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Ilka Serra: “Universidades públicas precisarão aderir à EAD”

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Ilka Serra, coordenadora geral do Núcleo de Tecnologias para Educação da UEMA no 12º Seminário Nacional de EAD.

Todo professor deve estar atento às demandas da sociedade. Isso não quer dizer que seja preciso trabalhar pensando a todo instante nos problemas do país. A verdadeira transformação parte do esforço de cada um, da maneira como se ajuda a disseminar conhecimento a quem está ao redor.

É com esse pensamento que Ilka Serra, coordenadora geral do Núcleo de Tecnologias para Educação da Universidade Estadual do Maranhão (UemaNet), se destaca como uma das vozes mais ressonantes em defesa da educação a distância (EAD) no Brasil.

Para ela, a melhora nos níveis de educação do país passa diretamente pelas possibilidades abertas pela EAD. Leia-se aqui valores como democratização do ensino, acessibilidade e inclusão social – entre outros. A modalidade, segundo Serra, caminha para se consolidar como modelo de ensino do futuro. E essa previsão contempla, inclusive, as instituições de ensino superior públicas, onde ainda persistem ecos de resistência à EAD.

Foi orientada por esse paradigma que a professora ajudou a colocar a Uema entre os benchmarks internacionais da área. Em abril, a universidade recebeu um convite da Associação de Educação a Distância dos Países de Língua Portuguesa (EaD@PLP) para integrar o grupo de colaboração para o ensino em rede. A Uema foi a única instituição do Nordeste a fazer parte da EaD@PLP.

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Apesar de sua área de formação ser a Agronomia, Ilka Serra revela ter se apaixonado pelo ensino a distância dez anos atrás. Ela liderava um curso de educação no campo quando se espantou com o nível educacional dos alunos, extremamente deficitário.

A professora percebeu que só era possível reverter o cenário através da inclusão possibilitada pela EAD. A partir daquele momento, sua carreira deu uma guinada.

“Eu nem chamaria de carreira, pois tenho essa uma paixão por um trabalho maior, que é fazer da educação um forte elo para o desenvolvimento do meu estado, do meu país e das pessoas que buscam conhecimento”, explica.

Até abril deste ano, ela também coordenava o Fórum Universidade Aberta do Brasil (UAB), vinculado ao Sistema UAB, um programa da Capes que forma professores de mais de 130 IES públicas na modalidade EAD, além de apoiar pesquisas em metodologias inovadoras.

Na entrevista a seguir, Ilka Serra fala de suas experiências com EAD, das resistências que envolvem a área e, claro, do potencial transformador da modalidade.

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O que o futuro reserva para a EAD – e o que é primordial para uma IES que almeja se destacar na modalidade? Pela Associação de Educação a Distância dos Países de Língua Portuguesa, fazemos consultoria para algumas universidades, principalmente via Associação Brasileira de Reitores de Universidades Estaduais e Municipais (Abruem), entidade da qual eu faço parte da Câmara de EAD. Visitamos universidades que ainda não têm EAD e digo para muitos reitores que não vejo saída para IES públicas que não seja a EAD. [O governo federal anunciou em agosto que vai apostar na expansão do ensino a distância no sistema federal de ensino superior. O plano segue em desenvolvimento.]

No entanto, reforço que é preciso uma EAD de qualidade, e não ficar apenas esperando recursos do governo federal ou dependendo de programas educacionais. Essa é a saída, pois potencializa e otimiza o trabalho dos professores.

Tome-se o exemplo da contratação por concurso público, o que é cada vez mais difícil. Acho que a EAD vai melhorar esse cenário. E destaco um conselho: se forem investir realmente em educação a distância ou em educação híbrida, as universidades devem entender o potencial do presencial e da EAD. É possível mesclá-las de modo que o aluno busque um modelo diferenciado de educação sem deixar a qualidade de lado. E não falo em qualidade no sentido ideológico, ou mesmo subjetivo, mas sobre professores qualificados, material didático de ótima qualidade e gestão diferenciada.

Sinto que em pouco tempo não poderemos mais falar de modalidade de educação presencial ou a distância, mas apenas em educação.

Tudo indica que a EAD, em pouco tempo, irá superar o presencial em número de novas matrículas. As IES brasileiras estão prontas para essa nova realidade? A maioria das instituições públicas ainda não se adequou para absorver a nova demanda, inclusive porque há resistência. Os cursos a distância têm procura muito maior em relação ao presencial principalmente pela flexibilidade. Já as universidades privadas estão bem mais preparadas, com visão para atender essa realidade.

Esperamos que as IES públicas passem a ver esse contexto com outros olhos – e não apenas para aumentar o número de matrículas, mas em relação ao seu próprio planejamento financeiro. Trata-se de uma modalidade que pode ser atendida com custos muito menores que no presencial.

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Muita gente critica a qualidade da EAD, inclusive tomando como base as notas no Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade) e outros indicadores. Qual é a sua opinião em relação à qualidade? De maneira alguma aceitamos a ideia de que EAD é melhor ou pior que o presencial. Temos que destacar para a sociedade e para os alunos que saem do Ensino Médio, que se trata de um modelo diferenciado de educação, que permite estudar e trabalhar graças à inclusão digital.

É um modelo futurista, e é isso que se espera de um aluno atualmente: que ele tenha disciplina, busque conhecimento e não apenas espere o professor dentro da sala de aula. Quanto ao modelo, de fato, ainda precisamos trabalhar avaliação e indicadores que permitam avançar rumo a uma educação ainda melhor.

Eu diria que já avançamos muito, com vários cursos com conceitos muito bons – e outros, também, com indicadores muito baixos em exames como o Enade. A própria sensibilização do aluno independe de presencial ou a distância, mas de entender a importância das avaliações.

Agora voltando ao desempenho, há índices que mostram a EAD com eficiência acima do presencial. Temos o exemplo na própria Uema, onde o curso melhor avaliado, com nota A, é a distância, enquanto o mesmo curso no presencial é nota B. Temos que mostrar é que se trata de um modelo diferenciado, com vantagens e desvantagens. O que pesa contra a EAD é não termos conseguido nos debruçar sobre uma avaliação que não seja a mesma do presencial, pois são modelos distintos.

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Pesquisas mostram que 60% dos alunos de EAD são oriundos de escolas públicas, atraídos sobretudo pelo menor custo e pela flexibilidade. O que isso revela sobre a educação brasileira? Meu ponto de vista a esse respeito é mais positivo. Na Uema, uma escola pública, 89% dos alunos que passam no vestibular de cursos a distância vêm de escola pública. E não é porque o vestibular é mais fácil, mas porque a demanda desses cursos tem crescido naturalmente.

Os estudantes querem trabalhar e estudar, e isso faz com que as matrículas da EAD cresçam em detrimento do presencial. Além disso, vejo como pontos que pesam muito em favor da EAD a questão da inclusão e da democratização do acesso.

De que maneira a senhora avalia a expansão do modelo EAD no Brasil, depois de um boom na quantidade de polos? Se não houver mudança na legislação – essa mesma que permitiu o crescimento desordenado na quantidade de polos –, o crescimento tende a continuar. Mas não é isso o que mais queremos.

Entendemos a importância da educação qualitativa e buscamos fortalecer o modelo aliado ao presencial, trabalhando com a educação híbrida. O foco não deve ser na abertura de uma imensa quantidade de polos sem uma rigorosa avaliação, sem dar o academicismo necessário às graduações – atrelando pesquisa, ensino e extensão. Tudo isso traz uma perspectiva de medo pra quem trabalha com educação de qualidade.

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A senhora enxerga avanços no ensino híbrido? Esse é o modelo que esperamos fortalecer. Sinto que em pouco tempo não poderemos mais falar de modalidade de educação presencial ou a distância, mas apenas em educação. E isso vai contemplar o uso da tecnologia, a mediação dos alunos, a flexibilização do currículo no sentido de fazer com que o aluno possa definir seu fluxo de estudo – inclusive sobre o que ele quer aprender dentro grade curricular. A tendência é de um modelo menos rígido em relação ao que é proposto hoje.

Em relação à capacitação de professores e tutores, como a senhora avalia a maturidade dos profissionais brasileiros? O Brasil já tem muitos professores e tutores capacitados em fazer educação a distância. O tutor é o profissional que vai mediar a educação, e temos profissionais altamente qualificados, com gente que atua num contexto de formação intermediada pelas tecnologias. O Brasil é reconhecido mundialmente no contexto da educação a distância por ter uma formação muito qualificada.

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Apesar dos avanços, há também as polêmicas. Tome-se os exemplos das graduações em farmácia, medicina veterinária e arquitetura, cujos cursos são aprovados para EAD pelo MEC, mas o registro profissional esbarra nas entidades de classe. Como resolver impasses assim? A falta de conhecimento sobre o funcionamento de um curso a distância, bem como de suas metodologias e pedagogias, causa esse tipo de transtorno.

Os conselhos estão recheados de profissionais que desconhecem o funcionamento da modalidade. A proibição do registro acaba sendo um contrassenso, considerando que há vários cursos de pós-graduação a distância na área da saúde, procurados cada vez mais.

Acredito que, no curto prazo, esses conselhos vão voltar atrás, pois trata-se de uma metodologia que aproxima o aluno da educação do século 21. Nela, trabalha-se sob a perspectiva das competências digitais, em que o aluno tem um olhar voltado à aprendizagem, a como se comportar diante de novos modelos de mercado. A discussão não deve ser mais sobre como o aluno vai receber as informações, mas sim sobre como ele vai aprender o que lhe é passado.

Qual é a sua opinião em relação aos mestrados e doutorados EAD, que devem chegar ao mercado já no próximo ano? Tive a oportunidade de participar da comissão que pensou a resolução desses mestrados e doutorados a distância. Foi um avanço muito grande para o Brasil. Muitos países já têm essa modalidade e o Brasil, com grande know how de fazer educação a distância, ainda não tinha isso regulamentado.

A resolução ampara a possibilidade de serem apresentados projetos via universidades públicas e privadas na modalidade de stricto sensu. No entanto, será preciso ter muito cuidado ao interpretar a resolução, pois ela tem muitas amarras, onde a ideia é que o modelo não seja de um mestrado ou doutorado a distância, e sim um híbrido.

Muitos países já trabalham com a possibilidade de trabalhar o mestrado em rede, ou seja, com o número de pesquisadores espalhados pelo Brasil numa esfera muito mais ampla.

A resolução foi um dos grandes avanços que Capes implementou em relação à pós-graduação. É um grande diferencial, que vai dar uma alavancada para o país em termos de pós-graduação stricto sensu. Apesar das resistências, imagino que dentro de três ou quatro anos muitos programas irão surgir. E esse vai ser um grande diferencial para o Brasil.

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De onde vem seu interesse pela educação a distância? Minha experiência com EAD tem dez anos. Faço questão de destacar que não sou da área da educação, pois minha formação é técnica. Sou engenheira agrônoma. Em 2009, fui convidada para coordenar um curso sobre educação no campo e experimentei tudo que defendo agora na EAD: um modelo de educação que permite a inclusão das pessoas a partir do digital.

É imprescindível que a pessoas conheçam os modelos digitais e a democratização do conhecimento. Quando experimentei a EAD, fiquei chocada com a realidade da educação no Maranhão, com a quantidade de pessoas sem acesso a conhecimento. Como eu estava mais voltada à pesquisa, com interesses pessoais que não traziam desenvolvimento ao meu estado, passei a pensar como poderia ajudar no contexto da educação.

Chama atenção sua formação não ser em educação. Esse direcionamento, portanto, parece ter sido por acaso. A paixão por esse modelo, que é a educação hibrida, fez com que minha carreira fosse remodelada. Hoje atuo como professora e pesquisadora na EAD, mas continuo fazendo minhas pesquisas na área de agronomia e acumulo, ainda, o cargo de gestão.

É nessa última função que tenho trabalhado mais fortemente sob a perspectiva de mostrar cientificamente que é possível fazer gestão pública com esse modelo. Foquei minha carreira num processo mais social, mais democrático da educação. O Brasil já tem um modelo muito importante de educação a distância, tanto em universidades públicas como nas privadas mais sérias. Tenho uma paixão por um trabalho maior, que é fazer da educação um forte elo para o desenvolvimento do meu estado, do meu país e das pessoas que buscam a educação.

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E quanto à sua experiência no UAB? Tive o privilégio de dirigir o Fórum de Coordenadores do UAB durante dois anos e meio. Isso foi fundamental para conhecer a realidade da educação a distância no Brasil, ver a quantidade de pessoas sérias que trabalham com EAD nas IES públicas e privadas. E faço questão de destacar o conhecimento que adquiri junto à Associação Brasileira de Educação a Distância (Abed).

Vi um leque de oportunidades e passei a acreditar na EAD não por ser melhor que o presencial, mas por acreditar que o modelo se encaixa nas diferentes regiões e realidades do Brasil. Ele permite a diminuição dos déficits educacionais que o país ainda tem. 

O que significa, para a Uema, ter sido convidada a integrar a AeD@PLP? Em 2019 a Uema completa 21 anos fazendo EAD. Acumulamos uma expertise que nos permite avaliar a formação dos alunos em todos os níveis.

Quanto ao convite, foi um reconhecimento muito importante, que tem muito a ver com a nossa tentativa de inovar dentro do UemaNet, onde trabalhamos a intermediação dos cursos a distância. O Núcleo buscou, nos últimos cinco anos, atuar sob a perspectiva da inovação, de algo que proporcione novidades à instituição. E não me refiro apenas aos cursos a distância, mas também aos presenciais. A grande inovação foi a criação da plataforma de cursos abertos.

Por quê? Assimilamos muito bem a importância dos recursos educacionais abertos. Dentro deles trabalhamos um elemento importantíssimo que é a formação através de cursos de curta duração.

Em nossa plataforma, chamada Escada, temos cursos de 60 a 80 horas. A solução, lançada em agosto, foi desenvolvida por nós mesmos. Fizemos questão de reformular a plataforma para atender uma demanda internacional, de vários pesquisadores.

Agora temos cerca de 300 mil inscritos em 28 cursos, atingindo pessoas de 52 países. Acredito que sejam brasileiros espalhados pelo mundo e indivíduos de países de língua portuguesa. O reconhecimento da AeD@PLP veio também daí, de todas essas formas diferenciadas de inovação.

Quais são as principais vantagens de integrar a Associação de Educação a Distância dos Países de Língua Portuguesa? Percebemos benefícios como a mobilidade virtual, já que trabalhamos com várias universidades de Portugal que também operam modelos de inovação pedagógica.

Além disso, as parcerias têm proporcionado a formação de nossos alunos e tutores. Esses laços trazem uma possibilidade ampla de diferenciação pelo uso das tecnologias e, sobretudo, de internacionalização.

Confira a série Tecnologias para a educação

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