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As lições de Índia e Singapura para a educação

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Campus da National University of Singapore (NUS). Crédito: divulgação.

Em maio, tive a oportunidade de participar da 11ª Missão Técnica do Semesp, com viagens à Índia e a Singapura. Quero relatar um pouco da formidável experiência que tive durante os dias que passei nesses dois países asiáticos.

Singapura é uma cidade-estado localizada no Sudoeste da Ásia. Seu território é pequeno e sua população é de aproximadamente metade da população da cidade de São Paulo, com menos de seis milhões de habitantes. Além de ter uma das maiores rendas per capita do mundo, é considerado o melhor país do mundo para se fazer negócios e ocupa o topo do Ranking do PISA em todas as áreas.

No ensino superior, Singapura tem as duas melhores universidades da Ásia: a National University of Singapore (NUS) e a Nanyang Technological University. Ambas, também, estão entre as melhores universidades do mundo – segundo diversos rankings.

Já a Índia possui 1,3 bilhão de habitantes, mais de 35 milhões de alunos no ensino superior, 265 milhões de alunos na educação básica e possui uma taxa de crescimento econômico invejável. No entanto, mais de 70% da população vive na pobreza.

São países muito diferentes, mas que têm um propósito em comum: investir seriamente em educação.

Educação em Singapura

Há algumas décadas, Singapura era um país pobre, desorganizado e muito violento. Mas decidiu dar um feio nessas características e dedicar boa parte dos seus investimentos à educação.

Conversei com vários professores singapurenses e o alinhamento do discurso chega a impressionar. Por ser um país que não possuía abundância de recursos naturais nem de território, decidiram que as pessoas seriam o seu diferencial e começaram a investir forte e responsavelmente em educação.

Pessoas mais qualificadas fazem a economia girar. O fortalecimento da economia gera recursos que permitem que o país invista cada vez mais em educação, criando um círculo virtuoso no qual educação e economia se alimentam mutuamente, criando a interdependência saudável que levou o país à potência que hoje representa no cenário mundial.

Leia mais: O que Singapura ensina sobre a educação superior pública

Estar no topo do ranking do Pisa nunca foi uma meta perseguida a qualquer custo por Singapura, mas sim a consequência de um exemplar modelo de gestão pública, envolvendo muito planejamento estratégico e uma impecável execução.

Mas nem tudo por lá é tão merecedor da nossa admiração. O país possui suas esquisitices, como a proibição de mascar chicletes ou abraçar alguém em público. Mas parece que os singapurenses não estão lá muito preocupados com isso.

Há quem veja o governo como uma espécie de ditadura, que não abre mão do poder, embora para boa parte da população o que importa é a qualidade de vida e as oportunidades proporcionadas pelo sistema.

Educação na Índia

Na Índia, o desafio de ter um modelo educacional de ponta é muito maior. Os altos índices de pobreza, a desigualdade social, a corrupção e o tamanho da população tornam o problema muito mais complexo.

Embora a Índia possua um plano muito bem estruturado para melhorar a educação, os resultados ainda não são tão evidentes como os de Singapura. Pelo fato de não participarem do PISA, não há parâmetros para se avaliar a educação básica do país.

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Campus da Indian Institute of Science, em Bangalore. Crédito: divulgação.

Já no ensino superior, a melhor universidade do país, o Indian Institute of Science, que neste ano passou o Indian Institute of Technology no ranking da Times Higher Education, não está entre as 250 melhores universidades do mundo.

Mesmo com 1,3 bilhão de habitantes, o país não consegue ter uma universidade entre as 250 melhores do mundo. Quando fiz meu programa de fellowship em Harvard, passei boa parte do meu tempo no MIT, assistindo aulas de física nos primeiros períodos dos cursos de engenharia.

Leia mais: Por que a Índia tem um dos mais complexos sistemas de ensino superior

Lá, tive a oportunidade de conhecer muitos indianos que deixaram seu país para estudar em uma das melhore universidades do mundo (normalmente, Harvard, MIT e Stanford estão entre as 10 melhores do mundo em qualquer ranking).

Eu dizia a eles que eram privilegiados por poderem estudar em um instituto de ponta como o MIT e todos eles me diziam que não. O sonho deles era mesmo estudar em algum dos IITs (a Índia possui mais de 20 IITs espalhados pelo país), mas não conseguiram ser aprovados, restando o MIT como opção.

Aquilo me pareceu muito estranho em um primeiro momento, mas ao conhecer o IIT de Nova Délhi consegui entender o motivo. Mais de 3 milhões de indianos participam todo ano do processo seletivo do IIT Délhi.

O número de vagas não passa de 4 mil, ou seja, são quase mil candidatos por vaga. Isso significa que os melhores alunos da Índia, que possui mais de um bilhão de habitantes, vão para os IITs e mesmo assim o país não consegue emplacar uma universidade entre as 250 melhores do planeta.

O melhor IIT não está entre as melhores 350. Isso nos faz questionar se o modelo de ensino superior indiano é realmente eficiente. O plano é muito bom, mas os resultados ainda não vieram. Algo parecido com o que acontece no Brasil, que tem um bom Plano Nacional de Educação (PNE), mas resultados bem abaixo das metas estabelecidas.

Em sintonia com o mercado de trabalho

A viagem à Índia permitiu conhecermos duas cidades: Bangalore e Nova Délhi. Em Bangalore, conhecemos não somente universidades, mas também empresas de tecnologia. Entre elas, a Infosys, uma das maiores empresas de tecnologia do mundo.

Leia mais: Por que as universidades de tecnologia aplicada da China ficaram à deriva

A Infosys possui uma universidade corporativa que forma mais de 30 mil pessoas por ano para trabalharem na empresa. É praticamente uma cidade universitária, com uma infraestrutura formidável que contrasta com seu pobre entorno, formado basicamente por favelas.

Uma das perguntas que fiz para o gestor da universidade corporativa da Infosys foi se, na percepção dele, as universidades indianas estavam formando egressos com competências aderentes às demandas do mercado de trabalho, especificamente da Infosys. Ele apenas confirmou a certeza que eu tinha: definitivamente, não.

Se as universidades desenvolvessem nos alunos as competências demandadas pelo mundo real, a Infosys não precisaria investir tanto na qualificação dos seus recursos humanos. Segundo ele, a maior lacuna está relacionada ao desenvolvimento de competências sócio emocionais, as soft skills.

A infraestrutura das universidades indianas que visitamos é bem precária. Particularmente, eu esperava encontrar uma estrutura muito mais sofisticada, laboratórios de ponta e recursos tecnológicos inovadores. O que encontramos foi o contrário.

As melhores universidades indianas possuem uma estrutura bem menos sofisticada do que a média das instituições de ensino superior (IES) brasileiras. A diferença é que por lá a conexão entre as empresas e as universidades é muito bem estabelecida.

Empresas como Google e Infosys possuem núcleos de desenvolvimento dentro das universidades, o que facilita o desenvolvimento de talentos com competências mais próximas às demandas de mercado.

Um dos indicadores que comprovam o sucesso desse tipo de inciativa é o alto número de patentes criadas dentro das universidades. Eles sabem que ainda precisam melhorar muito a integração entre academia e mundo real, mas parecem estar bem à frente do Brasil nesse aspecto.

Em Singapura, visitamos a melhor universidade do país: a National University of Singapore (NSU). Vimos uma infraestrutura física e tecnológica bem superior à indiana, mas nada muito distante do que encontramos nas instituições de ponta brasileiras. Isso mostra que tecnologia é importante, mas não fundamental para o desenvolvimento educacional.

Singapura possui um sistema educacional com dois pilares muito importantes: gestão educacional e investimento, tanto em formação quanto em atração dos melhores professores, independentemente da sua nacionalidade.

Nenhum investimento é feito nas universidades públicas se não houver uma meta bem clara e um evidente retorno para a sociedade. Accountability é uma prática muito comum entre os gestores públicos do país. O que vimos no setor educacional funciona de forma bem similar em outros setores, como na gestão do planejamento urbano. Uma breve visita ao Singapore City Gallery mostra bem que planejamento e execução são levados muito a sério pelo governo.

Leia mais: O que aprender com Israel – a startup nation

Insights da missão técnica

Eu poderia relatar aqui as inéditas e ricas experiências culturais (desde os costumes até a gastronomia local) e religiosas (hinduísmo, budismo, islamismo e sikhismo) que vivenciamos durante a missão, mas precisaria de mais um artigo para isso.

Encerro compartilhando um pouco da minha visão e algumas opiniões que eu já tinha sobre qualidade e eficiência de um modelo educacional e que foram fortalecidas ao conhecer um pouco mais do sistema educacional da Índia e de Singapura:

  • Infraestrutura (física e tecnológica) facilita o processo, mas não é fundamental para a aprendizagem;
  • Gestão é tão ou mais importante do que o volume de investimento em educação;
  • Um bom desenho de currículo, baseado em competências aderentes às demandas do mundo real (incluindo, como nunca, as soft skills) é fundamental. Temos que reduzir esta importante lacuna que ainda existe entre academia e mercado de trabalho. Podemos facilitar esse movimento trazendo as empresas para dentro das escolas, ajustando nossas metodologias de ensino e formando professores para este novo modelo.
  • A qualidade do modelo educacional está intimamente relacionada à qualidade dos professores. Por isso, é imperativo investir na formação e na atração de pessoas altamente qualificadas para a carreira docente.
  • Países que não possuem abundância de território e de recursos naturais tendem a investir mais na formação de seus recursos humanos e acabam se tornando mais ricos do que países com abundância de recursos naturais.
  • Sem dúvida, é muito importante compreendermos o que países como Singapura, Finlândia e Coreia do Sul fizeram para terem sistemas educacionais tão admirados. No entanto, é mais importante ainda buscarmos formas de “tropicalizar” essas práticas, com modelos escaláveis e replicáveis para países com realidades econômica, social, geográfica e, sobretudo, cultural tão distintas, com é o caso do Brasil.
  • Economia e educação são interdependentes e se retroalimentam.
  • Não se muda a qualidade da educação de um país em um único mandato político. Se não houver continuidade e visão de longo prazo, o os resultados tendem a ser medíocres.
  • Não basta ter um bom plano. A capacidade e a vontade de execução fazem toda a diferença.

É isso. Que venham novas experiências. E, com elas, novos aprendizados.

Leia mais: Internacionalização: um diferencial para alunos e instituições

Gustavo Hoffmann
Gustavo Hoffmann é diretor do Grupo A, membro do projeto SAGAH e do conselho editorial do portal Desafios da Educação, onde escreve mensalmente.

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