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Cursos EAD: as vantagens para a área da Saúde

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Ainda há resistência de professores e profissionais da saúde quanto ao uso de recursos online para capacitação. Crédito: Pexels.

Em meio as discussões sobre a oferta de cursos online para a área de Saúde, conversei com Raquel Motta, sócia proprietária da Prisma Consultoria, onde atua no gerenciamento de processos de educação e implementação de tecnologias digitais no ensino presencial e na EAD.

Para iniciar, o que lhe motivou a ingressar na educação a distância? Acreditar que não há restrições, nem limites, para a continuidade da formação principal em outras áreas de conhecimento, principalmente para o indivíduo que decide ser professor. Na área da saúde, esse “leque de possibilidades” é enorme, uma vez que o profissional aprende a lidar com a gestão de diversos recursos e tecnologias em seu dia a dia, favorecendo o interesse pela inovação e novas estratégias de ação.

Como meu interesse sempre esteve voltado em paralelo à educação desde minha formação como enfermeira, migrar para a EAD, além do que já exercia no presencial, foi rápido. Sempre fui interessada em estudar o tempo que as pessoas dispendiam para cada treinamento presencial, bem como a flexibilização e personalização do processo ensino-aprendizagem.

Acredito também que a EAD esteja ajudando a favorecer mudanças de paradigmas educacionais tradicionais que ainda estão enraizados em muitas escolas, bem como nos faz refletir o quanto as modalidades de ensino, tanto presencial quanto a distância, devem ser complementares e não concorrente uma da outra, para que a formação do indivíduo seja a mais completa possível.

Por acreditar nisso, estou muito engajada em promover a qualidade na educação interativa digital. E para isso, o planejamento deve primar pelo ensino adaptativo, considerando as reais necessidades dos alunos, de forma híbrida e vivencial, privilegiando o cognitivo, mapeando e dando feedback sobre o desempenho e competências de maneira constante.

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Qual é a percepção dos professores e profissionais de saúde em relação aos cursos online da área? Ao longo dos anos, através de alguns estudos realizados e com a vivência na área, percebi que ainda há resistência de professores e profissionais de saúde quanto ao uso de recursos online para capacitação. A modalidade presencial ainda é a preferida para a maioria das intervenções educativas. E isso está intimamente relacionado às questões assistenciais e processos clínicos que a área exige, onde o profissional não consegue visualizar ou agregar o recurso tecnológico virtual na aprendizagem, sem haver o fator face a face.

Acredito que falta envolvimento da equipe multiprofissional nos processos de implantação de cursos EAD, o que gera medo do desconhecido, falta de reflexões e debates oportunos sobre os assuntos que se pretende abordar e entendimentos sobre as propostas e objetivos que se quer alcançar

Mas esse cenário vem mudando gradativamente. Já não é incomum vermos grandes hospitais e instituições de ensino investindo em recursos tecnológicos afim de agregar valor ao que já fazem no presencial. Recursos como simuladores realísticos virtuais ou jogos interativos que têm resultados iguais ou superiores ao que é realizado presencialmente em manequins nos laboratórios de práticas.

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Quais os riscos de programas a distância mal formulados que possam comprometer a oferta e a aprendizagem? Como eu citei, a falta de envolvimento da equipe multidisciplinar na construção de modelos de ensino a distância é o primeiro passo para o insucesso da mesma. Desde a alta direção, até os alunos, devem ser envolvidos no processo de planejamento, produção, implementação e avaliação destes programas, ajudando a decidir quais materiais são adequados para EAD, quais devem ser híbridos e quais devem ser impreterivelmente presenciais.

Assim, o risco de fracassar no modelo adotado fica menor, uma vez que as pessoas tiveram suas opiniões levadas em consideração. Outro ponto que sempre saliento é a necessidade de que é preciso ter qualidade no conteúdo construído para EAD e no suporte dado aos cursos EAD. O aluno não deve sentir que está sozinho, sem apoio ou sem rumo em um curso a distância. Para isso, é necessário planejamento, organização e comprometimentos das equipes envolvidas. Se os cursos em EAD não forem bem elaborados e concebidos, a evasão, as reclamações e a baixa adesão em programas posteriores, continuarão acontecendo.

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Pode nos contar um pouco da sua experiência com alunos que estudam a distância? Em algumas turmas, sempre temos os alunos que rejeitam o fato de terem que estudar a distância, por considerar que a aula presencial e a proximidade pessoal com o professor são mais assertivas quanto ao aprendizado. Com o passar do tempo, o amadurecimento de muitos alunos é visível, no momento em que eles passam a assumir maior responsabilidade de serem os protagonistas do seu próprio aprendizado.

Percebem que, mesmo à distância, podem contar com o professor ou o tutor em suas dúvidas e que não estão sozinhos nesta jornada. Também percebem que seus horizontes aumentam muito com o recurso digital, não limitando-se apenas a participação em aulas meramente expositivas e informativas de forma passiva, mas buscando de forma ativa, flexível, personalizada e direcionada, ao seu tempo, o aprendizado e competências necessárias a sua atuação.

Como você vê o discurso contrário ao EAD que os conselhos da área da saúde tem manifestado? Acho que o debate não teve apenas pontos contrários a EAD. Na verdade, o ponto principal de tudo é a qualidade do que queremos proporcionar na formação de futuros profissionais de saúde. Por isso o discurso parece ser oportuno e necessário. Precisamos criar a cultura do debate para implementação dos processos educativos, e não apenas se “lançar” neles à revelia, visando apenas a captação de recursos financeiros em um ensino massivo. E acredito que o diálogo não surge como um impedimento, mas como uma forma de preocupação com o que podemos fazer de melhor na educação em saúde.

Neste sentido, acho que ambos os lados, escolas, conselhos e MEC, já estão bem mais maduros no entendimento sobre o que o EAD pode favorecer quando bem planejado e implantado nas IES. Certamente, ainda há alguns itens a serem afinados, principalmente, quando falamos de eficácia e eficiência do processo de aquisição do conhecimento por meio digital, e isso não envolve somente a área da saúde.

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Entendo que o que não é medido não se pode ter domínio sobre os resultados, e isso não vejo a maioria das IES realizarem de forma sistemática e adequada. Sou a favor de uma avaliação continuada de desempenho dos alunos, para podermos demonstrar como a modalidade atua na aceleração da aprendizagem, e não apenas vista como substituta do modelo presencial. Certamente, chegaremos a um consenso sobre isso entre os órgãos reguladores das profissões e da educação no nosso país, não tenho dúvidas!

Na sua percepção, quais as vantagens para a área de saúde com a oferta de cursos na modalidade EAD? Hoje os recursos digitais são inúmeros na área da saúde. A telessaúde, telemedicina, teleorientação, entre outros, são modelos que utilizam recursos tecnológicos para o acompanhamento, promoção e prevenção de agravos a saúde. Estes são cada vez mais explorados e estudados pelos profissionais, como forma de agregar valor ao que já realizam de forma presencial na assistência aos pacientes.

A busca pela ampliação do conhecimento na modalidade a distância, a ampliação do acesso à saúde em locais remotos e de difícil acesso e a otimização de tempo e custo nos deslocamentos são um dos fatores os quais o uso da tecnologia tem tido um papel muito interessante.

Creio que em pouquíssimo tempo, em detrimento da rápida evolução tecnológica na assistência e no ensino em saúde, os profissionais entenderão que haverá a necessidade de capacitação quase que em tempo real, ao perceber que os componentes cognitivos e práticos, ora conhecidos e aprendidos, estão se tornando extremamente mutantes e perecíveis. Com isso, será necessário uma formação constante, confiável e em curto tempo, o que certamente é proporcionado pela educação a distância.

Como você o futuro da EAD na área da saúde? Um caminho sem volta. A educação mediada por tecnologias já é o futuro, mesmo para os que hoje resistem. Não tenho dúvidas que as IES que persistirem em um caminho da resistência estarão fadadas a saírem do mercado educacional muito em breve. A concorrência e a potencialidade de algumas instituições que levam a sério o uso dos recursos digitais no ensino em saúde já estão despontando como modelos de escolas do futuro, ao demonstrarem o quanto esses recursos são capazes de estabelecer relações efetivas com os modelos presenciais e híbridos, de forma a agregar ao ensino um formato propulsor da aprendizagem cognitiva.

É preciso sair da “zona de conforto” em que o ensino tradicional nos colocou e tentar fazer diferente. E o “novo aluno” pede isso! Nesse cenário, onde está a “nova escola”? Precisamos testar, capacitar, entender, compartilhar, vivenciar e avaliar, porque, só assim, experimentando esse caminho, veremos que a EAD será uma modalidade que potencializa a aprendizagem, a troca de experiências e a capacidade metacognitiva dos indivíduos, seja onde for, a qualquer momento e em qualquer lugar.

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Fernanda Furuno
Fernanda Furuno é cofundadora do Guia EAD Brasil, consultora da área de Sucesso do Cliente no Grupo A e membro do Conselho de Inovação da Abed. Escreve mensalmente no Desafios da Educação.

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