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A 16ª edição do Mapa do Ensino Superior no Brasil* confirmou uma tendência esperada nos últimos anos: a educação a distância (EaD) finalmente superou o ensino presencial no número de matrículas. Conforme o tradicional levantamento do Instituto Semesp, divulgado em março, a modalidade já responde por 50,7% dos estudantes do País.
Isso não significa, porém, que o formato seguirá nessa espiral de crescimento. Após a forte expansão observada no período pós-pandemia, a EaD avançou 5,6% em 2024, bem abaixo dos patamares anteriores. O ensino presencial, por sua vez, teve uma queda de 0,5% nas matrículas.
Mas e as recentes mudanças na regulação no setor educacional, têm algo a ver com isso? A resposta é: ainda não. Na introdução ao estudo, o Instituto Semesp deixa isso bem claro, lembrando que os dados são referentes a um período anterior à publicação do novo marco da EaD, ocorrida em maio de 2025.
A pesquisa conta, ainda, com um capítulo especial sobre a organização acadêmica das instituições de ensino superior (IES), destacando a hegemonia dos centros universitários e a perda de espaço das faculdades.
A seguir, o portal Desafios da Educação traz um resumo desses e outros temas abordados no Mapa.
O ensino superior brasileiro voltou a crescer entre 2023 e 2024, mas em ritmo mais lento do que nos anos anteriores. O total de matrículas chegou a 10,2 milhões, alta de 2,5% no período. O avanço foi puxado pela rede privada, que cresceu 3,2%, enquanto a pública registrou uma leve retração, de 0,2%. Com isso, o setor privado passou a concentrar 79,8% dos alunos.


Nos cursos EaD, o aumento de ingressantes chegou a 360% entre 2014 e 2024. Hoje, 97,3% dos novos alunos da modalidade estudam em IES privadas.
Entre 2023 e 2024, o número de ingressantes aumentou 1% na rede privada e 2,6% na pública. Ainda assim, o ganho foi mais moderado do que em ciclos anteriores. Houve queda de 5,9 pontos percentuais em relação ao período anterior, que também havia sofrido decréscimo em relação a 2022.

Para o vice-presidente da Associação Brasileira de Educação a Distância (Abed) e reitor da Universidade Católica de Brasília (UCB), Carlos Longo, ainda é cedo para dizer que a EaD entrará em desaceleração. E cita as áreas de Negócios e Tecnologia da Informação para compreender melhor essa dinâmica (leia mais no tópico sobre os cursos mais procurados).
“Não acredito em uma retração significativa nessas áreas”, afirma o gestor. “No entanto, é evidente que os estudantes trabalhadores preferem o ensino híbrido, especialmente em cursos nas áreas de Saúde, Engenharia e Licenciaturas. Dessa forma, o formato semipresencial tende a crescer nos próximos anos e se consolidar nessas disciplinas.”
A pesquisa aponta também para uma mudança no perfil da demanda. A educação a distância concentra, majoritariamente, estudantes mais velhos: 67,3% têm 25 anos ou mais, com forte presença na faixa entre 30 e 49 anos.
No presencial, o perfil é outro: 70,3% dos alunos têm até 24 anos — proporção que chega a 61,9% apenas na rede privada. A EaD, portanto, tem funcionado como principal porta de entrada para quem ingressa mais tarde ou retorna aos estudos.

Mesmo com o crescimento no número total de matrículas, o acesso dos jovens segue limitado. A taxa líquida de escolarização permanece em 20,8%, praticamente estagnada e distante das metas nacionais. O dado indica que a expansão recente — concentrada no público adulto e na EaD — tem pouco impacto sobre a faixa etária de 18 a 24 anos, considerada estratégica para a ampliação do ensino superior no País.

Esse movimento aparece também entre os ingressantes. Na rede privada, a única faixa etária que apresentou queda entre 2023 e 2024 foi a de até 24 anos, com recuo de 1,5%. No sentido oposto, o maior crescimento ocorreu entre pessoas com mais de 60 anos, com alta de 12,4%.

Parte desse cenário está relacionada ao perfil da oferta. Instituições com fins lucrativos representam 58% das IES brasileiras e têm papel central na expansão da EaD, com cursos de menor custo e maior alcance territorial. O modelo amplia o acesso, mas não tem conseguido, até agora, alterar de forma significativa o ingresso dos mais jovens.
Os efeitos aparecem também nas taxas de permanência. A evasão segue elevada, sobretudo na rede privada e no ensino presencial noturno — segmento que perdeu espaço ao longo da última década com o avanço da EaD.
Em 2024, a taxa de evasão nos cursos presenciais foi de 24,8%, com a rede privada registrando 26,6%, acima da pública (21,4%). Embora tenha havido leve queda em relação a 2023 (28,2%), o índice aponta um desafio persistente para as instituições privadas.


Na educação a distância, os índices são ainda mais altos. Em 2024, a evasão total chegou a 41,6%, com a rede privada alcançando 41,9%, frente a 32,2% na pública. Trata-se do maior patamar da série histórica no setor privado, evidenciando uma velha dificuldade das IES.
Nesse sentido, é importante que as instituições entendam melhor seu público-alvo. Longo observa que alunos com mais tempo livre e maior renda tendem a optar por cursos presenciais. “Por outro lado, se o público-alvo for formado por pessoas que trabalham no turno da noite, é fundamental oferecer currículos mais flexíveis, evitando aulas presenciais noturnas diariamente”, diz o vice-presidente da Abed.
Ao mesmo tempo, cresce a concentração no setor. Um grupo restrito de mantenedoras — 1,4% do total — reúne 47,1% dos estudantes, indicando redução da diversidade institucional. Na rede privada, a disparidade é ainda maior: 1,2% das IES detêm 55,1% do total de matrículas.

As desigualdades regionais também persistem: o Sudeste, sozinho, soma 4,52 milhões de alunos, o equivalente a 44,2% das matrículas do Brasil. E, apesar da relevância das políticas públicas para a democratização do acesso, seu alcance permanece limitado diante da retração de programas como Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) e Programa Universidade para Todos (Prouni).
Em um cenário de mudanças rápidas — tanto pela incorporação de tecnologias quanto pelas exigências de qualificação —, o desafio passa por ampliar o acesso, mas também garantir permanência e formação consistente.

Segundo Carlos Longo, todos esses dados refletem algo que já era esperado pelos analistas do mercado educacional. Entretanto, ele lembra que o setor está passando por um momento de mudanças regulatórias importantes.
As próximas edições do Mapa deverão ser impactadas pela transição para o marco legal da EaD e os novos referenciais de qualidade do ensino superior. O educador ainda destaca os baixos resultados do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed), que sugerem que “a expansão de vagas na Medicina não se traduziu em uma melhoria na qualidade do ensino”.
“São fatores que irão transformar o mercado do ensino superior nos próximos dois a quatro anos. Estamos saindo de um cenário de oferta excessiva de cursos e preços baixos para um mercado de demanda seletiva, no qual os candidatos escolherão os cursos e formatos que melhor se ajustam ao seu estilo de vida e renda”, aponta Longo.
Nesse contexto, o reitor da UCB considera que as IES regionais que souberem entender seus mercados e áreas de influência podem alcançar um crescimento sustentável. “Por outro lado, aquelas que tentarem apenas vender promoções e preços baixos, sem uma conexão com a persona de seu público-alvo e com os arranjos produtivos, enfrentarão sérios problemas de sustentabilidade.”
Em um capítulo especial chamado O Retrato das Organizações Acadêmicas da Rede Privada no Brasil, o Mapa do Ensino Superior mostra que uma das principais transformações recentes do setor está na forma como ele se estrutura.
O estudo revela que 87,6% das IES brasileiras são privadas — uma queda de 0,2 ponto percentual em relação ao período anterior. Ao todo, são 2.244 instituições: 1.745 faculdades, 409 centros universitários e apenas 90 universidades. A distribuição numérica, no entanto, não reflete o peso real de cada modelo.

Entre 2014 e 2024, os centros universitários cresceram 201%, enquanto o número de faculdades recuou 5,7%. No mesmo período, o total de instituições privadas avançou 8,4% e o número de universidades, 7,1%.
Essa mudança aparece de forma mais clara nas matrículas. Em 2014, as faculdades concentravam 36% dos estudantes da rede privada. Em 2024, essa participação caiu para 12,4%. Já os centros universitários passaram de 21,6% para 42% das matrículas, um avanço de 20,4 pontos percentuais que coloca esse tipo de IES como o grande vetor de crescimento do ensino superior.

O deslocamento está associado, em parte, ao ambiente regulatório. Centros universitários têm maior autonomia para abertura de cursos e reorganização da oferta, o que favorece estratégias de expansão mais rápidas.
Ao longo da última década, centenas de faculdades migraram para essa condição, enquanto algumas IES avançaram para o status de universidades. Esse fluxo indica uma busca por modelos com maior capacidade de operação e expansão.
Um ponto destacado no capítulo especial é o uso intensivo da EaD pelo setor privado, especialmente universidades e centros universitários, reforçando seu papel no atual modelo de crescimento. A combinação entre autonomia institucional e oferta escalável ajuda a explicar a concentração de matrículas nesses formatos — e a consequente perda de espaço das faculdades.
Um dos entrevistados para o estudo, o presidente da Associação Brasileira de Avaliação Educacional (Abave), Joaquim José Soares Neto, não acha que a mudança tenha sido fruto de uma política pública malsucedida porque, no passado, havia uma limitação muito grande de vagas, sem acesso para a grande maioria da população.
Porém, entende que é necessário refletir como os centros universitários podem ajudar a alavancar o desenvolvimento do País. “Precisamos ampliar o papel dessas instituições, para que elas estejam envolvidas na solução dos problemas dos locais onde atuam para além apenas de ensino, pesquisa e extensão”, ressalta.
Já a coordenadora do Laboratório de Pesquisa em Ensino Superior da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Maria Ligia Barbosa, acredita que, mesmo com “retração notável nos últimos anos”, as faculdades representam um modelo institucional de difícil substituição por seu espalhamento no território nacional, por oferecer cursos presenciais e noturnos e pela ampla oferta de formação de professores.
“Há muita controvérsia e pouca regulação da EaD, e as faculdades isoladas podem se mostrar como um porto mais seguro. É bom frisar que este é um tema importante de pesquisa, com muitas hipóteses e dados empíricos ainda pouco trabalhados”, pondera a professora.
O levantamento traz também rankings com os cursos mais procurados. E o que se percebe é que a distribuição das matrículas no ensino superior brasileiro segue altamente concentrada em poucas áreas de formação.
O maior volume de estudantes está no grupo de Negócios, Administração e Direito, que responde por mais de um terço (34,5%) das matrículas. A liderança se explica pela combinação entre alta demanda histórica, oferta — sobretudo na rede privada — e facilidade de adaptação ao formato a distância. Na sequência aparecem as áreas de Saúde e Bem-Estar e Educação, que também concentram grandes contingentes de alunos.
O dado mais dinâmico do levantamento está nos cursos de Computação e Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC). Eles apresentam as maiores taxas de crescimento recentes: entre 2023 e 2024, as matrículas avançaram 9,2% no ensino presencial e 12,5% na modalidade a distância. É o ritmo mais acelerado entre os principais grupos de formação, puxado pela demanda do mercado de trabalho.



Na prática, o que o Mapa revela é uma divisão clara:
*O Mapa o Ensino Superior no Brasil utiliza a seguinte base de dados: Censo da Educação Superior, de 2014 a 2024; Censo da Educação Básica, de 2015 a 2020; Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), de 2021 a 2025; microdados do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), de 2015 a 2025; Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade), de 2021 a 2023; Pesquisa de Mensalidades Aplicadas do Instituto Semesp, de 2025; análises de Big Data.
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Por Redação
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