A internacionalização está mudando de endereço? Um pequeno guia para quem quer estudar fora

Redação • 27 de julho de 2026

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    Muitos brasileiros sonham em estudar fora. Mais do que ampliar a formação acadêmica, essa experiência permite desenvolver a fluência em outro idioma e vivenciar novas culturas — um conjunto de fatores que agrega tanto à trajetória pessoal quanto profissional. 

     

    Durante anos, países como Estados Unidos, Reino Unido, Canadá e Austrália estiveram no topo da lista de quem buscava uma graduação ou especialização no exterior. Entretanto, fatores como elevação do custo de vida e regras migratórias restritivas têm se tornado um obstáculo para quem busca destinos mais tradicionais. 

     

    Nos EUA, por exemplo, pelo menos 6 mil alunos estrangeiros tiveram seus vistos revogados pelo governo Trump por supostas violações e por permanência além do prazo permitido. A mudança de cenário faz com que outras nações entrem no radar dos estudantes. 

     

    Uma reportagem da Reuters ilustra bem essa transformação: ela mostra como os indianos estão “repensando o sonho americano” e buscando alternativas na União Europeia (UE), bloco que tem um acordo comercial com o gigante asiático. Com mais facilidades migratórias e melhores perspectivas de trabalho, muitos jovens optam por países como Alemanha, França e Portugal. 

     

    Mas e para os brasileiros, será que vale a mesma lógica? Neste pequeno guia, o portal Desafios da Educação sugere alguns destinos para quem pretende estudar no exterior. 


    Alemanha: excelência na formação STEM 

    A Alemanha é um dos destinos que mais merece atenção de estudantes brasileiros, especialmente para quem pensa em mestrado e doutorado. O país combina tradição em pesquisa, forte formação em STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática) e universidades de referência, como Technical University of Munich, Ludwig-Maximilians-Universität München, Universidade de Heidelberg e RWTH Aachen University


    Conforme a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), a participação de estrangeiros no ensino superior alemão passou de 10% para 12,7% entre 2018 e 2023. No semestre de inverno de 2025/26, o DAAD (Deutscher Akademischer Austauschdienst, a maior organização alemã no campo de intercâmbio acadêmico) registrou cerca de 420 mil estudantes internacionais e doutorandos nas universidades do país. 


    O custo da formação é outro atrativo. Na maioria das universidades públicas, não há cobrança de tuition fees — taxas referentes à própria formação acadêmica. Isso não significa, porém, estudar de graça: há contribuições semestrais e despesas com moradia, alimentação e seguro-saúde. Além disso, estudantes de fora da UE podem pagar taxas em alguns estados e instituições. 


    Há ainda a questão do idioma. Embora existam muitos cursos em inglês, sobretudo na pós-graduação, o domínio do alemão amplia as possibilidades de integração e inserção profissional no país. 


    Para quem pensa além da formação, a Alemanha também oferece uma vantagem importante: após concluir o curso, o estudante pode solicitar uma autorização de residência que permite permanecer no país por até 18 meses para procurar um emprego qualificado. Isso torna o destino interessante para quem pretende transformar a experiência acadêmica em uma trajetória profissional na Europa


    França: um mercado que busca talentos 

    Se a Alemanha se destaca pela força em STEM, a França oferece uma combinação diferente. O país reúne universidades tradicionais, mas também um sistema de grandes écoles, nas quais o acesso é muito concorrido. Instituições como Université PSL, Institut Polytechnique de Paris, Université Paris-Saclay e Sorbonne Université estão entre os nomes de maior projeção internacional, enquanto escolas como HEC Paris e ESSEC Business School são referências globais em negócios e gestão. 


    Essa diversidade ajuda a explicar a presença de estudantes estrangeiros no país. Em 2024-2025, a França recebeu 443,5 mil estudantes internacionais no ensino superior, número 17% maior do que cinco anos antes. Eles representam cerca de 15% do total de estudantes do país, segundo dados compilados pelo Campus France


    O custo também pode ser competitivo em comparação com destinos como Estados Unidos e Reino Unido. O ensino público francês é fortemente subsidiado pelo Estado e, para estudantes de fora da União Europeia, as taxas cobradas continuam abaixo das mensalidades praticadas por muitas universidades privadas e estrangeiras. Há, também, possibilidades de isenção. 


    Para os brasileiros, o idioma pode ser menos uma barreira do que em outros destinos europeus. O francês ainda é amplamente utilizado no ensino e no mercado de trabalho, mas a oferta de cursos em inglês vem crescendo, sobretudo na pós-graduação. 


    Para quem pretende ficar depois da formação, a França oferece uma via de transição entre universidade e mercado de trabalho. Graduados estrangeiros que concluíram determinados cursos, como um mestrado ou diploma equivalente, podem solicitar a autorização de residência temporária de “recherche d'emploi ou création d'entreprise”. 


    A autorização permite procurar trabalho ou iniciar um negócio relacionado à formação, mas está sujeita a requisitos específicos e não constitui uma permissão automática para permanência definitiva. Depois da contratação, é necessário solicitar o título de residência adequado à atividade profissional exercida. 


    Portugal: a porta de entrada mais familiar 

    Portugal oferece uma vantagem que poucos destinos conseguem reproduzir: o idioma. A possibilidade de estudar na mesma língua, somada à proximidade cultural e histórica, facilita a adaptação e torna o país uma boa opção para quem vive a primeira experiência internacional


    Essa familiaridade, porém, não significa que Portugal seja um destino secundário no cenário global de educação. Segundo a OCDE, os estrangeiros representavam 13,3% dos alunos do ensino superior português em 2023, ante 7,9% em 2018.  O país também se destaca pela diversidade de suas origens: mais de 30% dos estudantes internacionais vêm da América Latina e do Caribe, reflexo dos vínculos históricos e culturais e da importância da língua portuguesa. 


    Entre as instituições de referência estão a Universidade de Lisboa, Universidade do Porto, Universidade de Coimbra e Universidade NOVA de Lisboa, que oferecem cursos de graduação e pós-graduação em diferentes áreas e aparecem bem posicionadas em rankings internacionais. 


    O crescimento da procura também traz um ponto de atenção: moradia. Lisboa e Porto, principais polos de atração de estudantes, enfrentam pressão no mercado imobiliário, o que pode elevar o custo de viver nessas cidades. Para o brasileiro que considera Portugal, portanto, a conta não deve se limitar às “propinas” — como são chamadas as taxas de matrícula e frequência no ensino superior português. É preciso colocar na ponta do lápis também aluguel, alimentação, transporte, seguro e demais despesas ao longo de todo o curso. 


    Mas atenção: Portugal vem endurecendo sua política de imigração, e mudanças recentes tornaram mais restritos alguns caminhos de regularização para estrangeiros que entram no país sem visto prévio. Para estudantes do ensino superior, porém, existem vias específicas de residência, com regras que variam conforme a situação do aluno, o tipo de curso e as condições de entrada e permanência no país. Por isso, quem pretende estudar em Portugal deve verificar com antecedência os requisitos aplicáveis ao seu caso e acompanhar as orientações da Agência para a Integração, Migrações e Asilo (AIMA). 


    Espanha: diversidade de escolhas 

    A Espanha também pode ganhar espaço entre os brasileiros que buscam uma experiência internacional na Europa. A relativa proximidade cultural ajuda na adaptação, enquanto o idioma oferece uma barreira linguística relativamente menor. 


    O país reúne uma rede diversificada de instituições e perfis acadêmicos. Entre as instituições de ensino de maior destaque estão Universitat de Barcelona, Universidad Autónoma de Madrid, Universidad Complutense de Madrid e Universitat Autònoma de Barcelona


    A internacionalização do ensino superior espanhol ainda está abaixo da observada em destinos como Alemanha e Portugal, mas vem avançando. Segundo a OCDE, a proporção de estudantes internacionais passou de 3,5% em 2018 para 4,3% em 2023. 


    A Espanha é forte em áreas como Negócios, Turismo, Comunicação, Artes e Ciências Humanas. A escolha, porém, exige atenção às diferenças entre as comunidades autônomas: a oferta acadêmica, os idiomas utilizados e as regras de acesso podem variar muito de uma região para outra. O custo de moradia também merece ser considerado, sobretudo em grandes centros como Madri e Barcelona. 


    A legislação espanhola permite, sob determinadas condições, que estudantes estrangeiros exerçam atividade profissional compatível com os estudos. Depois da formação, há ainda uma autorização específica para quem deseja permanecer no país em busca de emprego ou para desenvolver um projeto empresarial. 


    Japão: tradição na indústria avançada 

    Com uma longa tradição em pesquisa, o Japão se destaca em áreas ligadas à indústria avançada (Engenharia, Robótica e Eletrônica, por exemplo). Instituições como a Universidade de Tóquio, a Universidade de Kyoto, o Institute of Science Tokyo e a Universidade de Osaka aparecem em destaque nos principais rankings de qualidade acadêmica. 


    O caminho para o estudante estrangeiro é facilitado por programas de financiamento. O principal deles é o MEXT Scholarship. A seleção pode ocorrer por recomendação da embaixada japonesa ou da própria universidade, e os requisitos variam conforme a categoria. Para 2026, o Ministério da Educação, Cultura, Esportes, Ciência e Tecnologia do Japão (MEXT) manteve chamadas específicas para estudantes de pesquisa e para determinadas vagas de graduação. 


    O Japão representa uma experiência internacional de natureza distinta da encontrada em destinos europeus. Questões culturais, hábitos e, dependendo do curso, a necessidade de domínio do idioma nativo, exigem preparação prévia. Mas também existem programas ministrados em inglês, especialmente na pós-graduação. 


    A permanência após a formação também é possível, mas exige uma mudança de status migratório. Quem se forma em uma universidade japonesa pode, atendendo a determinadas condições, permanecer no país por até um ano para continuar a busca por um emprego. Uma vez contratado, o graduado precisa obter uma autorização de residência. 


    Coreia do Sul: a nova potência da indústria criativa 

    A Coreia do Sul é uma potência em tecnologia, mas sua projeção internacional vai além desses setores. A força de sua indústria cultural — da música pop ao cinema, da moda ao design — ampliou a visibilidade do país e ajudou a criar novas possibilidades para estudantes interessados em áreas criativas e de comunicação. 


    Entre as instituições de maior destaque estão Seoul National University, KAIST, Yonsei University e Korea University, reconhecidas internacionalmente por sua atuação em diferentes áreas do conhecimento. A oferta de programas ministrados em inglês, principalmente na pós-graduação, amplia as possibilidades para estudantes que ainda não dominam o coreano. 


    O governo conta com o Global Korea Scholarship (GKS), programa que oferece bolsas para estudantes estrangeiros de graduação e pós-graduação. Dependendo da modalidade, o apoio pode incluir passagens aéreas, auxílio para instalação, mensalidades, seguro médico e uma bolsa mensal. 


    Assim como no Japão, a distância cultural e linguística é um fator a considerar. Mesmo com a crescente internacionalização das universidades, o domínio do coreano pode fazer diferença no dia a dia e nas oportunidades profissionais fora do ambiente acadêmico. 


    Para quem pretende permanecer depois da formação, a adaptação ao mercado pode ser mais desafiadora do que na Europa. Durante os estudos, o trabalho de meio período é permitido sob determinadas condições e com autorização migratória. Em resumo: estudar na Coreia requer planejamento de longo prazo que considere não apenas a escolha do curso, mas também o idioma e as perspectivas profissionais no país.

    Por Redação

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