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Quem disse que passar mais tempo na escola é bom?

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escola em horário integral

Uma escola relevante para o século 21 é aquela que sabe ser essencial e que elimina o supérfluo, escreve Lourdes Atié. Crédito: Tânia Rêgo/Agência Brasil.

Por Lourdes Atié

A escola no Brasil é movida a modismos e rótulos. Já faz tempo que a mídia “ensina” aos pais, por meio dos seus encartes patrocinados, como escolher a escola de seus filhos – utilizando “rótulos pedagógicos” que mais servem para confundir do que para verdadeiramente ajudá-los na escolha.

As chamadas inovações são apresentadas como algo a ser consumido e que, portanto, tornam-se um valor para classificar as escolas.

Entre outros modismos oferecidos, está o funcionamento da escola em horário integral. Isso acaba se confundindo com a educação integral – que defende uma educação holística, que foca em desenvolver todas potencialidades humanas, e não necessariamente implica em uma maior carga horária na escola. Trata-se de utilizar o tempo de maneira diferente e que também está sendo chamada de educação 360.

Voltando para a escola de horário integral: a justificativa pedagógica é que permanecendo mais tempo na escola, as crianças e jovens terão mais tempo para aprender mais coisas. Será?

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Para os pais e responsáveis, a oferta responde a uma demanda real. As famílias diminuíram e, sem um círculo de vizinhança, passaram a ter mais obrigações fora de casa e a trabalhar mais. Com isso, as crianças não podem ficar sozinhas em casa. Sem contar que as ruas ficaram perigosas.

Por outro lado, os pais entendem que seus filhos precisam fazer muitas atividades complementares ao tempo das aulas escolas, em preparação para um mundo cada vez mais competitivo. Isso pode tornar a agenda das crianças similar à de qualquer adulto executivo.

Assim, por razões devidamente justificadas, crianças e jovens estão ficando cada vez mais tempo na escola, que passou a oferecer toda sorte de atividades que antes eram realizadas por várias instituições. Deixaram de brincar nas ruas ou simplesmente ficar em casa desfrutando a vida. Mas seria o horário integral a melhor opção para as crianças e jovens?

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O tempo da escola

De fato, a oferta da escola em tempo integral foi uma resposta para enfrentar muitos desafios, além das demandas das famílias. Os baixos índices de aprendizagem, a evasão e a violência das ruas também sugiram como argumentos para que os estudantes permaneçam mais tempo na escola.

Então podemos afirmar que o horário integral é necessário diante do cenário que temos hoje nas cidades, que se tornaram perigosas e as famílias sem tempo para conviver. Este é um caminho emergencial para vários problemas reais. Mas já está na hora de avaliarmos se as vantagens são maiores do que as perdas.

Vamos pensar na infância de quem brincou na rua, como eu, ou você que está lendo este artigo, por exemplo.

Na rua, as crianças brincavam com outras crianças de diferentes idades e os amigos não eram apenas da mesma escola. Tínhamos amigos da escola com quem estudávamos, mas também amigos de outros quarteirões do bairro, de outras escolas, da igreja etc. Enfim, era tudo misturado e aprendíamos muito com quem era maior do que nós, e com quem era menor (que tínhamos a obrigação de proteger).

Então a convivência era rica, diversificada e sem a mediação dos adultos.

Mas isso tudo mudou. As crianças saíram das ruas e passaram a ficar mais tempo na escola. E por cada vez mais tempo. Tanto tempo que tem escola que não fecha nunca!

Nas férias, a escola oferece colônia de férias ou outras atividades, mantendo os estudantes na escola, sem dar tempo para sentir saudades deste lugar. Suas vidas passaram a ser da casa para escola, da escola para casa (para fazer tarefas da escola e, depois, descansar). Perdeu-se a sensibilidade, a ideia de que ali tem seres humanos e não apenas estudantes.

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O tempo da vida

As crianças e jovens estão estressados com tantas cobranças. Muitas tarefas, muitas avaliações, muitos projetos, comemorações, atividades. Ufa! Cadê o tempo de desfrutar a vida? Cadê o tempo do ócio, do desfrute, da liberdade? Como podemos qualificar o tempo para as crianças e jovens, que estão cada vez mais sem tempo?

Precisamos saber que uma escola com sentido, aquela que educa pessoas em suas potencialidades – não apenas cognitivas, mas também afetivas, artísticas, espirituais etc. –, não exige maior carga horária. Basta utilizar o mesmo tempo de maneira diferente. Um tempo qualificado.

O contrário disso é acreditar que o conhecimento acadêmico é muito valioso e, para isso, é preciso empregar muito tempo para transmiti-lo. Porém, também sabemos que informações demais geram aprendizagem de menos. Pois, para aprender, é preciso tempo.

Está na hora das famílias pensarem que seus filhos desenvolvem outros papéis além de estudantes. É preciso também que a escola foque naquilo que é essencial ao fortalecimento da sua identidade. Afinal, quem se propõe a fazer tudo tem menos tempo para fazer melhor e o que realmente é relevante.

A escola é o lugar de aprender, mas não o único. Enquanto prendemos as crianças e jovens na escola, mesmo com muitas justificativas, tornamos a vida deles mais pobre em termos de experiências deixamos de pensar que a solução de convivência pode ser fora da escola.

Que tal começarmos a pensar nisso? Que outros caminhos seriam possíveis? Já imaginou que genial seria de a escola adotasse o slogan “o menos vale mais”? E se todos se sentissem responsáveis pela educação de todos e a cidade se organizasse para isso? Impossível? Tem cidade que está conseguindo. E precisamos lutar por mais segurança nas ruas, mais vizinhança colaborativa e melhor qualidade de vida.

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Vamos partir do princípio que considera um direito de todos viverem a infância, a brincadeira, a beleza, a liberdade, a criatividade e o espírito crítico. E valorizar a cultura da infância, colocando as crianças como produtoras de cultura e de conhecimento, capazes de transformar a cidade em que vivem.

O mesmo para o jovem, para que se reconecte com a cidade. O meio é pela educação entendida como um bem comum, como direito fundamental e que, portanto, deve ser compromisso de toda sociedade.

Vamos pensar em algo que tire os alunos dos muros da escola e não que aprisione as crianças e jovens em um único lugar por anos. Conquistar outros espaços, ter outros papéis além de estudantes é simplesmente viver.

Uma escola relevante para o século 21 é aquela que sabe ser essencial e que elimina o supérfluo. Sabe desempenhar seu papel com sentido. Nunca sozinha, mas somando com toda a sociedade.

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Sobre a autora

Lourdes Atié é socióloga com pós-graduação em Educação pela FLACSO, na Argentina, diretora da empresa Ideias Futuras e membro da comissão editorial da Revista Pedagógica Pátio – Ensino Fundamental e Ensino Médio. E-mail: lourdesatie@terra.com.br.

Redação Pátio
A redação da Pátio – Revista Pedagógica é formada por jornalistas do portal Desafios da Educação e educadores das áreas de ensino infantil, fundamental e médio.

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1 Comentário

  1. Excelente colocação. Sou psicóloga clínica infantil, com dedicação exclusiva. Tenho recebido uma enorme demanda de crianças, de várias idades, inquestionavelmente estafadas pela rotina do ensino em tempo integral. Os reflexos são sempre similares: prejuízo nas relações sociais (brigas frequentes e agressões), desgaste na relação com as autoridades escolares, indisposição para aulas e outras atividades, irritabilidade, desobediência, etc. Aquilo que, inicialmente, parece ser um mero comportamento disruptivo, acaba sendo desvendado como o reflexo de um cansaço extremo (de quem tem a liberdade e a espontaneidade tolhidas, ao longo de um dia extenso). Incrível perceber a melhora nos pacientes aos quais foi devolvido o contraturno no ambiente familiar. A relação com a escola é profundamente transformada.

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