Ensino Básico

Estudantes de baixa renda são os mais prejudicados na quarentena

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O fechamento generalizado de escolas públicas e privadas obrigou gestores, professores e pais a improvisarem um modelo de educação para o qual o Brasil não estava preparado – diferentemente de países como a China.

Para manterem o calendário escolar em meio à pandemia do novo coronavírus, quase todas as particulares optaram por aulas improvisadas através de plataformas de videoconferência e ambientes virtuais de aprendizagem (AVA). Na rede pública, raras exceções conseguiram aderir ao movimento.

Estudantes de baixa renda são os mais prejudicados pela quarentena. Crédito: Agência Brasil.

Estudantes de baixa renda são os mais prejudicados pela quarentena. Créditos: Agência Brasil e arquivo pessoal.

É o caso da Escola Municipal de Educação Básica Profª Francisca Figueiredo Arruda Martins, em Cuiabá (MT). Com as aulas presenciais suspensas desde 23 de março, a escola criou um e-mail coletivo onde os alunos têm acesso às tarefas escolares.

Um deles é Guilherme Oliveira Marques, de 11 anos. Ele mora com avó no bairro Jardim Brasil, periferia de Cuiabá. Aluno do sexto ano, tenta manter uma rotina de estudos no período da tarde. É quando acessa as tarefas enviadas pelas professoras em um e-mail de senha compartilhada entre os colegas.

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Guilherme está nas estatísticas: vive em um dos 58% dos lares brasileiros que não têm acesso a computadores, segundo pesquisa do CGI.br, o Comitê Gestor da Internet no Brasil. Também não conta com conexão de internet banda larga. O acesso às tarefas é feito pelos dados móveis do próprio celular.

Numa tentativa de se concentrar, ele ouve música nos fones de ouvido enquanto transcreve as questões para o caderno. Quando os exercícios são resolvidos, Guilherme preenche um formulário com as respostas e as envia por WhatsApp para uma professora. Por enquanto, apenas ele e outra colega de classe conseguem cumprir o combinado.

Nossos colegas estão encarando [a quarentena] como férias. Eles não fazem as tarefas porque têm dificuldades para entender os conteúdos.

A experiência dos colegas de Guilherme era previsível, quase óbvia: os estudantes de baixa renda são os mais prejudicados na quarentena.

Não há um levantamento oficial do número de alunos do ensino básico sem aulas no Brasil. Mas é possível ter uma ideia do impacto da quarentena nas escolas públicas ao olhar para os dados de uma pesquisa divulgada pelo Centro de Inovação para a Educação Brasileira (Cieb) – feita com 3.032 secretarias de educação de todo o Brasil, dos quais 3.011 municipais (54,5% do total nacional) e de 21 secretarias estaduais (77,8%).

O cenário retratado pelo levantamento é desafiador. Embora 2.520 secretarias municipais (84% dos respondentes) tenham emitido normativas específicas – determinando suspensão das aulas presenciais ou o adiantamento de férias, por exemplo –, 63% ainda não orientaram sobre qual estratégia de ensino remoto deve ser adotada no período de quarentena.

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O comum tem sido os municípios disponibilizarem:

  • materiais digitais através do professor aos estudantes da sua turma (18,9%);
  • orientações genéricas via redes sociais com apoio de livros didáticos (12,4%); e
  • videoaulas gravadas pelos professores e enviadas aos estudantes também pelas redes sociais (7,45%).
  • Para os alunos que não têm equipamentos ou conectividade em casa, 6,4% das secretarias municipais vêm disponibilizando material impresso (apostilas, livros didáticos e/ou outros) com atividades a serem realizadas pelos estudantes.

No âmbito estadual, 40% das secretarias participantes da pesquisa do Cieb afirmaram contar com um processo mais estruturado para proporcionar aprendizagem remotamente, com plataformas online, videoaulas gravadas e compartilhamento.

No ensino superior federal, levantamento feito pela Folha de S. Paulo mostra que 60% das instituições preferiram suspender o calendário acadêmico enquanto durar o isolamento da pandemia – em vez de adotar aulas remotas.

Vale lembrar que a maioria dos alunos da rede federal vem de famílias de baixa renda. O último levantamento feito pela Andifes (associação de reitores das universidades federais), em 2018, apontou que 70,2% dos estudantes são de famílias com renda mensal per capita de até 1,5 salário mínimo.

Professores na linha de frente

A iniciativa na Escola Municipal de Educação Básica Profª Francisca Figueiredo Arruda Martins, na capital mato-grossense, surgiu dos próprios professores. Eles pensaram em várias soluções que não prejudicassem o calendário escolar durante a quarentena.

“Os professores planejam suas aulas na nuvem do e-mail coletivo. Eu e a outra coordenadora reorganizamos as aulas para serem mais interativas, com vídeos, e aí postamos em um blog”, comenta Edilaine Maria Mendes Ferreira, 47 anos, professora de Guilherme.

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A boa vontade se repete em outros rincões do país. Em Bento Gonçalves (RS), os professores da Escola Municipal de Ensino Fundamental Ouro Verde usam a internet não para enviar tarefas, mas para tirar eventuais dúvidas dos alunos. As aulas estão suspensas na escola desde o dia 19 de abril.

Gabriel e mãe, em Bento Gonçalves.

Os exercícios serão corrigidos somente após o retorno às aulas. Até a publicação dessa reportagem, a ideia era que as atividades voltassem na segunda-feira, 06 de abril.

Gabriel Iaronka Rigo, de 8 anos, aluno do segundo ano na Ouro Verde é um dos poucos alunos que tem um número de WhatsApp para falar com a professora, Bernardete Rigo Weschenfelder, 49. Ela afirma que, pelo perfil socioeconômico dos alunos, é inviável dar aulas de forma online. “A maioria deles não tem computador, nem sequer internet.”

Volmir Rigo, pai de Gabriel, diz que a família não teria estrutura para fazer mais do que fazem. “A internet aqui é ruim e só temos o celular. Se dependesse disso, não teríamos como estudar em casa com ele.”

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Preocupação com os estudantes

A socióloga Lourdes Aité faz ressalvas ao volume de tarefas para o período da quarentena. “A escola brasileira não preparou o aluno para ser autônomo. São poucos os alunos que que sabem a hora de estudar e como se concentrar. Agora, esse desafio caiu no colo da família.”

Aité, que também é pós-graduada em Educação pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso), acrescenta a preocupação com os educadores.

Temos que pensar que os professores também estão estressados. Alguns não tiveram oportunidades de trabalhar em rede e agora se vêm forçados a utilizar WhatsApp para manter os conteúdos de aula. Estão abandonados na hora em que mais precisam se reinventar.

A orientação inicial da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime) era que as atividades a distância fossem adotadas como de forma complementar, sem substituir o cronograma previsto no calendário escolar.

Mas na quinta-feira 2 de abril o governo federal editou Medida Provisória que permite a flexibilização do cumprimento legal de 200 dias letivos de aulas presenciais, previsto na LDB. A medida vale para a educação básica e para o ensino superior.

A MP, no entanto, manteve a carga horária mínima anual de 800 horas de aula. Ocorre que essa contagem agora passa a considerar as horas cumpridas em aulas e tarefas não presenciais durante o fechamento das escolas em razão da pandemia do coronavírus.

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O Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed) manifestou em nota “estar preocupado com os prejuízos causados aos estudantes de baixa renda pela suspensão das aulas em todo o país, pois nem todos os alunos têm igual acesso à internet e a recursos digitais”.

Outra preocupação é o Enem. Apesar da crise, o MEC, através do Inep, manteve as datas do exame digital para os dias 11 e 18 de outubro, e do Enem impresso nos dias 1º e 8 de novembro.

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