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Por que o Brasil triplicou o número de faculdades de Medicina

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Alunos da PUCPR: Brasil tem 305 cursos de Medicina, o triplo do registrado no 20 anos atrás. Crédito: divulgação.

Nos últimos 20 anos, o número de cursos de Medicina mais do que triplicou no Brasil. Em 1997, eram 85 escolas médicas. Hoje são 305. Para efeito de comparação, em nível global só a Índia oferece mais opções na área – são aproximadamente 40o escolas.

O detalhe é que a Índia tem uma população seis vezes maior que a brasileira:1,3 bilhão, ante 209 milhões. Nos Estados Unidos, em que o total de habitantes é de 300 milhões, há 131 faculdades de Medicina.

A explosão da oferta brasileira tem várias explicações. A primeira é óbvia: estamos falando de um negócio bastante rentável.

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Mercado pujante

Para estudar Medicina, o brasileiro precisa desembolsar entre R$ 5 mil e R$ 16 mil por mês. Assim, ao fim do curso, o faturamento das faculdades pode chegar a R$ 1 milhão por aluno. Não à toa, a área de Medicina corresponde a 14% da receita do ensino superior privado – e cresce acima da média do setor, conforme dados da consultoria Atmã Educar.

Uma das explicações para o elevado custo é o alto investimento na área. “A estrutura que uma faculdade de Medicina precisa dispor é muito maior do que a de qualquer outra, uma vez que exige muitas tecnologias nas diversas etapas do curso”, explica Fabio Freire, professor de ciências médicas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

No total, a estimativa é que os cursos privados de Medicina movimentem cerca de R$ 9 bilhões por ano, de acordo com a consultoria Hoper.

O faturamento médio da graduação em Medicina cresceu 78% entre 2012 e 2017, enquanto os demais cursos superiores aumentaram em 30% a receita. Nos últimos cinco anos, o valor da mensalidade na escola médica subiu 29%, ante 8% na média geral.

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Além de ser um curso caro, outro motivo que torna o curso de Medicina um negócio rentável é a intensa procura. Segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), Medicina é a carreira com maior concorrência no Sisu.

“A demanda é acentuada porque, mesmo com todos os problemas que podem vir a ocorrer na profissão, o médico ainda consegue ser valorizado no mercado”, ressalta Freire, da Unifesp.

“A Medicina é uma das poucas profissões em que a gente pode dizer que estamos em pleno emprego”, acrescenta José Lucio Machado, diretor da vertical de saúde do grupo Ânima Educação. “Nela, você pode estar mal-empregado, mas nunca desempregado.”

A Ânima é uma das organizações privadas que estão entre as que expandiram os negócios na área médica.

Em agosto, a instituição anunciou a aquisição do Centro Universitário Ages (UniAges) por R$ 200 milhões. O investimento fortaleceu o cluster de medicina da Ânima, agora presente na Bahia e no Sergipe, além de São Paulo, Minas Gerais, Goiás, Santa Catarina e Paraná.

Para Machado, as faculdades de Medicina do país podem ser mais competitivas ao incorporar novas tecnologias nos currículos, como inteligência artificial. E pensar nos alunos além da graduação.

“Temos que nos basear no modelo dos Estados Unidos de lifelong learning, ou seja, as universidades brasileiras precisam preparar o profissional para que ele sempre se mantenha atualizado no mercado”, ressalta Machado.

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Outra organização que investiu no setor foi o grupo Afya, que em novembro adquiriu o centro universitário UniRedentor, do Rio de Janeiro, por R$ 225 milhões. A medida é um desdobramento da abertura de capital na Nasdaq, onde a empresa captou R$ 1,1 bilhão.

A Afya atua em dois segmentos: faculdades de Medicina e cursos preparatórios na área da saúde.

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Mais cursos, mais médicos?

Inerente à expansão dos cursos de Medicina está o aumento da quantidade de profissionais.

Segundo os dados da Demografia Médica do Brasil, elaborado pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) em parceria com a Universidade de São Paulo (USP), o país tem 466 mil médicos – ou 2,1 por mil habitantes.

O indicador é próximo ao de países mais avançados, como Japão e Coréia do Sul – 2,4 e 2,2 médicos por mil habitantes, respectivamente.

O problema é que 29% dos médicos brasileiros trabalham no estado de São Paulo. Áreas como Acre, Amapá e Roraima concentram menos de 1% do total.

“A aglomeração de médicos em grandes centros é uma consequência de falta de políticas de estado”, reitera José Lucio Machado, da Ânima. “Um médico não vai se formar e ir morar num lugar sem vida econômica. Ele precisa de um plano de carreira.”

Além da concentração em grandes centros, há outra dificuldade: a desigualdade no número de vagas. Algumas especialidades carecem de profissionais porque boa parte deles migra para outras áreas, com atendimento suficiente.

Machado dá um exemplo: “Nós temos um índice de natalidade pequeno, só que a população está envelhecendo. Ao mesmo tempo, temos 40 mil pediatras e não contamos com geriatras em quantidade suficiente”.

Para resolver essa questão, uma das soluções é a criação de vagas conforme a carência de especialidade. É o que defende o professor da Unifesp.

“Em outros países há a abertura de vagas de acordo com a especialidade. Se não existe a necessidade daqueles profissionais, não vai ter vaga. Se um profissional quer entrar em determinada área, vai ter que esperar alguns anos para isso”, explica Fabio Freire.

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Proibição de novos cursos

Em 2018, o ex-presidente Michel Temer e o então ministro da Educação, Mendonça Filho, assinaram a Portaria 328, que proíbe a criação de novos cursos de Medicina e a ampliação de vagas já existentes no Brasil por cinco anos.

A norma, que está em vigor, se estende a instituições públicas federais, estaduais, municipais e privadas.

Leia mais: MEC proíbe criação de novos cursos de medicina por cinco anos

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Alunos da Unifae, em São João da Boa Vista (SP): IES estão proibidas de abrir novos cursos de Medicina. Crédito: divulgação.

De acordo com o Ministério da Educação (MEC), o objetivo é preservar a qualidade do ensino em razão do número de faculdades sem infraestrutura e não qualificadas para formar profissionais.

Entidades médicas como o CFM e a Associação Médica Brasileira (AMB) comemoraram, alegando que a medida freia a formação médica de modo a não saturar o mercado, o que motivou críticas quanto a um suposto corporativismo da categoria. O certo é que a proibição de novos cursos evita, de fato, uma possível desvalorização da profissão, o que pode ter impacto sobre os salários.

“É preciso trabalhar com a abertura de vagas e especializações, agora. O foco precisa ser na pós-graduação, porque a fase de expansão já foi bem cumprida”, diz José Lucio Machado, do grupo Ânima Educação.

A medida fortaleceu ainda mais os cursos disponíveis no mercado. Em contraposição, os críticos alegam que a proibição é prejudicial à modernização do ensino de Medicina, à medida que os novos cursos poderiam oxigenar o setor, contribuindo com a proposição de currículos mais contemporâneos, direcionados à prevenção da saúde e à visão integral do indivíduo.

Por enquanto, as instituições de ensino que quiserem abrir novos cursos ou vagas têm de esperar o fim do embargo, projetado para daqui a quatro anos. Outra opção é fazer fusões e aquisições, como a Ânima.

Exceções podem ser solicitadas ao MEC. Neste ano, por exemplo, a Yduqs (ex-Estácio) obteve a revogação de uma portaria que suspendia o funcionamento dos cursos de Medicina no Ceará e no Pará, e obteve permissão para expandir o número de vagas em Juazeiro, na Bahia.

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1 Comentário

  1. Definitivamente é a morte da medicina. Satura-se o mercado com médicos cada vez menos capacitados, os quais não terão a mínima capacidade de atender adequadamente a população. A população no final sofrerá bastante com atendimentos de médicos mal formados.

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