Metodologias de Ensino

Por que o modelo educacional não será mais o mesmo depois da covid-19

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Uma das frases que mais escuto nos últimos meses é: “nosso modelo educacional nunca mais será o mesmo.” Com a aprovação por unanimidade pelo CNE da prorrogação das aulas remotas até o final de 2021, fica óbvia a necessidade de ajustes.

Com a certeza da mudança, e a incerteza do cenário, os gestores educacionais buscam novas tecnologias, desenham novos currículos e projetam novos espaços de aprendizagem, sejam eles físicos ou digitais. Mas a pergunta é: por que mudar? E ainda: mudar em que direção?

Nos últimos anos, tenho defendido muito a prática de uma educação baseada em evidências. De fato, muitas instituições de ensino ajustaram seus modelos movidas pela intuição e por um sentimento de necessidade de mudança, Mas ainda há bem pouca ciência envolvida nesse processo.

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cenário atual é ideal para a inserção desses elementos no nosso modelo educacional.

O cenário atual é ideal para a inserção desses elementos no nosso modelo educacional. Crédito: Unsplash.

Por que e como mudar?

Estima-se que mais de 80% dos empregos que existirão daqui a 10 anos ainda não existem. A National University of Singapore, que tive o privilégio de conhecer no ano passado, prevê que seus egressos terão, em média, 6 carreiras diferentes ao longo da vida – não são 6 empregos diferentes, mas carreiras. Não é a toa que praticamente 40% da receita da NUS virá da vertical de lifelong learning nos próximos anos.

O Laboratório de Aprendizado de Máquina em Finanças e Organizações da Universidade de Brasília (LAMFO-UnB) estima que até 2026 boa parte das atuais atribuições dos profissionais de nível superior serão substituídas por inteligência artificial.

Por exemplo: é provável que 76% das atuais atribuições de um advogado ou 79% do que hoje faz um engenheiro civil ou ainda 55% do que hoje faz um enfermeiro sejam substituídas por inteligência artificial nos próximos anos.

No ano passado, visitei a sede da multinacional Infosys, em Bangalore, Índia. A Infosys possui um campus que forma milhares de alunos por ano para trabalharem na companhia. Perguntei ao diretor de educação da empresa se as universidades indianas não formavam egressos com as competências demandadas pela Infosys.

A resposta foi bem pragmática: se as universidades indianas formassem bons profissionais, a Infosys não teria que investir centenas de milhões de rúpias indianas todos os anos na formação de seus empregados.

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Desenvolvimento de competências

O portal Inside Higher Ed e a Gallup fizeram uma pesquisa que revelou um enorme gap entre as competências demandadas pelo setor produtivo e as que são trabalhadas dentro das universidades. Enquanto 99% dos gestores acadêmicos acreditam que estão formando profissionais com competências adequadas ao mercado de trabalho, apenas 11% dos líderes empresariais têm a mesma percepção.

Boa parte desse gap está relacionado a competências socioemocionais – ou soft skills. Há um superdimensionamento das competências técnicas (hard skills) nos nossos currículos, enquanto as competências sociais e emocionais, também chamadas de competências do século 21, são subdimensionadas.

Empatia, comunicação, capacidade de resolução de problemas, criatividade e liderança são apenas algumas dessas competências tão importantes e que dificilmente serão substituídas por inteligência artificial nos próximos anos. Ou seja, é evidente a necessidade de mudança dos nossos currículos.

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O setor produtivo deveria participar dessa mudança – como acontece na Uniamérica, de Foz do Iguaçu (PR). Não só alimentando nossos currículos com competências mais aderentes ao mundo real, mas também participando ativamente da sua execução, incluindo o processo de avaliação dos alunos. Uma avaliação não somente baseada em notas em provas, mas sobretudo no desenvolvimento de competências técnicas e socioemocionais.

Currículos baseados em competências e a inserção de projetos integradores são uma excelente forma de aproximar a academia do mundo real. Alunos dos primeiros períodos de graduação já deveriam ser submetidos a projetos reais que visassem resolver um problema prático da sociedade. A curricularização da extensão, já definida como obrigatória pelo MEC, deveria ser vista como um importante elemento de aproximação entre academia e mundo real.

Além do currículo, outro grande problema é o método. A prevalência absoluta da exposição de conteúdos dentro de sala de aula é outro elemento que deveria ser imediatamente combatido.

Aulas expositivas podem ser uma importante ferramenta, mas não deveriam ser a única. É fundamental eliminarmos esse modelo just in case, que quanto mais conteúdo melhor, adotando o modelo just in time, no qual conteúdo é apenas uma ferramenta para a solução de um problema.

A tecnologia pode substituir boa parte da aula expositiva através do uso de plataformas adaptativas, de conteúdo digital de qualidade, de ambientes virtuais de aprendizagem (AVA ou LMS, na sigla em inglês) que permitem o acompanhamento da evolução de cada aluno, respeitando o ritmo de aprendizagem de cada estudante.

Isso permitiria que os momentos presenciais fossem utilizados para a aplicação do conteúdo, configurando assim um modelo híbrido de sala de aula invertida.

Modelo educacional híbrido: alunos da Uniamérica no parque industrial da Nutrimental. Crédito: Divulgação.

Modelo educacional híbrido: alunos da Uniamérica no parque industrial da Nutrimental. Crédito: Divulgação.

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A educação pós-covid

A pandemia fez com que professores e gestores que resistiam à inserção da tecnologia no processo educacional fossem obrigados a lançar mão de recursos digitais. Por mais que essa implantação tenha sido emergencial, sem muito planejamento, a experiência foi surpreendente.

Mais de 50% dos professores, inclusive os mais resistentes, veem de forma positiva a possibilidade de não retornar de forma 100% presencial nos próximos semestres.

A possibilidade de prorrogação das aulas remotas até o final de 2021 abre uma janela excepcional para a modelagem de uma educação verdadeiramente híbrida, totalmente aderente não somente às demandas do século 21, mas também à restrição da presencialidade provocada pela covid-19.

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Nos últimos anos, tenho pesquisado e comparado diferentes modelos de sala de aula e não há duvidas em relação à eficácia do uso da aprendizagem ativa, híbrida e invertida aqui no Brasil.

Em um dos estudos que fiz pela Universidade Harvard, alunos submetidos ao ensino híbrido, com inversão da sala de aula, aprenderam em média 9,01% a mais do que alunos submetidos ao modelo 100% presencial. É o que chamamos de less teaching, more learning. Com 50% de carga horária presencial, os alunos aprenderam mais.

O que importa não é o tempo que o aluno fica em sala de aula com o professor, mas o que ele faz lá dentro. No mundo inteiro, incluindo o Brasil, a adoção de um ensino híbrido, com uso de metodologias ativas para inverter a sala de aula funciona bem melhor do que o tradicional modelo expositivo. O cenário atual é ideal para a inserção desses elementos no nosso modelo educacional.

Por mais que haja muita incerteza em relação o futuro, é muito provável que nosso modelo educacional caminhe a passos largos em direção a um modelo que muito provavelmente estará baseado nos seguintes pontos:

  • Menos ensino, mais aprendizagem. Menos aulas expositivas, mais experimentação.
  • Ensino híbrido e aprendizagem invertida.
  • Tecnologia como meio catalizador do processo. Como meio e não como fim.
  • Currículos mais aderentes às demandas do mundo real, baseados em competências e não em conteúdos.
  • Novos processos de avaliação. Avaliar o desenvolvimento de competências ao longo do processo parece fazer mais sentido do que atribuir uma nota em uma prova.

Para tudo isso, é fundamental que criemos mais evidências no processo educacional. Mudar dá trabalho. E se a mudança não for claramente direcionada à melhoria do nosso sistema, talvez seja melhor manter como está.

A boa notícia é que há fortes evidências e experiências muito bem sucedidas a favor do uso de metodologias mais ativas, do maior aporte tecnológico como meio, da hibridização do ensino e de currículos baseados em competências. Este parece ser o caminho. E nele, não há via de retorno.

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Gustavo Hoffmann
Gustavo Hoffmann é diretor do Grupo A, membro do projeto SAGAH e do conselho editorial do portal Desafios da Educação, onde escreve mensalmente.

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