Ensino Básico

Sobre dar voz e espaço aos estudantes (dentro e fora da escola)

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Este é o quarto e último de uma série de artigos da nossa colunista Lourdes Atié intitulada Escola e cidade: espaços de aprender a viver.

A cidade precisa ser capaz de acolher as crianças e jovens, mesmo que a escola não esteja presente.

A cidade precisa ser capaz de acolher as crianças e jovens, mesmo que a escola não esteja presente. Crédits: Freepik.

Depois de refletir sobre o interior da escola e sobre o papel da cidade, podemos mudar esta realidade e enxergarmos que a educação vai além da escola. Porém, tanto a escola quanto a cidade precisam dar visibilidade para crianças e jovens. Eles exigem serem tratados como cidadãos, não como um projeto de futuro ou algo do tipo “vir a ser”. Eles não são seres incompletos. Precisam ser ouvidos e respeitados.

Temos agora uma grande oportunidade de discutirmos educação de uma perspectiva mais ampla, em que é urgente o diálogo entre a escola e a cidade, em que as crianças e jovens assumam o protagonismo necessário para o pleno exercício da cidadania. A pandemia nos ensinou que não podemos adiar aquilo que precisa ser enfrentado. Porque não estamos vivendo apenas algo que vai passar e que depois tudo voltará a ser como o que deixamos lá trás. Se assim acontecer, teremos perdido uma grande oportunidade de fazer uma outra história baseada na justiça social.

É preciso se inspirar nos ensinamentos de Airlton Krenak, em A Vida não é útil (Companhia das Letras, 2020)

“O que nos resta é viver as experiências, tanto a do desastre quanto a do silêncio. Às vezes nós até queremos viver a experiência do silêncio, mas não a do desastre, pois é muito dolorosa… Ou toda vez que você vê um deserto você sai correndo? Quando aparecer um deserto, o atravesse.”

A invisibilidade dos mais jovens

Como temos abordado na série dos artigos publicados neste site, sobre a escola e cidade, como espaços de aprender a viver, é importante destacar que para que uma cidade se torne educadora precisa que todos os seus cidadãos tenham visibilidade em igualdade de condições, melhorando a acessibilidade e a interação com outros agentes educativos da cidade.

No Brasil, porém, sabemos que crianças, jovens e velhos são invisíveis socialmente.

Um exemplo ocorreu em 25 de setembro de 2020. Na ocasião, a jovem ativista sueca Greta Thunberg desencadeou mais uma onda de mobilização de jovens pelo mundo, a primeira desde que a pandemia apareceu no mundo. Intitulado “Fridays for Future”, o movimento incluiu jovens em todos os continentes discutindo as emergências climáticas do planeta.

Estudante brasileiro em ato do Fridays for Future. Crédito: Fridays for Future International.

Estudante brasileiro em ato do Fridays for Future. Crédito: Fridays for Future International.

Mesmo em tempos de pandemia, os jovens entenderam que as questões ambientais não estão apartadas das questões sanitárias e pedem urgência. Eles foram para as ruas, em centenas de cidades pelo mundo, usando máscaras, respeitando o distanciamento e lutando para que seu futuro não seja destruído por aqueles que hoje estão no poder.

Acompanho a repercussão que a Greta Thunberg tem no Brasil, desde 2018, quando começou a desencadear um movimento mundial, a partir da sua greve às aulas, as sextas-feiras, na porta do parlamento sueco. Desde então, seu movimento uniu jovens de diferentes nacionalidades ao afirmar que “nossa casa estava pegando fogo”.

Pois por aqui, esta importante experiência da jovem ativista passou pela mídia de forma insignificante, sendo até ridicularizada pelo Presidente da República, que a chamou de “pirralha”. Também a imprensa brasileira, com diversos jornalistas e articulistas tentando desqualificá-la. Sendo que, a despeito do que muitos no Brasil pensavam a seu respeito, Greta foi reconhecida como a personalidade mais influente do mundo pela Revista Time em 2019. Ele segue dialogando com as principais autoridades mundiais em todas as instâncias de poder.

Este exemplo é para mostrar que no Brasil não enxergamos a força que os jovens podem ter. Eles seguem sendo invisíveis. Como nas vezes anteriores, o evento “Friday for Future” recebeu uma brevíssima cobertura na televisão. No jornal de maior circulação em São Paulo, mereceu apenas uma foto com uma frase, sem nenhuma matéria compatível com a importância que o assunto merecia.

O exemplo confirmou aquilo que estou atenta: por aqui, os jovens e as crianças não têm voz, não existem para além do seu papel de estudantes, porque os adultos não aceitam ou não enxergam que eles possam agir como cidadãos, sem serem guiados ou controlados pelos adultos. Escrevi um artigo a esse respeito para o Blog das Letrinhas.

Greta Thunberg deveria servir de modelo para nossas escolas.

Outro exemplo que vivemos no momento: o abre e fecha das escolas pelo país. As crianças e jovens nunca são consultados, perceberam? Quando tem voz na mídia é apenas para dizer que sentem saudades dos amigos e dos prédios das escolas. É apenas sobre isso que os adultos escutam. Não existe possibilidade de serem consultados sobre como podem viver a vida em tempos tão difíceis. O que estão aprendendo que seja para além de testagens.

Exemplo de Cittá dei Bambini

Felizmente há cidades com outras perspectivas, que têm o foco no direito das crianças serem vistas como cidadãos. Uma delas é Cittá dei Bambini, que o pedagogo e desenhista italiano Francesco Tonucci criou e atua desde 1991.

Esta experiência começou numa comunidade chamada Fano, localizada na região de Le Marche, na Itália. A proposta consiste em adotar uma filosofia de governo e de cidade que seja 100% voltada para crianças. Não se trata de fazer da cidade um parque de diversões. É uma cidade comprometida em atender às necessidades de todos os cidadãos. Ou seja, fazer uma cidade melhor para todos de verdade. Isso significa garantir que as crianças possam ter experiências como cidadãos autônomos e participativos.

A experiência tem inspirado muitas cidades italianas e outras em diversos países, como a espanhola Pontevedra, na Galícia, que recebe consultoria do próprio Tonucci. Hoje existe a Red Latinoamericana de la Ciudad de los Ninõs, baseada nas ideias de Tonucci.

Numa entrevista realizada em 2016, para um veículo brasileiro, ele afirmou: “Não quero uma cidade infantil, uma cidade pequena. Não quero uma cidade montessoriana. Quero uma cidade para todos. E para estar seguro de que não esquecerei ninguém, escolho o mais novo.”

Ele afirma que não se trata de fazer uma cidade “amiga das crianças”, porque ser amiga é fazer por elas, atendendo muito mais às necessidades dos adultos que delas. Tonucci defende a transformação das cidades a partir do olhar das crianças que nela habitam, criando estruturas para permanência das crianças nas ruas, em segurança. Portanto, todas as políticas públicas devem garantir o direito ao brincar de todas as crianças em espaços não delimitados para tal. Porque a brincadeira é a experiência mais importante do ser humano.

A proposta de Tonucci – que com frequência tem conversado pelas redes digitais, com educadores brasileiros – ainda não foi plenamente entendida por aqui. Ele defende que, se o vírus mudou tudo, a escola não pode seguir no mesmo formato. É preciso reduzir o tempo de permanência na escola e deixar as crianças saírem para brincar nas ruas, sem a supervisão do adulto, fora de espaços planejados.

Tonucci defende ainda que as ruas em torno das escolas deveriam ser fechadas ao tráfego de veículos para estender o espaço de aprender para além dos muros das escolas. É pela vizinhança que as crianças aprendem a participar de forma autônoma.

Escola e cidade; Segundo Atié, esses espaços precisam dar visibilidade aos estudantes. Crédito: pexels.

Escola e cidade; Segundo Atié, esses espaços precisam dar visibilidade aos estudantes. Crédito: pexels.

O que podemos fazer juntos? Atravessemos!

A educação é um importante motor de transformação social. Apostar na educação como eixo transversal das políticas públicas é um compromisso que vai para além da educação escolar e de outras instituições, para impregnar toda a sociedade.

No momento em que as cidades brasileiras têm a difícil tarefa de abrir as escolas em segurança, com a pandemia ainda em curso, apresentando quadros de mutações do vírus, em que tudo fica tão difícil de planejar, é uma oportunidade de a sociedade discutir seu papel educador, debate necessário que pode ser desencadeado pela escola. Precisamos pensar em alternativas para melhorar a qualidade de vida de crianças e jovens, em tempos tão imprevisíveis.

Tenho acompanhado o que acontece em Barcelona, que é a sede das Cidades Educadoras. No ano passado, depois de alguns meses trancados em casa, no auge da pandemia, a cidade abriu um intenso debate público, capitaneado pela prefeitura, sobre a urgência das crianças poderem sair à rua. Por meio de um forte movimento, que envolveu diversos setores da sociedade, com análises científicas potentes, conseguiram autorização para que as crianças e jovens pudessem circular pelas ruas, como um direito. Tudo com muito controle e cuidado.

Em seguida, iniciou-se um debate de que as crianças e jovens estavam muito tempo distantes dos amigos e falta dessa convivência, estava afetando-os emocionalmente e assim começaram a criar ações que favoreciam a convivência entre crianças e jovens para que pudessem reconectar com sua vida coletiva, para além da escola, antes das aulas retornarem, o que aconteceu em setembro passado.

Atualmente, todos os estudantes estão para os prédios das escolas, sem escalonamento por idade ou limite na quantidade de alunos que podem estar na escola. Ao contrário! Todos os estudantes voltaram para as escolas, tendo os protocolos europeus de distanciamento assegurados. Isso exigiu mudanças estruturais nas escolas, tanto o que diz respeito ao currículo, ao seu funcionamento, como também na sua estrutura física, nos ambientes internos e externos das escolas.

Mesmo com o repique de contágio, a ciência fala mais alto e as escolas seguem funcionando, pois os cidadãos sabem o valor que a escola tem. E para além da escola, os espaços públicos são assegurados para que as crianças não fiquem confinadas em suas casas e nem nas escolas.

Nestes tempos em que estamos em isolamento (nem todos), é que precisamos semear esperança para não adoecer. É preciso ter coragem de pensar em outras possibilidades de vida, na escola e para além dela. Ter uma cidade que seja capaz de acolher as crianças e jovens, mesmo que a escola não esteja presente. E com uma cidade que permita, acima de tudo, que crianças possam brincar com seus amigos onde queiram e que os jovens possam se encontrar, todos com segurança. Cidade que permita aos cidadãos, dos pequenos aos idosos, percorrer suas ruas e utilizar os espaços públicos sem medo e em segurança.

Podemos começar assim, até alcançamos o estágio em que possam ser enxergados como cidadãos de direito, participando ativamente da gestão, da manutenção e do planejamento dos espaços públicos.

A escola no Brasil precisa participar do entendimento da cidade como um espaço educador para aprender e conviver. Para isso necessita mudar sua perspectiva. A cidade que a escola mostra para os alunos é aquela da excursão escolar, com saídas pontuais, estudo e exploração por meio de um roteiro orientador para voltar para dentro das paredes da escola. É um currículo encerrado e imóvel. Mas neste século 21 não é mais o mundo que vai para dentro da escola, mas a escola que vai para o mundo. Como a escola está se preparando para isso?

Estou defendendo um olhar complementar entre a escola e a cidade, para que a escola possa repensar o seu papel e criar uma organização frente às demandas do mundo contemporâneo, em que a cidade é currículo também. Novas formas de aprender para além da escola já se colocam como realidade, que exigem a colaboração de toda sociedade. Estou falando do compromisso com a cidadania, que envolve responsabilidade e cuidado de todos: seja na escola e também na cidade.

É preciso discutir com atenção este assunto. Nestes tempos tão confusos, proponho aproveitarmos e assumirmos a imprevisibilidade que a vida tem, abandonando o lugar das certezas e entender que a hora de fazer diferente e melhor é agora. As decisões que tomarmos hoje ou não tomarmos, vão definir o futuro das gerações mais jovens. Essa é uma escolha acima de tudo política.

Estamos vivendo tempos de muito barulho e pouca escuta. Precisamos desacelerar, fazer silêncio, para nos ouvir e ouvir o outro também. É hora de reconexão e podemos começar perguntando para todos: quais são seus sonhos (não os de consumo, mas os verdadeiros)? Sem eles não há esperança e seguiremos apenas buscando o sentido utilitário da vida. Se só temos isso a oferecer para as crianças e jovens, então teremos falhado como pessoas.

Por mais difícil que possa parecer este tempo que estamos vivendo, é preciso seguir com esperança! E professor e esperança formam um binômio com a mesma essência. Paulo Freire nos ensina em Pedagogia da Autonomia – saberes necessários à prática educativa (Paz e Terra, 1997) que “esperança é um condimento indispensável à experiência histórica. Sem ela, não haveria História, mas puro determinismo.”

Ainda dá tempo para construímos nossos sonhos. Vamos dar menos valor aos resultados e focar no valor das experiências que estamos vivendo neste momento. Vamos nos envolver mais com a vida, ouvir mais as crianças e os jovens e poder reconhecer que nós adultos nada sabemos, mas que estamos juntos e assim, poderemos nos reconectar com o sentido essencial da vida. Vamos aprender a produzir menos e a desfrutar mais da vida juntos e de forma harmônica com a natureza, nos espaços em que nos encontramos, seja na escola, na cidade, enfim na vida que vivemos hoje. Nós merecemos!

Lourdes Atié
Lourdes Atié é socióloga com pós-graduação em Educação pela FLACSO, na Argentina, diretora da empresa Ideias Futuras e membro da comissão editorial da Revista Pedagógica Pátio – Ensino Fundamental e Ensino Médio. E-mail: lourdesatie@terra.com.br

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