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Emilly Fidelix: “O formato das aulas mudou. Mas a escola segue conteudista”

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Foi no corredor de uma escola estadual, em uma comunidade carente de Capivari de Baixo, interior de Santa Catarina, que a professora Emilly Fidelix ouviu a seguinte frase: “Se liga, profe”! Era a advertência de um aluno – depois que ela não entendeu o significado de uma gíria utilizada por ele.

O ano era 2013 e, àquela altura, Fidelix já pensava em montar um projeto para compartilhar experiências sobre a atuação docente em sala de aula. Suas principais reflexões diziam respeito justamente a dificuldade em adotar uma linguagem mais próxima ao mundo dos alunos. Cinco anos depois, nada mais justo do que batizar o projeto com a fatídica advertência.

Em outubro de 2018, o Se Liga, Prof nasceu como página no Instagram (@seligaprof) oferecendo conteúdo de qualidade, com leveza e bom humor. Em menos de dois anos, a página está perto de juntar 40 mil seguidores – o dobro da população de Capivari de Baixo, cidade natal de Emilly Fidelix.

Emilly Fidelix. Créditos: Arquivo pessoal.

Emilly Fidelix. Créditos: Arquivo pessoal.

O Se Liga, Prof transformou a professora de 28 anos em uma digital influencer. Além dos posts, ela promove cursos online, palestras e cursos de formação para professores. Ela é doutoranda em História da Cultura pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e especialista em Tecnologias e Comunicação. Também é líder do Grupo de Educadores Google em Florianópolis (SC).

Nesta entrevista ao Desafios da Educação, Emilly Fidelix critica a falta de uma formação continuada de qualidade aos docentes, dá dicas sobre o uso de tecnologia na aprendizagem, reflete sobre os efeitos da pandemia na educação e alerta: é preciso olhar com mais cuidado para a saúde emocional dos professores.

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Você hoje é uma digital influencer na educação. Como nasceu o “Se Liga, Prof!”? Comecei como professora ainda muito jovem, no terceiro ano do ensino médio, durante o curso técnico de magistério. No início da carreira, eu sentia dificuldades para engajar os alunos, fazendo com que eles sentissem que aquele conteúdo era significativo e que estudar História era importante para suas carreiras e vidas pessoais.

Percebi que, em tempos de redes sociais, minha sala de aula estava muito distante da vida dos alunos e do que eles se interessavam. Fiquei pensando em como eu poderia tornar o ensino mais significativo e próximo do cotidiano deles. Passei, então, a estudar sobre novas metodologias e estratégias de ensino.

Durante o meu percurso, fui percebendo como a linguagem é importante. O professor também é um comunicador. Não estou dizendo que temos que falar exatamente como os alunos, mas, sim, adaptar nossa linguagem para falar de uma maneira mais próxima a realidade deles, utilizando isso como uma estratégia de engajamento.

Emilly Fidelix.

Emilly Fidelix.

Captei necessidades que eu sentia e ouvia dos meus colegas. E o “Se Liga, Prof” surgiu com a ideia de trabalhar inovação na educação a partir do ponto de vista de quem é professor e vivenciou a profissão desde a educação infantil até o ensino superior. Compartilhar um pouco dessas experiências com os professores é um dos meus principais objetivos atualmente.

A comunicação e o uso de novas tecnologias são lacunas na formação de professores? É uma lacuna desde o professor da educação infantil até a educação superior. Os cursos, seja de pedagogia ou licenciatura, deveriam buscar um casamento equilibrado entre teoria e prática. A faculdade, hoje, prepara para lidar com um tipo de situação em que você tem todas as teorias e respostas. Mas quando você vai para o estágio, lá no fim do curso, na primeira vez que você pisa em sala de aula é um choque.

Quando você chega em sala de aula, você não tem todas as respostas. Os problemas que você encontra lá não estão no seu checklist. Eles surgem de formas variadas, já que em sala de aula um professor lida com diversos universos: cada estudante, independentemente da idade, é único e traz consigo uma complexidade e a bagagem de tudo o que experimentou.

Nesse sentido, a teoria te proporciona o embasamento necessário, mas o saber lidar com tudo isso é uma experiência que só a vivência prática vai trazer.

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É óbvio que os cursos de graduação não vão nos preparar para todos os problemas das nossas carreiras, e nem têm condições para isso, isso vai sendo construído com as nossas experiências. Então, acredito que o mais perceptível é uma falta de formação continuada e atualizada para o professor depois que ele se forma, para que continue refletindo e agregando novas estratégias e aprendizados à sua prática, promovendo, portanto, esse equilíbrio tão necessário entre teoria e prática.

Você escuta isso de muitos professores? Tenho ouvido muitos professores da rede pública reclamando das formações que recebem. Normalmente, é um palestrante que é amigo do vereador, do secretário de educação, chamado para dar uma formação de cinco horas, falando sobre teoria sem parar. O professor sai daquela formação de mãos vazias.

Ele retorna para a sala de aula para a mesma prática, sem trazer algo novo, algo significativo. Eu mesmo participei de muitas formações quando atuava como professora em que professores levavam linha de crochê para ficar tricotando durante a formação. Isso mostra a passividade dessas formações. Você está ali simplesmente para ouvir. E é justamente contra isso que eu venho lutando.

É óbvio que a gente ainda precisa das aulas expositivas, mas, para além delas, há um universo de possibilidades. Os professores precisam conhecer quais são essas habilidades, testá-las e ver o que funciona.

Essa é uma lacuna na formação do professor que está cada vez mais latente. É quase a síndrome da Gabriela: eu fui formado assim, eu fui aluno assim, eu fiz faculdade assim, especialização assim, vou para sala de aula e vou fazer assim até me aposentar. Nosso público é diferente daquele de cinco anos atrás. Mas nossos métodos continuam estagnados.

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Você está dizendo que faltam políticas públicas de formação continuada para os professores – alinhadas a um novo jeito de ensinar? Sim. Precisamos de formação continuada de qualidade e com acompanhamento. Muitas escolas privadas investem pesado nisso. Na escola pública, fazem de forma individual.

Sou muito procurada por professores atrás dos meus cursos online e de mentoria. Mas eles fazem isso por conta própria, motivados para se tornarem professores melhores, para enfrentar os problemas de sala de aula, ou porque estão em início de carreira e ainda tem energia para tentar algo novo.

Quando pensamos no tipo de formação que a educação pública tem hoje, vemos que o problema não é necessariamente a falta de investimento em termos financeiros. Talvez paguem caro para algumas formações. Mas a qualidade e o impacto que vão gerar estão realmente abaixo do esperado.

Bom humor é marca do "Se liga Profe". Créditos: Reprodução.

Bom humor é marca do “Se liga Profe”. Crédito: Reprodução.

Os professores que te procuram demandam as mesmas de quando você começou a dar aula? Hoje os problemas estão se potencializando. Isso porque o espaço de tempo entre as gerações está diminuindo muito. Antes, uma geração era impactada por um grande evento, como a Segunda Guerra Mundial. Até a pandemia do coronavírus a transformação era provocada pela chegada de novas tecnologias, diminuindo para cerca de 10 anos a diferença entre gerações.

Não é que as pessoas sejam diferentes por causa das gerações. Mas a forma que elas experienciam o aprendizado está se transformando muito rapidamente, o que é típico do mundo VUCA – volátil, incerto, complexo e ambíguo. Então de fato as mudanças estão acontecendo e não estamos conseguindo acompanhá-las.

O papel da educação, nesse momento, é reaprender a aprender – seja enquanto professor ou aluno – para criar relacionamentos de uma forma mais significativa, mais atual, dentro do contexto que vivemos.

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Falando em pandemia: quais são os desafios que surgem para os professores em tempos de escolas fechadas e isolamento social? As primeiras questões que aparecem são socioemocionais. Os professores estão angustiados, preocupados. O que percebo neles é um medo de saber se vão dar conta, se vão conseguir, por exemplo, fazer uma boa videoaula e se os alunos vão aprender nesse contexto. O principal desafio é passar por esse período de transição.

A pandemia provocou uma ruptura muito brusca. Ninguém se programou para ter tempo para aprender a usar o Google Classroom, editar uma aula, gravar um vídeo, montar um roteiro. Algumas escolas fecharam na sexta e, a partir de segunda-feira, as videoaulas começaram a ser disponibilizadas. É real: alguns professores tiveram dois dias para se remodelar e mudar o formato das suas aulas.

Foi uma revolução traumática para muitos professores. Primeiro, por não saber se manteriam seus empregos durante ou depois da quarentena. Segundo, por não saberem como se reinventar nessa troca das aulas presenciais pelo ensino remoto em massa.

Ainda entram na conta a insegurança e a pressão da escola por produção de conteúdo. Afinal, o formato de dar aulas mudou. Mas, em geral, a filosofia continua a mesma: a de uma escola conteudista. E a angústia e a pressão externa está sendo colocada nos professores em um momento que não é emocionalmente favorável para ninguém.

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Como podemos trabalhar a questão da saúde mental dos professores? O professor precisa sentir a confiança dos pais e da escola. Mais do que nunca, a escola como um organismo precisa apoiar o professor. E o professor precisa apoiar os gestores para se constituir uma comunidade. É hora de dar as mãos e pensar em soluções. É hora, por exemplo, de pensar no currículo para ver o que é essencial fazer e em como fazer.

Quando a escola passa tranquilidade e confiança para o professor de forma organizada, com cronogramas claros, isso tende a deixá-lo mais tranquilo. Inclusive, aumenta o potencial dele para fazer um trabalho melhor – porque ele está se sentindo acolhido. Todos estamos num momentos sensível, então, mais do que nunca, é hora da escola se organizar enquanto comunidade que se apoia mutuamente.

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E é hora de todos dentro da comunidade escolar terem um lugar de fala e de quem tiver mais facilidade ajudar quem tem menos. Ou seja, é hora de colaboração. Por exemplo, realizando videoaulas com dois professores ao mesmo tempo, trabalhando transdisciplinaridade e interdisciplinaridade, mostrando que o conhecimento não está separado em gavetinhas de disciplinas.

O conhecimento é construído e vivenciado a todo momento na vida. Talvez o ambiente online seja mais uma forma de aproveitar a colaboração entre os professores. Tenho certeza que muitos professores vão se sentir mais seguros trabalhando juntos, pensando em como criar uma experiência de aprendizagem significativa no ambiente online.

Emilly Fidelix.

Emilly Fidelix.

O que é essencial para usar a tecnologia a favor da aprendizagem? Temos que apostar na ideia de que as novas tecnologias não vieram para substituir o professor. Elas vieram para potencializar o trabalho do professor. Assim como o médico tem o estetoscópio, o professor tem na “mala de ferramentas” não só apostila, giz e quadro-negro, mas muitas tecnologias. E é o momento de explorá-las.

É essencial esse novo olhar para diversificar os formatos e tornar mais dinâmicas as atividades e avaliações, utilizando as novas tecnologias como potenciais amigas. Cabe ao professor conhecer e escolher apenas algumas dessas ferramentas que sejam efetivas, para também não ficar na angústia de ter um problema e um milhão de soluções. E, inclusive, terem essas ferramentas em mãos quando as coisa voltarem ao normal.

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O que mais pode mudar no jeito de ensinar depois da pandemia? O momento é propício para repensarmos o que é educação. Antes, o que mais importava era o ensino. Agora, tem sido a aprendizagem. Surgem algumas questões: será que meu aluno está aprendendo? Ele está conseguindo estudar? Como ele aprende melhor? O que significa aprender? Ele só aprende no espaço físico da escola ou também vai para lá vivenciar uma experiência social?

E está crescendo a percepção da necessidade de incluir novas tecnologias no planejamento do dia a dia do professor. Antigamente, existia a ideia que aprender a utilizar novas ferramentas dava mais trabalho, então se continuava no livro didático e na apostila que já estavam prontos. Agora, somos obrigados a entender que é preciso se apropriar das novas tecnologias para usufruí-las seja em uma sala de aula presencial ou online.

Ou seja, a necessidade de estar atualizado ficou visivelmente clara. É preciso que os professores e as escolas se atualizem e absorvam novas formas e abordagens de ensinar, repensando o significado de aprender.

Aprender é muito mais amplo que sentar no banco da escola. E muitos professores estão tirando proveito dessa consciência durante o ‘lockdown’, conectando os conhecimentos da sua área com questões vivenciadas pelos alunos.

Além disso, acredito que está crescendo a ideia de o aluno valorizar a presença do professor em sala de aula quando voltarmos ao “normal”. A valorização do professor como tutor, como mentor e de como é importante estar em um espaço para aprender e para compartilhar.

Tem alguma metodologia de ensino que vai ganhar mais espaço daqui para frente? O que estamos vendo é o crescimento da sala de aula invertida, do ensino híbrido. As escolas que tiverem uma boa experiência com isso – pois se trata de algo que demanda tempo, é uma cultura que precisa ser construída – vão perceber que podemos usar o online como forma de compartilhar outros recursos com os alunos e de aproveitar melhor o ambiente em sala de aula.

De forma geral, as metodologias ativas auxiliam muito nesse sentido, gerando mais tempo em sala de aula para tirar dúvidas, tocar projetos mais significativos e desenvolver habilidades a partir de atividades práticas diferentes. Enquanto isso, os conteúdos teóricos ficam online para um estudo mais autônomo.

É claro que é um desafio porque nem todos alunos terão acesso. E isso não vai ser posto em prática em todas as escolas ao mesmo tempo e de forma linear, mas é algo que com certeza está entrando na percepção de várias instituições como um campo possível. Pode até não ser colocado em prática agora, mas a consciência de ter essa possibilidade deixa a porta entreaberta para quando for necessário usufruir desse conhecimento.

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1 Comentário

  1. Acompanho a prof. Emilly há 1 ano e ela sempre lúcida em suas falas. Sempre com algo a acrescentar. Sou fã! E amei d+ a entrevista

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