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Chegou a hora do recreio! Mas o que a escola faz com este tempo?

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Hora do recreio: os estudantes têm poucos minutos com autonomia para lanchar, brincar, conversar, beber água e… voltar para sua sala de aula. O resultado é uma correria sem fim.

Por Lourdes Atié

Se existe uma unanimidade quando conversamos com estudantes de diferentes escolas, é o recreio. Independentemente do segmento escolar, o intervalo é a melhor coisa que acontece no período escolar – na visão dos alunos.

Mas por quê? Por que será que os estudantes consideram o recreio o melhor momento? O que tem de tão especial neste momento? Será que os gestores escolares olham para o assunto com a devida atenção que ele merece?

Em outras palavras, gostar mais do recreio do que das aulas significa que os estudantes, não importa a idade que tenham, preferem ficar mais fora do que dentro da sala de aula. O destaque, aqui, é a liberdade – direito que muitos não têm em sala de aula.

Mesmo que a liberdade pareça pouca, pois o recreio muitas vezes tem de 15 a 20 minutos, esse tempo é valioso. É o momento que os alunos podem ser eles mesmos, sem ninguém dizendo o que devem ou não fazer.

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Em vez de autonomia, correria

Nas minhas andanças pelo Brasil, costumo perguntar aos gestores quanto tempo que a escola reserva para o recreio. Em virtudes das várias respostas que recebi, posso afirmar sem erro que a maioria das escolas públicas e particulares reservam 20 minutos para tal.

Raríssimas são as escolas que chegam a disponibilizar 30 minutos. Muitas dedicam apenas 15 minutos para o recreio.

Isso significa dizer que os estudantes têm poucos minutos com certa autonomia para sair das salas de aula, chegar no local de alimentação (seja uma cantina ou um refeitório), alimentar-se, conversar com os colegas, olhar o celular, brincar, ir ao banheiro, beber água e… voltar para sua sala de aula.

O resultado é uma correria sem fim!

E depois de tamanha aceleração, como conseguir se acalmar e prestar atenção nas aulas até a hora da saída? Acho que é impossível. Se existisse alguma máquina que pudesse medir o nível de atenção dos alunos pós-recreio, eu não ficaria surpresa se o indicador estivesse baixíssimo.

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E o recreio do professor?

E falo do recreio sob a ótica dos alunos, mas se falarmos dos professores, que quando chegam no horário do recreio também já estão cansados, este pouco tempo não permite recuperar a energia para continuar o dia.

Para os professores, o recreio também é uma correria. Sem falar que tem escola que, na hora do recreio, exigem que os professores acompanhem os alunos, propondo atividades ou apenas cuidando do movimento.

Que horário os docentes podem ter um intervalo para descansar da jornada de trabalho, como qualquer outro trabalhador?

As escolas precisam entender que o recreio não é um intervalo entre coisas importantes (aulas). O recreio é um importante tempo para aprender.

Afinal, a escola é o somatório de duas frentes de trabalho que acontecem em seus espaços. Ela é um espaço de aprendizagem, mas também um espaço de convivência. E como aprendemos a conviver, se não há um tempo dedicado a isso? O recreio é um excelente espaço curricular para que todos possam aprender na convivência com autonomia.

As crianças estão ficando sem tempo para desfrutar a infância naquilo que é característico desta fase da vida, que é brincar ou mesmo ficar sem fazer nada. Estão ocupadas demais para isso.

Mas as crianças precisam brincar. As brincadeiras são imprescindíveis para seu desenvolvimento. É no brincar que elas conhecem o outro, descobrem o mundo e também desenvolvem habilidades socioemocionais (as chamadas soft skills), como a criatividade e o autoconhecimento.

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Mas o tempo de brincadeira nas escolas de ensino básico está cada vez mais enxuto. As brincadeiras estão restritas à hora do recreio. E, mesmo assim, muitas escolas, como medida de disciplina ou controle, optam por fazer recreio com atividades orientadas.

Sem tempo para brincar com liberdade, na escola ou em casa, as crianças estão adoecendo como adultos. Sofrem de ansiedade, depressão, insônia, distúrbios de alimentação, problemas gástricos, entre outras doenças.

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No caso dos jovens, o grupo é muito importante para seu desenvolvimento. Como estão passando cada vez mais na escola, precisam ter tempo para interagir com seus colegas, sem a mediação dos adultos.

Convivência se aprende convivendo. É nesta experiência intransferível que aprendem a se conhecer melhor e a se relacionar com os outros.

A escola brasileira está muito acelerada – com seus currículos cada vez mais extensos, com uma grande oferta de atividades que transformam a escola numa gincana que interminável. É coisa demais e tempo de menos. Quem trabalha ou estuda neste espaço se sente da mesma forma: exausto.

Em tempos da BNCC, está aí uma oportunidade de atualizar o Projeto Político-Pedagógico. Nele, é possível rever o valor do recreio. Esse intervalo é um espaço de múltiplas possibilidades. E precisa de mais tempo.

Tenho defendido a duração de 30 minutos para o recreio. Por quê? Para poder desacelerar e descansar das atividades dirigidas, poder comer com calma e ainda ter tempo para fazer o que quiser.

Mas não defendo esta bandeira somente para os estudantes. Os professores também precisam deste período para arejar a cabeça, descansar e se recuperar. Precisam sair da sala de aula, entrar em outro ambiente, com tranquilidade não para fazer outras coisas como parar, lanchar, descansar a voz, a mente e o corpo. Enfim, relaxar.

Vamos experimentar? Tenho certeza que todos sairão ganhando.

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Sobre a autora

Lourdes Atié é socióloga com pós-graduação em Educação pela FLACSO, na Argentina, diretora da empresa Ideias Futuras e membro da comissão editorial da Revista Pedagógica Pátio – Ensino Fundamental e Ensino Médio. E-mail: lourdesatie@terra.com.br.

Redação Pátio
A redação da Pátio – Revista Pedagógica é formada por jornalistas do portal Desafios da Educação e educadores das áreas de ensino infantil, fundamental e médio.

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