteressante, Piauí, BBC Brasil e HSM Management.

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