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Este é o segundo de uma série de artigos da nossa colunista Lourdes Atié intitulada Escola e cidade: espaços de aprender a viver.


Para entender o diálogo entre a escola e a cidade, considerando que ambos são lugares para aprender, é preciso mergulharmos no interior. Só podemos olhar para fora das escolas se entendermos a potência e as fraquezas que temos por dentro.

Vou tratar apenas um dos temas emergentes visto como desafio para que a escola siga fazendo sentido para a sociedade. É preciso refletir sobre o que ela tem de essencial, que prove sua relevância social e some com outras organizações sociais, valorizando a educação que acontece na escola e para além da vida escolar.

Para isso, é necessário ter a coragem de olhar por dentro das escolas – antes de derrubar seus muros, mesmo que imaginários, e se deparar com aspectos que precisam ser repensados, que definem seu modo de ser e de entender seu papel social. Vamos lá.

Só podemos olhar para fora das escolas se entendermos a potência e as fraquezas que temos por dentro. Crédito: Créditos: Léo Ramos Chaves/Revista Fapesp.

Só podemos olhar para fora das escolas se entendermos a potência e as fraquezas que temos por dentro. Crédito: Créditos: Léo Ramos Chaves/Revista Fapesp.

A escola de tempo integral

A grande revolução democrática da segunda metade do século 20, após a Segunda Guerra Mundial, garantiu na maior parte dos países industrializados o direito à educação para todas as crianças. O Brasil universalizou o acesso ao ensino fundamental (de 6 a 14 anos) somente no final dos anos de 1990. Mesmo assim, a escola brasileira continua sendo, em pleno século 21, desigual e não inclusiva. Enfim, de qualidade para poucos.

Mas há de se reconhecer: são muitos os esforços para que a educação se torne mais equitativa, inclusiva e democrática, para combater as desigualdades, lutando por justiça social.

O caminho pela frente ainda é longo, e não será resolvido apenas por esforços isolados da escola. Vai exigir o compromisso de toda sociedade. Por isso é muito importante entender o lugar social da escola – nas suas potências e nas suas fragilidades também.

No Brasil, existe uma ampla defesa pela escola em tempo integral, muitas vezes confundindo com educação integral, dois temas que não são sinônimos.

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) faz opção pela educação integral como um caminho para o desenvolvimento global do ser humano, em todas as suas potencialidades. Mesmo assim, existe a defesa de que para educar de forma holística é necessário garantir maior tempo de permanência dos estudantes nos prédios escolares. Para mim, isso é um equívoco.

Leia mais: Quem disse que passar mais tempo na escola é bom?

É claro que em área de risco, para estudantes em situação de vulnerabilidade, a possibilidade de ampliar sua permanência na escola é a única opção segura para que possam se desenvolver e aprender em segurança. Todos estamos de acordo sobre isso. Trata-se de cuidar e proteger as crianças e jovens para que possam seguir aprendendo em paz, preservando seus direitos garantidos constitucionalmente.

Outrossim, o tempo de permanência dos adultos no trabalho (ou a caminho dele) e a redução no número de membros das famílias transforou a escola numa espécie de apoio às mães, pais e responsáveis. As famílias ficaram sem outras opções de cuidado que não seja a escola. Por isso se amplia as horas de permanência no espaço escolar. Não para atender às necessidades educativas dos estudantes, mas para resolver os problemas das famílias.

Leia mais: Lições do coronavírus: “Não acredito que vou dizer isso, mas quero voltar à escola”

O problema é que se mantivermos esse pensamento vamos endossar que apenas a escola pode fazer um papel que deveria ser de toda a sociedade – oferecer espaços seguros para que as crianças e jovens tenham a oportunidade de viver em liberdade seu tempo.

Considero que os mais jovens deveriam permanecer na escola o tempo necessário para aprender aquilo que só na escola pode ensinar, mas deveriam também ter o direito de serem cidadãos. Não apenas estudantes, eles podiam estar em segurança em outros ambientes educativos, inclusive circulando pela cidade.

Não estou reduzindo o valor da escola, que fique claro.

A escola é um espaço insubstituível que oferece aos mais novos, de forma coletiva e democrática, o patrimônio construído pela humanidade. É pelas mãos do professor que os estudantes conhecem um mundo que não viveram, entendem o mundo em que vivem e podem sonhar com o futuro. É a escola também um dos principais espaços de combate às desigualdades sociais.

É justamente por ter tanto valor para a sociedade que a escola não deveria preencher a agenda de seus alunos com tantas atividades, nas longas horas que passam dentro do espaço escolar, para oportunizar a eles entender o mundo para além da escola, não pelos livros, mas ganhando as ruas, pois a escola do século 21 é sem paredes e sem muros.

Pensar o tempo de permanência dos estudantes na escola exige mais do reconhecer que lá é um ambiente seguro e que facilita a vida dos seus familiares, que podem passar longos períodos trabalhando.

Escola não é depósito de gente. Enquanto pensarmos desta forma, vamos continuar oferecendo atividades muitas vezes desprovidas de sentido, aumentando o tempo de permanência em um ambiente que corre o risco de não formar cidadãos, mas apenas estudantes.

Considero fundamental que a escola comece um diálogo profícuo com a vizinhança entorno da escola e aprenda a estar na cidade para trabalhar o sentido de pertença, ajudando a construir e/ou fortalecer uma rede colaborativa de convivência em comunidade.

Não adianta simplesmente fazer estudos do meio, como a única forma de sair do prédio da escola. Nós fazemos parte do meio e a cidade pode ser mais que apenas um lugar de passar, para ser um lugar de ficar.

Leia mais: Em vez de ajudar, dever de casa virou um fardo aos estudantes

Finlândia: uma experiência inspiradora

Enquanto o Brasil aumenta o tempo de permanência na escola, a Finlândia reduz. Tal opção faz parte da profunda reforma educativa que o país europeu viveu nas últimas quatro décadas. Não estou querendo ser leviana de comparar o Brasil com a Finlândia. Sei que são experiências históricas incomparáveis. Mas é importante olhar com mais atenção ao que estão vivendo por lá, no campo da educação formal, a título de inspiração e reflexão.

A Finlândia tem características bem diferentes das nossas, em todos os âmbitos sociais. Por lá, as diferenças de rendimento escolar entre as escolas são muito pequenas. Ser professor é uma profissão de prestígio; ele tem alto grau de autonomia e altos salários; existe alto grau de rigor acadêmico também; os professores ensinam menos tempo e os estudantes passam menos tempo estudando.

O resultado é que a Finlândia tem um alto índice de excelência acadêmica, sendo um dos melhores sistemas educativos do mundo.

Por lá, existe pouca avaliação nas classes escolares. O aluno é o principal responsável pela própria aprendizagem. Os professores trabalham com pequenos grupos de estudantes para solucionar desafios e problemas, dispensando as aulas unicamente expositivas.

Os alunos trabalham com liberdade e autonomia. As aprendizagens são construídas na relação com o grupo e por meio de investigações. Portanto, não é a quantidade de tempo que levam estudando, mas a qualidade do tempo que precisam para aprender na escola, com tempo livre para desfrutarem das cidades, como qualquer cidadão.

Mesmo considerando os múltiplos fatores que nos diferenciam dos finlandeses, não tenho dúvida que o aumento de carga horária na escola não é garantia de maior aprendizagem por parte dos alunos. Por outro lado, o uso do tempo de permanência na escola também é outro aspecto que merece uma reflexão. Quero destacar dois pontos nesse sentido.

Leia mais: As lições de Portugal, Inglaterra e Finlândia para a educação

Por dentro das escolas; "O recreio não é tempo perdido", diz Atié. Crédito: Agência Brasil.

Por dentro das escolas; “O recreio não é tempo perdido”, diz Atié. Crédito: Agência Brasil.

O recreio

Nos anos de 2018 e 2019, cruzei o Brasil para dar palestras falando com educadores de diversas redes de ensino, tanto públicas quanto privadas. Em todos os encontros, eu perguntava quanto tempo durava o recreio nas escolas presentes. Descobri que existem escolas que aboliram o recreio porque “precisam de mais tempo para ensinar”. Poucas escolas chegavam à marca dos trinta minutos, tempo que considero mínimo para o recreio.

A média nacional, do que pude constatar, é de quinze minutos de recreio. Como é possível sair da sala, ir ao banheiro, comer, encontrar amigos, descansar, se divertir e voltar para a sala de aula neste tempo?

O recreio não é tempo perdido! Ao contrário, é um importante espaço de aprender sem a mediação do adulto e com a possibilidade viver uma convivência necessária entre estudantes de idades diferentes. Mas muitas escolas não oportunizam tal experiência. Consideram que este tempo precisa ser controlado e vigiado.

Leia mais: Chegou a hora do recreio! Mas o que a escola faz com este tempo?

A ideia de misturar as idades no recreio também é inconcebível. Acreditam (escola e famílias) que misturar alunos grandes com pequenos, pode favorecer uma tragédia. Como ensinar a conviver na sociedade se os maiores não vivem uma experiência de cuidar dos menores e se os menores não sabem como confiar nos maiores?

Se não circulam pelas cidades em segurança, se passam longos períodos nos prédios das escolas, como entender os espaços públicos como um espaço de convivência e aprendizagem, se nem no espaço fechado lhes é facultado este direito?

As férias

Também constato que, com o passar dos anos, a escola brasileira não fecha mais. Quando as aulas terminam, começam as colônias de férias com atividades variadas, sem que os alunos precisem usar uniforme, mas sem descansar da escola.

Desta forma, de janeiro a janeiro, crianças e jovens seguem sendo apenas estudantes. Perderam a oportunidade de sentir saudades da escola; de viver uma vida fora dela e de descobrir que podem não fazer nada e que podem ter prazer por isso, pois a vida não está apenas pautada na utilidade da tarefa. Significa aprender o que Krenak  afirma, quando define que “a vida não é útil”. Viver não tem um sentido utilitário, é fluição! Como a escola está ensinando isso para as novas gerações?

Leia mais: Cadê o tempo escolar que estava aqui?

Conclusão

A escola brasileira também é acelerada e enciclopédica demais. À medida em que os alunos crescem, avançam na escolaridade, na mesma proporção vão se desencantando com ela. Entram na educação infantil com a curiosidade a mil e saem no ensino médio apenas preocupados com “o que vai cair na prova” ou com o que pontua para a aprovação em alguma instituição de prestígio social.

Estão todos esgotados – professores e estudantes. Tantas matérias trabalhadas, tantas atividades, comemorações, tantas obrigações, avaliações – tudo muito, aos montes. São tempos de excessos. Paradoxalmente, falta tempo para descanar, para não fazer nada, criar, desfrutar das amizades com liberdade, viver, tendo uma vida para além da escola e de preferência na cidade, que também deveria ser para todos.

Não há mais tempo de espera, só a busca de respostas imediatas e isso tem repercussões na nossa forma de viver. A escola ensina, muitas vezes sem se dar conta, que os estudantes precisam ter muito, qualquer que seja isso. É um tempo marcado pelo consumismo exacerbado, com crianças e adultos vivendo de acordo com uma única modalidade – “quero tudo agora mesmo”.

Precisamos outra opção de estar na vida. E a escola tem um papel fundamental na mudança desse paradigma e não pode se isentar disso. É aqui que reside também sua relevância.

Então está na hora da escola começar a pensar que o modelo de funcionamento escolhido precisa passar por uma transformação. Não só pelo desafio de construir uma escola para estes tempos imprevisíveis que a pandemia impôs para todos, que exigiu a busca por novas formas de funcionamento da escola, para além de seu prédio, como também pelos resultados que o Brasil tem alcançado desde o ano 2000, ocupando os últimos lugares nas avaliações internacionais, como o Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), que avalia o desempenho escolar de estudantes de 15 anos de idade e que é coordenado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Os baixos resultados atingidos pelo Brasil indicam que a escola vai mal.

A pandemia do novo coronavírus tem servido para me ensinar que uma escola de sucesso não significa ocupar os primeiros lugares dos rankings nacionais ou estaduais. Não existe mais uma “escola nota 10” se os parâmetros de avaliação são apenas os resultados que os alunos individualmente precisam atingir, valorizando a meritocracia, aspecto que devemos combater enfaticamente que só serve para aumentar as desigualdades.

Os estudantes não são resultados ou números. São pessoas e precisam ser respeitadas.

Por outro lado, do ponto de vista ético, uma escola bem-sucedida que a sociedade democrática necessita é a que valoriza o esforço coletivo, respeita o direito à infância, respeita do direito das juventudes e, acima de tudo, entende que uma escola não pode estar bem, se no mesmo bairro ou cidade em que habita tem escolas depredadas, abandonadas e com crianças e jovens sem acesso a uma educação de qualidade em igualdade de condições.

A educação formal precisa ser um direito verdadeiro para todos os brasileiros, não para poucos.

Leia mais: Lourdes Atié: “Isolamento é oportunidade de tirar a escola de ativismo sem sentido”

Lourdes Atié
Lourdes Atié é socióloga com pós-graduação em Educação pela FLACSO, na Argentina, diretora da empresa Ideias Futuras e membro da comissão editorial da Revista Pedagógica Pátio – Ensino Fundamental e Ensino Médio. E-mail: lourdesatie@terra.com.br

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