Por que apenas trocar de software não salva uma EaD em crise

Redação • 8 de julho de 2026

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    Já se tornou algo recorrente na educação a distância (EaD): quando as salas virtuais ficam vazias e as taxas de evasão começam a preocupar, muitos gestores creem que o problema está na tecnologia. A saída é trocar o software por um mais moderno, como se essa fosse a fórmula mágica contra o baixo engajamento. 


    Não há como negar que as plataformas de aprendizagem estão cada vez mais robustas, oferecendo melhores possibilidades de interação e acompanhamento dos estudantes. Porém, de nada adianta se as instituições de ensino superior (IES) utilizarem os recursos sem nenhum critério. 


    Neste texto, duas especialistas ouvidas pelo portal Desafios da Educação explicam como fazer da tecnologia uma aliada — e por que uma EaD de qualidade não se constrói apenas com a escolha da plataforma. 



    O erro começa no diagnóstico (ou a falta dele) 


    A tentação de atribuir a culpa às ferramentas digitais pelos baixos indicadores de uma IES é, até certo ponto, compreensível. Como o ambiente virtual de aprendizagem é a principal interface entre a instituição e o aluno, dificuldades como a falta de engajamento ou a baixa qualidade na experiência online podem parecer falhas na infraestrutura tecnológica.


    De acordo com a professora Rosi Vizentim, mestre em Tecnologias da Inteligência e Design Digital pela PUC-SP e especialista em Educação a Distância, esse raciocínio parte de uma premissa equivocada: a de que a plataforma, sozinha, é capaz de resolver um problema pedagógico.



    “Ela pode facilitar o acesso, organizar materiais e ampliar recursos”, afirma a educadora, que já havia levantado o debate sobre o tema em post no LinkedIn. “No entanto, se o curso continua sendo pensado como simples transposição de conteúdo, se o ambiente virtual funciona apenas como repositório de arquivos e se os professores não foram formados para mediar a aprendizagem no digital, a troca de plataforma apenas muda a aparência do problema.” 

     

    Para evitar esse tipo de erro, a IES precisa definir alguns critérios ao adotar decisões relacionadas à tecnologia. Conforme Vizentim, ao fazer esse diagnóstico, os gestores devem se fazer as seguintes perguntas: 

     

    • Que experiência de aprendizagem estamos oferecendo? 
    • Como os professores foram preparados para atuar no digital? 
    • Que tipo de interação está sendo proposta? 
    • Como a avaliação está sendo conduzida? 
    • O estudante encontra percurso, presença docente e sentido nas atividades? 

     

    A supervisora acadêmica do Núcleo de Educação a Distância da Universidade Católica de Pelotas (UCPel), Maria Helena Padilha Bandeira Moraes Hernandes, considera que o investimento em ferramentas tecnológicas só é válido se impactar a experiência do aluno. E ressalva: seja qual for o ambiente utilizado, a presença pedagógica do professor continua sendo um elemento central. 


    “Essa presença não depende de estar fisicamente em uma sala de aula; ela se manifesta pela intencionalidade com que o docente organiza as atividades, acompanha o percurso do estudante, oferece feedback, promove interações significativas e cria oportunidades para que ele participe ativamente da construção do conhecimento”, destaca. 

     

    A educadora entende que, no ambiente virtual, há tendência maior ao distanciamento e à passividade. Para que isso não se torne uma dor de cabeça, o planejamento didático deve contemplar metodologias que estimulem a aprendizagem ativa, a colaboração e a resolução de problemas. 


    Adaptação para o ambiente online 


    A transposição didática é um dos principais desafios da educação a distância. Vizentim lembra que o formato EaD implica uma nova organização da jornada do estudante, mediação intencional, presença docente em diferentes formatos, atividades bem-estruturadas, feedback, interação e critérios claros de avaliação. 


    “Quando o professor apenas transfere para o online a mesma lógica do presencial, corre o risco de transformar o ambiente virtual em um depósito de PDFs, vídeos longos e tarefas pouco conectadas. O estudante acessa o conteúdo, mas nem sempre se sente acompanhado. Ele recebe materiais, mas nem sempre percebe uma experiência de aprendizagem”, compara. 

     

    A especialista alerta que, ao fazer a transposição didática, as IES têm de levar em conta que não basta simplesmente mudar o suporte; é necessário redesenhar a experiência. Por isso, a formação docente deve ir além da capacitação técnica. 

     

     “O professor precisa compreender como planejar uma aula online, propor atividades significativas, acompanhar a participação, avaliar com mais consistência e usar tecnologias — inclusive a inteligência artificial (IA) —, com critério pedagógico”, resume. 


    Por que a IA não é o problema 


    Embora as discussões sobre o melhor uso pedagógico da IA generativa estejam apenas começando, a tecnologia já mostrou a que veio, escancarando práticas obsoletas. Essa limitação fica evidente em atividades baseadas na reprodução de conteúdo, com a entrega de respostas previsíveis ou avaliações centradas apenas no produto final. 


    “Com a IA generativa, esse modelo fica mais frágil, porque o estudante passa a ter acesso imediato a ferramentas capazes de produzir textos, resumos, respostas e análises em segundos”, explica Vizentim. 

     

    A tendência, novamente, é atribuir a culpa à tecnologia — no caso, a inteligência artificial. Mas ela não é a verdadeira causadora do problema. 


    “O problema aparece quando a instituição ainda trabalha com práticas pedagógicas e avaliativas que não exigem autoria, processo, argumentação, reflexão crítica e acompanhamento”, ressalta a consultora. “Nesse sentido, a IA funciona quase como um revelador: ela expõe fragilidades na formação docente, no desenho das atividades, na avaliação e na própria cultura institucional sobre aprendizagem.” 


    Capacitação é a melhor estratégia 


    Na Universidade Católica de Pelotas, as ações de capacitação combinam atividades presenciais e online planejadas a partir de demandas das coordenações de curso, pesquisas com estudantes, contribuições do Núcleo de Apoio ao Estudante e temas emergentes, como mudanças na legislação e nas diretrizes do Ministério da Educação (MEC). 


    Entre os assuntos abordados recentemente estão o novo marco regulatório da EaD, metodologias ativas, avaliação, acessibilidade, desenho de experiências de aprendizagem e o uso de IA nos processos educacionais. 


    “Buscamos discutir como as ferramentas digitais podem fortalecer a presença do professor e favorecer a participação ativa dos estudantes. O foco está na integração entre tecnologia, metodologias e objetivos de aprendizagem, para que os recursos façam sentido dentro da proposta pedagógica de cada disciplina”, diz a supervisora acadêmica Maria Helena Hernandes. 


    Tecnologia é essencial — desde que a serviço da pedagogia 


    Se o problema não se resolve apenas com tecnologia, onde as instituições devem concentrar seus esforços? A UCPel buscou responder a essa pergunta com uma estratégia simples: utilizar os recursos com intencionalidade pedagógica


    O Campus Digital da universidade, desenvolvido sobre o ecossistema da Plataforma A, funciona como o principal ambiente de aprendizagem dos cursos EaD e semipresenciais e como apoio às atividades acadêmicas de cursos presenciais. 


    Além das ferramentas de organização das disciplinas, comunicação, atividades e avaliações, o espaço virtual reúne um conjunto de recursos que amplia as possibilidades para o aluno. Um deles é a biblioteca digital, que disponibiliza o acervo correspondente à bibliografia básica e complementar prevista nos planos de ensino. 

     

    Os estudantes ainda têm acesso a laboratórios virtuais, que permitem vivências práticas em diferentes áreas do conhecimento. Também podem trabalhar com objetos imersivos e outros recursos que favorecem a experimentação, a visualização de conceitos e o desenvolvimento de competências. 

     

    Contudo, a supervisora acadêmica reforça que o potencial dessas soluções depende da forma como são integradas ao planejamento pedagógico. “A tecnologia nos traz novas possibilidades de ensinar e aprender, mas é a mediação docente que transforma esses recursos em experiências de aprendizagem relevantes”, argumenta Hernandes. 

     

    A professora Rosi Vizentim concorda que esse é um ponto que os gestores devem priorizar ao implementar qualquer tipo de tecnologia. “Educação a distância de qualidade não nasce da plataforma, mas de uma combinação entre projeto pedagógico, formação docente, mediação, avaliação e tecnologia bem orientada”, conclui. 

     

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