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Prática docente: 30 depoimentos sobre como a escola foi recebida em casa

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O Brasil é diverso e grande demais. As características variam tanto de uma região para outra, que é simplesmente impossível instituir uma única política de ensino e aprendizagem para as escolas que precisaram fechar devido à pandemia do novo coronavírus.

Coronavírus tira professores da escola e os coloca para ensinar em casa. Crédito: Shutterstock.

Coronavírus tira professores da escola e os coloca para ensinar em casa. Crédito: Shutterstock.

O que aconteceu: ainda em março, a maioria das instituições privadas levou a escola para dentro de casa. O ensino remoto virou o novo normal. Nas redes públicas, o primeiro momento foi de antecipação das férias. Agora, as escolas também buscam soluções eficientes para o ensino remoto.

Precisou uma pandemia para aprendermos que a escola não é só um prédio. É possível estudar e trabalhar a distância. Mas o desafio é imenso. Excesso de atividades deixa estudantes e professores esgotados, por exemplo. Diretores descobrem que muitos alunos não comem se a escola não abre. E que eles também não têm internet nem computador para estudar a distância.

É como se a história não tivesse ensinado nada para a educação.

O foco não pode estar no ensino. Deve estar na aprendizagem. Nossos alunos continuam sem voz e invisíveis nos cenários escolhidos. São os adultos que decidem o que e como deve ser ensinado. Estamos perdendo uma grande oportunidade de inventar uma outra escola – aquela do vínculo, do respeito, que valoriza o processo de aprendizagem e que se centra no esforço em facilitar estratégias de reflexão e que não tem o foco nos resultados.

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Ainda não sabemos ao certo quando as escolas voltarão a funcionar nos seus prédios. Mas espero que, até lá, tenhamos aprendido que pressão e estresse são contraproducentes para qualquer processo de aprendizagem. Por outro lado, não podemos (e não temos o direito de) abandonar nossos alunos com discursos de que a educação a distância é o mal maior da educação.

Portanto nenhum estudante deve ser impedido de ter contato com a escola, qualquer que seja a forma escolhida. Nenhum estudante pode ficar para atrás. A escola é insubstituível.

É importante destacar também que o mundo exige mais solidariedade e empatia. Portanto, é urgente uma maior articulação entre as escolas privadas e as escolas públicas. Temos que diminuir a desigualdade educativa e, assim, combater as injustiças sociais. É preciso criar uma rede colaborativa entre as escolas. Fora da política partidária e sem o viés da caridade. Com o compromisso cidadão. Com certeza, os dois lados aprenderão juntos com a experiência.

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O que dizem os que ensinam

Em vez de fazer afirmações de forma empírica, conversei com diferentes educadores sobre a experiência de lecionar em meio à pandemia. Falamos sobre a experiência dos coordenadores, professores, alunos e suas famílias.

Em todos os 29 depoimentos é possível constatar um alto grau de envolvimento. Os gestores estão na luta, literalmente. Trabalhando muito e com muita pressão. Talvez se as escolas desacelerassem descobririam com todos juntos o que de fato é relevante neste momento.

Renata Gaia, Santos (SP)

Renata Gaia é diretora pedagógica de uma rede particular e já tinha recebido treinamento e ciência das ferramentas que precisaria para uma readequação do currículo à educação remota. Ela se voltou à projetar um sistema de avaliação cuidadoso para cada segmento da escola.

“Talvez tenhamos uma geração mais disposta a valorizar os contatos reais e os espaços de integração social, e acreditamos que a escola não pode perder esse momento”, conta Gaia.

Tatiane Ribeiro, São Paulo (SP)

A professora Tatiane Ribeiro diz que os professores da rede pública trabalham “em função de uma emergência”. “Fomos colocados em uma plataforma online que muitos não conheciam, sem mencionar a dificuldade de muitos colegas em lidar com a tecnologia.”

Ela relata que existe alunos super conectados que já esboçam o desejo de se tornarem “youtubers” e outros que buscam o auxílio da prefeitura para garantir a merenda em casa. “Dessa forma estamos procurando encontrar o melhor caminho para que o processo de ensino e aprendizagem prossiga em meio a pandemia”, afirma.

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Fora das escola professores ensinam de casa. Crédito: Pexels.

Fora das escola professores ensinam de casa. Crédito: Pexels.

Karla Bohac, Rio de Janeiro (RJ)

No espaço de educação infantil de uma escola particular do Rio de Janeiro, Karla Bohac pôs em prática estratégias de aprendizagem e relações através do afeto, do vínculo e do respeito ao ritmo e ao tempo de cada criança.

“Não buscamos nos reinventar. Mas tivemos que nos adaptar. A situação emergencial nos faz abraçar a tecnologia como uma ferramenta pedagógica, na qual nos aproxima das crianças e de seus familiares para uma troca fundamental nesse momento”, conta a a coordenadora pedagógica.

Maria Teresa Atié, Arraial do Cabo (RJ)

“Tudo foi uma grande surpresa. De repente a escola fechada e tínhamos que transformar a casa em escola, sem nenhum apoio. Começamos a correr para descobrir como ensinar a distância, sem nunca ter aprendido. Foi tropeço em cima de tropeço”, relata Maria Teresa Atié, professora de uma escola privada em Arraial do Cabo (RJ).

Segundo ela, os professores começaram a trocar bem mais informações. Os gestores, claro, estão com medo de uma crise financeira, já que muitos pais perderam o emprego e estão sem dinheiro para bancar as mensalidades. Os alunos não têm disciplina para acompanhar as aulas online e atrasam nas lições a serem enviadas. Agora, a dúvida é como será feita as avaliações.

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Márcia Sebastião, São Paulo (SP)

Realizar as atividades da escola em casa é um grande desafio na educação infantil. Márcia Sebastião está sentindo na pele. Professora da rede pública da capital paulista, ela e seus colegas estão dialogando e tentando construir caminhos com os poucos recursos que possuem.

“É uma situação tensa, pois o meu trabalho diário envolve rodas de conversa, momentos de contar histórias e cantar músicas, atividades de artes, ciências, jogos e brincadeiras presencialmente”.

Márcia Sebastião

Ela ressalta que as crianças não têm acesso a uma boa qualidade de vida e estão distantes da escola. O que dirá ao acesso à internet e as várias mídias. A professora afirma que “tudo é muito precário”.

A pandemia trouxe o que estava debaixo do tapete. A crise escancarou a realidade das famílias, das nossas crianças e das nossas escolas públicas.

Roberta Chreem, Rio de Janeiro (RJ)

Crianças são muito capazes de se adaptar a novas situações. Durante uma pandemia, não seria diferente. “Nosso compromisso enquanto espaço de educação infantil é se fazer presente como lugar do encontro, da troca, da escuta e da conexão. Somos uma comunidade”, diz a coordenadora pedagógica.

Chreem acredita que a tecnologia nos aproxima por meio das telas, promovendo afeto, vínculos e abraços virtuais. “São tempos difíceis, mas precisamos passar uma mensagem de tranquilidade e contribuir para a saúde emocional de todos”, comenta Chreem. Para ela o momento de isolamento pode ser uma grande oportunidade de ganhar intimidade com o lar, por meio de brincadeiras e momentos agradáveis em família.

“Não estamos em busca de boas performances, mas sim de fazer com que essas marcas, deixadas por essa experiência, encontrem lugar no futuro”, enfatiza Roberta Chreem.

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Ivani Ribeiro, Jundiaí (SP)

A professora da rede pública decidiu criar um grupo da turma no WhatsApp. O grupo não tem a função de transformar a casa em escola, mas manter o vínculo com as crianças e suas famílias. “O desejo é que se sintam acolhidos”, comenta Ribeiro.

Semanalmente ela sugere propostas com pequenos desafios para serem realizados juntamente com a família. “É a forma que encontrei para manter a saúde mental e sobretudo ascender a esperança de que tudo vai ficar bem.”

André Araujo, Fortaleza (CE)

Professor tanto da rede pública quanto da privada, Araújo relata que o período de quarentena gerou dois problemas. O primeiro diz respeito ao emocional e a ansiedade que tomam conta da mente. Um segundo problema é a sistematização do trabalho remoto.

“A qualquer momento somos exigidos a dar conta de tarefas, produção de materiais, envio de aulas e correção” desabafa. Apesar da quarentena se traduzir em um momento complexo para todos, Araújo acredita que servirá de oportunidade para repensar muitas práticas no mundo educacional.

A escola está em casa; excesso de tarefas também é um problema. Crédito: Pexels.

A escola está em casa; excesso de tarefas também é um problema. Crédito: Pexels.

Margarida Rosa, Fortaleza (CE)

A assessora pedagógica considera que a pandemia gerou muitos desafios para os professores. Desafios estes que não se limitam apenas a novos formatos de aulas em ciberespaço, mas saber lidar emocionalmente com tantas incertezas.

Além disso, os professores devem pensar qual é a forma mais viável e possível de aprender neste formato emergencial, com propostas de atividades que, de fato, sejam capazes de mobilizar os estudantes para o desejo de aprender, na perspectiva da construção de sua autonomia, mesmo em tempos adversos.

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Claudia Bahia, Vitória (ES)

Os professores vivem um momento único de aprendizado. Nesse modelo de ensino remoto emergencial, todos estão em constante aprendizagem: a escola, os pais, os alunos, os professores. Juntos, eles ressignificam suas respectivas funções.

“Talvez esse não seja um ano de nossos educandos se apropriarem de todos os componentes curriculares, mas é fundamental garantirmos a eles um grande aprendizado, no qual o exercício está na constante capacidade de enfrentar o novo, desenvolvendo a autonomia, a empatia, o pensamento crítico e a criatividade”, afirma a supervisora educacional.

Barbara de Lima, Vitória (ES)

“Nós, professores, num curto espaço de tempo fomos suscitados a guardarmos os nossos antigos saberes na gaveta e abrirmos nossas janelas virtuais em prol de uma causa maior, que não pode e não deve ser interrompida: o aprendizado dos nossos alunos”, conta a professora Barbara de Lima.

Ela acredita que é a educação o agente maior de transformação das pessoas. E que somente juntos – mesmo separados geograficamente – é possível enfrentar essa triste fase e retornar para o maior e melhor lugar de fala: a escola.

Daiane Ratão, São Paulo (SP)

Mãe de uma menina de 6 anos, que estuda em uma escola Waldorf, Daiane Ratão foi avisada em março que os professores entrariam em férias e que a escola reorganizaria o calendário escolar. Para os pais que escolhem este modelo de escola, esta decisão parece coerente.

O que não faz sentido para a mãe de Sofia, mesmo em tempos de crise, é substituir a experiência e as relações vivenciadas em sala de aula por algum tipo de experiência pedagógica virtual. “O lar de uma criança de 6 anos, pode simbolizar o mundo inteiro, cheio de possibilidades para o seu desenvolvimento, ” afirma Ratão.

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Maria Angélica Tozarini, São Paulo (SP)

Professora do ensino fundamental 2, as atividades de Maria Angélica Tozarini passaram a ser totalmente on-line, em virtude do novo coronavírus. Plataformas digitais foram disponibilizadas aos professores e aos alunos praticamente de uma noite para a outra. Trocas de conhecimento virtual, sem o contato, sem o afeto. Apenas o cumprimento protocolar das tarefas fabris.

“Não está sendo fácil, imagino que para todos os envolvidos: escolas, pais, estudantes” comenta Tozarini. Ela também comenta a quantidade de tarefa das aulas online. “Para o professor ficaram o excesso de atividades burocráticas e o vazio pedagógico, tendo de sorrir para a tela do computador e amargar noites mal dormidas”. Uma exposição pessoal que ainda não sabe das possíveis consequências disso.

Valdimir Araújo, São Paulo (SP)

A escola tem sido um laboratório permanente onde os professores estão sempre experimentando. “O momento atual é ainda mais delicado, porque saímos do espaço sólido a que estávamos acostumados, para experimentações dentro do ciberespaço, com o compromisso de mantermos os alunos no pique em que estavam, com o fim de garantir o funcionamento da escola e o pagamento das mensalidades” conta Valdimir Araújo.

O professor reclama da quantidade de tarefas e diz que “estamos negando aos adultos de amanhã um tempo que lhes foi concedido para perceber, sonhar, elaborar e projetar o mundo que será muito mais deles do que nosso”.

Heraldo Firmino, São Paulo (SP)

Isolamento social, crianças longe da escola, dos avós e familiares. Pais e mães são sua principal companhia, um choque para ambas as partes. As crianças querem brincar, quem cuida está angustiado, apreensivo e tem que trabalhar.

Para Heraldo Firmino, pai do Arthur,7, e da Lia, 5, falta tempo e condições emocionais para lidar com tudo isso, as crianças reagem e querem atenção e gritam, literalmente. “O uso da tecnologia pode mascarar por um tempo esse inevitável encontro familiar, mas a verdade sobre esse sistema social falido de antes da pandemia, se apresenta com cores muito mais fortes o discurso familiar de “amor incondicional” para com nossas crianças”, afirma Firmino.

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Fernanda dos Santos, São Paulo (SP)

Fernanda dos Santos diz que a realidade de todos os professores mudou desde o início da quarentena. “De cursos pensados presencialmente, com todo o contato humano pelo qual prezamos muito, tivemos que adaptar tudo de modo bastante rápido para uma plataforma e um formato os quais sistematicamente desprezávamos: um ensino EAD”, afirma Santos.

Tudo isso sem muita preparação, nem tempo. Videoaula, videoconferência, atividades, estudos, usar a agenda Google, ajudar os colegas com mais dificuldade e pensar em como ajudar na rotina de estudos dos alunos. Além de abrir sua intimidade e mudar a rotina de todos que vivem em sua casa. Os professores ficam na frente da tela do computador das 07:00 até as 20:00 horas.

São muitos os malabarismos, que são ainda mais difíceis se o professor estiver na rede pública. Mas na rede particular também existem desafios. “Numa educação tomada essencialmente como uma mercadoria e o professor praticamente como a mercadoria negociada, este ouve que isso tudo não é mais que seu trabalho, afinal, mercadoria tem direito ao espaço privado? ”, questiona Santos.

Selma Vilas Boas, Jundiaí (SP)

Selma Vilas Boas está se dedicando aos estudos relacionados à sua função de coordenadora pedagógica. Além disso, ela elaborou um roteiro de estudo para os professores da escola onde atua. Apesar dos incentivos, Vilas Boas diz ter dificuldade em manter a atenção por conta de inúmeras preocupações com a pandemia.

“O contato humano de nossas relações durante as aulas presenciais faz muita falta. Ainda bem que é somente uma fase, vai passar”, diz Vilas Boas.

Flávia Barbosa, Jundiaí (SP)

Flavia Barbosa está aproveitando esse novo cenário de isolamento para se atualizar. “Estabeleci uma meta diária de estudo e tenho refletido sobre a minha rotina de trabalho, repensado minha prática de sala de aula, acompanhado as novidades”, conta Barbosa.

A professora da educação infantil diz que é preciso se ajustar às novas tendências pedagógicas. “Creio que tem tempos de pandemia, o desafio é sair do comodismo, que a correria do dia a dia nos coloca”, afirma a docente.

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Magali Ribeiro, Jundiaí (SP)

A professora Magali Ribeiro está usando o tempo da pandemia para se preparar profissionalmente, mas sem tirar os alunos da cabeça. “Hoje estou distante das crianças e estudar é uma maneira de pensar em cada rostinho. Parece que vejo minhas crianças brincando quando leio os textos e assisto aos vídeos dos pequenos” relata Ribeiro.

Ela diz ainda que em breve irá presentear as crianças com as novas propostas de brincadeira e interação que está aprendendo.

Aluno estuda em casa por causa do coronavírus

A escola está em casa e os professores precisam se adaptar a mudança. Crédito: Shurtterstock.

Valéria Trajano, Jundiaí (SP)

Nesses dias de pandemia Valéria Trajano diz que muitas vezes fica ansiosa por não saber o que irá acontecer, uma vez que já feito um planejamento anual. “Isto traz desconforto e logo penso em minhas crianças, pois elas não têm o conforto e a estrutura familiar que precisaria para agora”, diz Trajano.

Rosane Serra, Fortaleza (CE)

Rosane Serra diz se inspirar nos conceitos de Walter Longo em seu livro “O Fim da Idade Média e o Início da Idade Mídia”, que diz: Cada vez mais conectados, todos somos hoje agentes de mídia com ampla capacidade de gerar e compartilhar informações, moldar opiniões e influenciar a sociedade”.

A coordenador de tecnologia educacional afirma que “reinventar-se é imperativo na era pós-digital e em época de pandemia, a tecnologia nos torna ainda mais humanos”. Para ela o afastamento social impôs desafios à humanidade, conectar-se com compaixão e com a nossa humanidade, está na lista dos cuidados essenciais contra a covid-19.

Eloisa Lages, São Paulo (SP)

A professora Eloisa Lages diz estar vivendo uma oportunidade única de fortalecer os vínculos com os alunos e com suas famílias, em suas aulas online. “Tenho buscado oportunizar o protagonismo do aluno, porque sobre o uso da tecnologia aprendo mais com eles, do que eles comigo”, conta Lages.

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Débora Godoi, Jundiaí (SP)

Débora Godoi é professora da educação infantil e diz estar pensando muito sobre o brincar, sobre sua importância na vida das crianças, sobre como proporcionar novas experiências, principalmente, vendo diariamente os filhos brincarem num espaço tão privilegiado pela companhia da natureza.

Godoi conta que quando pensa na sua profissão se questiona: “O que eu quero para minha prática quando tudo isso passar? O que eu posso fazer de melhor? Longe das minhas crianças, volto a pensar em tudo o que já vivemos e o tanto que ainda poderemos vivenciar e aprender juntos”.

Thiago Jacob, São Paulo (SP)

Professor da rede pública de ensino, Thiago Jacob diz que é um desafio pensar em formas de escolarizar uma criança a distância sem saber da realidade dela em casa, elaborar ações que serão eficazes para eles e realizar novas formas de avaliação e interação. Essa forma digital de aprendizagem é necessária e precisava ser incluída a muito tempo, mas não substitui a presença dos professores no dia a dia do aluno.

“Antes de qualquer mudança nos meus processos didáticos creio que preciso pensar em cada um deles e quais serão as alternativas mais certeiras para garantir o aprendizado sem perder o lado humano/acolhedor/afetivo desse processo”, conta Jacob.

Escola em casa; Professores gravam aulas. Crédito: divulgação.

Escola em casa; Professores gravam aulas. Crédito: divulgação.

Mariana Avelino, Jundiaí (SP)

A escola onde Marina Avelino é diretora não tem tecnologia e cadastro de alunos que torne possível contato institucional com todos.  Muito menos envio de propostas de atividade, de orientações às famílias ou manutenção de vínculos.

Desta forma, seu trabalho se resume a atendimento de demandas administrativas, atendimento às famílias que ligam na escola, articulação entre a coordenadora e os profissionais para atividades de formação e estudo pessoal.

Silvia Freitas, São Paulo (SP)

Assim como grande parte dos professores, Silvia Freitas aprendeu muito rápido sobre tecnologia, programas, plataformas, editoração, edição, conexões, reuniões e aulas remotas. “Aprendi a contar história para o vazio, repensar conteúdos neste contexto de distância”, diz Freitas.

A professora não está de férias, muito pelo contrário, está trabalhando mais que o normal. “Me sinto exausta, tensa, preocupadíssima”, desabafa Freitas. O que parece salva a professora dessa loucura é a literatura: “Quando no futuro alguém me perguntar como foi passar por isso, me apropriarei de Chicó ao afirmar que ‘Não sei, só sei que foi assim’”.

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Janaina Ponte, Guarulhos (SP)

Cuidar dos sentimentos das crianças foi foco da preocupação da mantenedora e coordenadora pedagógica, Janaina Ponte. “Quando utilizamos a contação de história como recurso para ajudá-las a ajustar e nomear seus sentimentos diante da situação atual”, afirma Ponte.

As histórias e contos oferecem as crianças possibilidades para vivenciarem situações com os personagens e conflitos apresentados em seu enredo.

Raul Figueiredo, São Paulo (SP)

Professor nos cursos de arte, expressão corporal e teatro, Raul Figueiredo se sente um “disléxico digital”. “Migrar um conteúdo corporal, presencial, relacional, que promove a integração e a vivência como parte do processo de aprendizagem, transferindo o tempo e o espaço da sala de aula para uma tela de computador ou celular é limitador”, afirma Figueiredo.

Enxaquecas, dores corporais e crises de ansiedade começam a fazer parte deste novo cotidiano “forçado”. O professor faz uma analogia e diz que não dá para trocar o pneu com o carro em movimento, mas é isso que muitas escolas particulares estão exigindo dos professores.

Mas o mundo pede calma, reflexão e recolhimento. “Precisamos cuidar de nós mesmos e dos nossos familiares”, aconselha o professor. Apesar da busca por soluções visando a sobrevivência o desejo dele é “desacelerem o mundo que eu quero descer”.

Vânia Girão, Fortaleza (CE)

Na casa de Vânia Girão são duas crianças tendo aulas online, Stephane de 17 anos e Marisa de 8 anos. As meninas estão diariamente recebendo atividades. “Vejo que os professores na ansiedade de ocupar o tempo delas, estão passando mais tarefas do que quando elas tinham aulas presenciais”, afirma Girão.

A mãe acha positivo: “Os alunos ainda não se deram conta da ausência física e das interações na escola, preocupadas nos afazeres escolares”. Stephane e Marisa sempre tiveram autonomia nos estudos e nas obrigações escolares. Quando elas ficam estressadas a mãe entra para acalmar os ânimos.

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Lourdes Atié
Lourdes Atié é socióloga com pós-graduação em Educação pela FLACSO, na Argentina, diretora da empresa Ideias Futuras e membro da comissão editorial da Revista Pedagógica Pátio – Ensino Fundamental e Ensino Médio. E-mail: lourdesatie@terra.com.br

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