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Quando o marco regulatório da educação a distância (EaD) entrou em vigor, em maio de 2025, uma das principais preocupações do setor era entender como contemplar as novas exigências de carga presencial. Para muitas instituições de ensino superior (IES), a mudança trouxe um desafio operacional e financeiro enorme.
Na Uninter, porém, essa transição está sendo bem mais suave. Enquanto a maioria das universidades ainda corre para se adaptar às regras (o prazo determinado pelo decreto é de dois anos; um já passou), a IES já contava com um plano antes mesmo de a legislação entrar em vigor.
Há mais de uma década, o centro universitário desenvolve atividades mão na massa para os cursos da área de Engenharia. Para viabilizar essa proposta, firmou uma parceria com a Plataforma A visando à oferta de experiências de aprendizagem verdadeiramente engajadoras: os laboratórios didáticos portáteis.
A oferta EaD de Engenharia Civil, em particular, sempre foi algo complexo. Um dos motivos é a necessidade de oferecer práticas construtivas reais.
O novo marco reforça isso sem dar margem para dúvida. Em relação ao formato, o decreto estabelece que:
Cumprir essas exigências passa por superar uma série de questões logísticas. Muitas vezes, o polo de apoio fica distante, o tempo disponível para atividades presenciais é limitado e os estudantes têm perfis bastante heterogêneos. Diante disso, como garantir aprendizagem prática de qualidade em escala nacional?
A resposta exige uma mudança de perspectiva: em vez de levar o aluno ao laboratório, é preciso levar o laboratório até o aluno.
É justamente essa a proposta do kit didático portátil, um conjunto de materiais cuidadosamente selecionados, acompanhados de roteiros detalhados e aulas ao vivo capazes de transformar praticamente qualquer espaço em um ambiente de aprendizagem prática.
A professora Adriana Regina Tozzi, coordenadora de Engenharia Civil EaD da Uninter e responsável pela implementação dos kits, lembra que tudo começou quando ela estava desenvolvendo o projeto pedagógico do curso, em 2019.
A IES já adotava essa lógica de ensino há alguns anos, nos cursos de Engenharia de Produção, Engenharia Elétrica e Engenharia da Computação. Entretanto, a Engenharia Civil não compartilhava os mesmos conteúdos e estruturas laboratoriais.
“Existiam kits de Física e Química, disciplinas básicas e comuns a todas as Engenharias, mas não havia kits específicos para o curso. Foi então que desenvolvemos o MyLab Maker One. Com isso, passamos a realizar aulas síncronas, em que o professor conduz a atividade e os alunos executam experimentos e montagens em tempo real”, explica.
Ou seja, o projeto não surgiu por causa do marco regulatório. Ele nasceu de uma escolha pedagógica e da preocupação em desenvolver competências práticas desde o início do curso.
A coordenadora de Negócios da Plataforma A, Raphaela Novaes, destaca que a Uninter sempre esteve preocupada em garantir acesso a uma educação de qualidade e prática aos seus estudantes, independentemente da modalidade. A parceria com a IES foi uma construção coletiva.
“Nós tínhamos a tecnologia, a metodologia e as ferramentas, e eles tinham os professores com conhecimento técnico e o público de alunos necessário para experimentar. Foi uma parceria que juntou ‘a fome com a vontade de comer’”, brinca.
Segundo a professora Adriana Tozzi, muitos ingressantes do curso de Engenharia Civil têm dificuldades com termos técnicos e até mesmo com algumas conexões básicas da área. Às vezes, os alunos se perdem em uma disciplina simplesmente porque não conseguem visualizar o que está sendo explicado.
O kit foi pensado para tornar esses conceitos tangíveis. Por isso, as atividades começam com etapas simples, como coletar amostras de solo, para entender fundamentos ligados ao terreno e à construção.
“Tudo isso acontece dentro da disciplina de Construção Civil, que tradicionalmente é teórica e até considerada maçante pelos alunos, embora seja vista como um dos eixos centrais da Engenharia Civil”, ressalta a educadora.
Os demais kits, voltados a instalações hidráulicas e elétricas, trazem casas de acrílico tridimensionais, criadas para enfrentar outra dificuldade recorrente: visualizar espacialmente as instalações apenas a partir de desenhos técnicos e plantas.
A solução encontrada foi transformar esse aprendizado em uma experiência concreta e manipulável. Os alunos podem marcar paredes, circuitos elétricos e tubulações hidráulicas com uma caneta esferográfica para visualizar melhor como essas instalações funcionam.
A metodologia desenvolvida pela Plataforma A para o curso de Engenharia Civil da Uninter é estruturada em três kits didáticos da linha MyLab Maker, cada um voltado a uma disciplina específica.
MyLab Maker - Kit portátil individual enviado ao polo para retirada. Com ele, o estudante constrói uma residência em miniatura literalmente da estaca zero, passando por etapas como fundação, armação, formas, concreto, alvenaria e cobertura. A atividade é realizada na casa do aluno, dentro da disciplina de Construção Civil, ao longo de seis semanas, com aulas ao vivo e entrega de relatório avaliativo.
MyLab Maker II - Utiliza uma maquete de acrílico com papel milimetrado para simular uma residência de dois andares. A partir dela, o aluno projeta e traça sistemas de água (fria e quente) e esgoto, utilizando canetas hidrocor. Desenvolvido para a disciplina de Instalações Hidráulicas, o kit é utilizado no polo de apoio e trabalha conteúdos alinhados às normas NBR 5626 e NBR 8160, incluindo dimensionamento real e projeto isométrico.
MyLab Maker III - Voltado à disciplina de Instalações Elétricas, esse kit traz uma maquete com paredes de acrílico translúcido, permitindo que o estudante elabore diagramas unifilares, crie passagens de eletrodutos e simule ligações simples, paralelas e intermediárias. Também utilizado no polo de apoio, o laboratório portátil aborda circuitos reais e conteúdos baseados na NBR 5410.
Por meio da implementação dos kits, a Uninter conseguiu transformar seus polos presenciais em verdadeiros espaços formativos:
É claro que nem toda experiência é 100% livre de desafios — ainda mais em um modelo que busca oferecer atividades práticas de Engenharia Civil em grande escala.
Entre os principais obstáculos identificados está a logística de envio dos kits para polos espalhados por todo o Brasil. Também houve dificuldades relacionadas à adaptação dos alunos aos materiais. Muitos não tinham experiência prévia com obras ou laboratórios.
Outro ponto de atenção foi a gestão do tempo das atividades. Exercícios mais complexos, como diagramas unifilares e compatibilização de sistemas hidráulicos, mostraram-se difíceis de concluir dentro do período inicialmente previsto. Além disso, a padronização dos kits entre diferentes regiões exigiu adequações.
Para enfrentar essas questões, a Uninter estruturou uma rede logística com cronograma escalonado, criou roteiros passo a passo acompanhados de vídeos tutoriais e aulas gravadas, e passou a complementar as práticas físicas com simulações digitais. A necessidade de rever o tempo das atividades também ficou evidente: diversos alunos solicitaram 30 minutos adicionais para concluir os exercícios, indicando que a duração oficial ainda precisava ser reconsiderada.
A experiência da Uninter reforça algumas tendências importantes para o futuro da educação a distância. Uma delas é o potencial dos kits como modelo escalável e replicável para outras disciplinas técnicas, ampliando as possibilidades de aprendizagem prática além do laboratório tradicional.
“Hoje, os kits didáticos são o modelo mais eficiente, tanto no sentido financeiro como metodológico. Ocupam pouco espaço, exigem baixo investimento de instalação e se conectam com os laboratórios virtuais — o que faz com o que o estudante possa vivenciar uma experiência, de fato, de aprendizagem híbrida”, argumenta Raphaela Novaes.
Além disso, a combinação entre atividades síncronas, assíncronas e presenciais pode reduzir o isolamento frequentemente associado à EaD e tornar o processo formativo mais consistente. Os resultados também mostram que estudantes sem experiência prévia conseguem alcançar desempenhos expressivos quando têm acesso a metodologias estruturadas, suporte contínuo e atividades bem orientadas.
Nesse contexto, o novo marco acaba corroborando o que iniciativas como a da Uninter confirmam: é viável oferecer práticas pedagógicas eficazes em todos os formatos de aprendizagem.
“Sou professora de Engenharia desde 2002. Sempre foi muito claro para mim que a formação não é feita apenas de conteúdo; ela também é construída por meio da experimentação, da relação com outras pessoas, da proximidade e do acolhimento”, afirma Adriana Tozzi.
Os próprios polos de apoio ganham uma nova função nesse modelo. Quando o aluno precisa se deslocar até a unidade, não vai até lá apenas para assistir a uma aula expositiva.
“Basta nos colocarmos na posição de estudante”, ressalta a professora. É bem melhor quando você desenvolve uma atividade, produz e sai com uma aprendizagem concreta. Então, creio que o grande diferencial dos kits é fazer com que o aluno coloque a mão na massa.”
Por Redação
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